Canto Gregoriano entra no Ipobe*
*Artigo de Mário Palumbo Publicado em Rumos em Maio de 1994.
O canto gregoriano tomou nome do bispo de Roma, Gregório Magno, papa de 590 a 644.
Foi chamado de Grande pela contemplação e ação. Lutou contra a peste, a fome e as invasões dos bárbaros. Chamou-se e foi deveras "Servo dos servos" de Deus. Ao ver jovens ingleses vendidos no mercado de Roma exclamou: "Não são anglos, são anjos, e logo enviou monges para evangelizar a Inglaterra.
O gregoriano talvez tenha a ver com a simplicidade e magnitude, humildade e nobreza, contemplação e dinamismo do santo .
O canto gregoriano afunda suas raízes na penumbra da Idade Média infundindo ternura nos séculos de ferro tão mal julgados. Era o canto do povo, na linguagem do povo da velha Europa: o latim.
O ano girava em volta das grandes festas religiosas e o dia era dividido nas horas do culto divino.
Homens e mulheres deixavam seus afazeres, príncipes e cavalheiros deixavam as espadas, os camponeses, as enxadas para juntos se irmanarem aos monges e cônegos no canto das laudes e das vésperas. Diariamente era assim. Quem estivesse no campo na sexta (meio dia) lá mesmo cantava. Francisco e Jacopone, os trovadores de Deus, continuavam cantando o dia inteiro.
O servo da gleba não tinha dinheiro, mas não lhe faltava o pão, o teto e a segurança de sua família feudal, não sofria do estress da acumulação . O canto era o bálsamo e alegria do seu dia-a-dia.
Nas festas e quaresma cessavam as guerras para cantar a vitoria da cruz e a ressurreição.
Por séculos foi assim. A industrialização mudou tudo. Trouxe a secularização e enclaustrou o gregoriano nos mosteiros beneditinos. São famosos as abadias de Beuron, Solesmes, Sant'Anselmo e Vallombrosa onde centenas de jovens ainda hoje cantam laudes de Deus pela madrugada, as vésperas e matutinas à noite.
Formam estes mosteiros como que oásis da paz no deserto a hospedar pessoas cansadas de efêmero, em busca do absoluto e transcendental.
Mas qual o segredo do canto gregoriano? A estética da solenidade na simplicidade? A linearidade?
A predominância do elemento coral? A suavidade do canto sem acompanhamento?
O balbuciar sílabas incompreensíveis como a dos carismáticos ou gemidos dos budistas?
Todos estes elementos podem ter seus efeitos relaxantes e terapêuticos, no mundo de hoje tão necessitado de paz e harmonia.
Talvez seja por isso que o gregoriano, hoje, está saindo dos templos e invadindo bares e casas noturnas mais sofisticadas.
Este é o valor do canto gregoriano? Não, ele é transcendental. Surgiu pelo encontro com a Palavra, feita bíblia, liturgia-contemplação, união mística com Deus.
Nasceu para receber e transmitir o Logos. Verbo, que se faz carne.
Na simplicidade do canto linear, no ninar da melodia, ouvimos, mastigamos, contemplamos a Palavra. Ela é única na multiplicidade, desce suave como orvalho, penetra no coração, canta em mil maneiras a riqueza da Escritura Sagrada, nas sete tonalidades gregorianas que Deus é nosso pai, por isso entregou-nos seu Filho Unigênito com a tarefa de pacificar os homens e o cosmo.
O esvoaçar lento e solene das notas gregorianas produz a simbiose com a Palavra que, fecundada pelo Espirito, gera o homem novo, pacificado consigo com Deus e pacificador do homem e da natureza. Talvez seja esta a missão comunitária do canto gregoriano: dar o sabor de Deus à selvageria humana e à sua orgulhosa tecnologia.