
DOM RODOLFO PROFETA DA ADOÇÃO A DISTÂNCIA
Dom
Rodolfo Italo Cherubini O.S.B, responsável pelo apadrinhamento de mais de duzentas
crianças brasileiras por italianos, no âmbito do Projeto “Esperança: Adoção
à Distância”, passou o mês de agosto/2001 , visitando estas crianças adotadas,
nos vários recantos do nosso país.
De
Roma, foi para Santa Catarina, São Paulo e Jundiaí, onde temos existem oitenta
crianças adotadas assistidas pelo projeto. Conosco, aqui em Ribeirão Preto, ficou
três dias, juntamente com o sobrinho , Padre Paulo.
Houve
um grande entusiasmo por parte de todos. Pois ele, com seu jeitão simples e,
às vezes, algo impetuoso, à maneira peninsular, soube a todos conquistar. Com
as crianças, aquele homenzarrão parecia se derreter completamente. Se interessou
por todas as crianças, perguntando, a
respeito de suas famílias, de seus
estudos, seus cursos de computação, de línguas, etc... Se fez fotografar
com cada criança, para poder levar seus retratos aos padrinhos da Velha Bota.
Viviane suscitou um particular interesse em Dom Rodolfo, pois era irmã do nosso
primeiro adotado, que foi assassinado,
tendo seu corpo sido escondido em um matagal.
Juntos
fomos procurar crianças nas mais longínquas periferias. Elas responderam com
muitas manifestações de afeto, incluindo cantos, shows e danças folclóricas.
Laura e sua avó deram um show de comunicação, durante a entrevista à rede de
televisão, onde mostraram toda sua alegria e gratidão, uma vez que não entendiam
como “pessoas do outro lado do mundo pudessem pensar nelas”. Ulisses contou
a história dos seus irmãos mortos, por causa das drogas, e disse que “dessa,
ele estava fora”. Edimilson mostrou, orgulhosamente, seus trabalhos de marcenaria.
Procuramos o apoio da mídia para cobrir esta visita tão profícua; até mesmo, para suscitar interesse (quem sabe?) de possíveis padrinhos em nossa cidade. Afinal, somos nós que devemos cuidar das nossas crianças. E, com a divulgação do trabalho de apadrinhamento à distância, no momento, já alcançamos uma enxurrada de pedidos para socorrer crianças necessitadas.

Não
há falta de generosidade no Brasil, mas, sim, de conhecimento de como suscitar
tal interesse, e Dom Rodolfo foi mestre nisso! É por isso que este trabalho
está se estendendo também à Índia e à África.
Aliás,
nos trinta anos em que se dedicou ao Brasil, entre outras façanhas, ele conseguiu
construir cerca de cinco igrejas, que são verdadeiros monumentos, tudo sem gastar
um tostão, mas sempre confiando na Providência Divina. Conseguia dos empresários
tudo de que precisava: tijolos, areia,
cimento e ferro.
Obrigado a voltar à Itália, pelas necessidades e regras da Ordem, aqui deixou seu grande coração. Isto o impulsionou a trabalhar para o Brasil, conseguindo convencer seus superiores a atuar junto ao Projeto de “Adoção à Distância”. O primeiro país a ser beneficiado foi o Brasil.

Sua
permanência em nossa cidade foi curta, mas deixou marcas profundas. Além de
visitar as crianças, fez questão de conhecer a capela da família deste escrevente,
dedicada à N. Sra. de Toledo Palumbo, e a vizinha Casa da Meditação Ecumênico-Cristã,
“Disciplina Pacis”. Achou que estavamos no caminho certo, me abraçou e disse
que estava orgulhoso de mim.
De
São Paulo, ainda me telefonou para que fosse buscar algumas medalhas de São
Bento, que deixara com as irmãs. Ele mesmo desenhou estas medalhas, nas quais,
propositalmente, representa o Santo de olhos fechados, frisando a imensa necessidade
que o mundo moderno tem de espiritualidade, de interioridade e da procura de
Deus na contemplação.
Antes
de seu retorno para São Paulo, insistimos para que ficasse mais em Ribeirão
Preto, terra de clima quente, para que se restabelecesse da forte gripe, contraída
no frio de Santa Catarina e de São Paulo. Infelizmente, na véspera de sua volta
à Itália, cheio de entusiasmo, mas muito enfraquecido pela gripe, pelas viagens,
pelos trabalhos, além de sua própria idade (setenta e sete anos), foi acometido
por meningite viral, entrando em coma profundo, sendo internado no Hospital
São Camilo, em São Paulo.
Antes de perder a consciência, por duas vezes, fixou seu olhar no olhar do sobrinho padre, abaixou a cabeça e repetiu a palavra “paciência, paciência!”. Em seguida, perdeu a consciência. Ainda queria fazer muito pelas crianças mais necessitadas do Brasil e do mundo, mas, como seu Mestre Divino, soube aceitar a vontade do Pai.

Naquela
“paciência, paciência”, há a continuação da obra amorosa do Pai, que através
do Filho, nos doa todo seu Amor. Na oferta do Filho Jesus, Rodolfo, você e eu
pequeninos recebemos do Pai o poder de santificar-unir todas as criaturas na
Paz. Emitindo o suspiro, o último suspiro consciente e amoroso “Pai, em tuas
mãos entrego o meu Espírito” Tudo atrairemos a nós ... “Quando serei elevado
na cruz, atrairei tudo a mim”, disse o Mestre!
E,
agora, às dez horas da manhã, do dia três de setembro/2001, enquanto escrevo,
exatamente, o último parágrafo deste texto, chega de São Paulo, a notícia da
volta do Rodolfo para a Casa do Pai do Céu!
Se,
por um lado, uma nuvem de profunda tristeza nos encobre, por outro lado, temos
a graça de assistir a um pôr-do-sol belíssimo, que se abre em uma aurora ainda
mais bela. O Mestre Divino realizou o desejo do discípulo que, aqui no Brasil,
deu seu coração. Já não está mais fisicamente entre nós. Seu corpo repousa no
Cemitério de N. Sra. de Montenegro, em Jundiaí, em frente ao Santuário que ele
construiu. Agora, está descansando onde queria.
Para nós, fica sua inspiração de dar continuidade ao Projeto de “Adoção à Distância”.
P.S.
Após poucos dias do falecimento de Dom Rodolfo, estamos recebendo os
primeiros pedidos de cidadãos ribeirão-pretanos, que estão aderindo ao Projeto
de “Adoção a Distância”!
Simples
coincidência, ou continuação do trabalho de Dom Rodolfo lá do Céu?
[Mario Palumbo/ 2001]