|
POR QUÊ A MORTE E MORTE DE CRUZ? |
|
Artigo: Mario Palumbo |
O Filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson trouxe a tona antiga discussão teológica a respeito da salvação e do pecado, da dor e da morte.
Para maior elucidação da polêmica é preciso esclarecer os termos de pecado e de salvação. O que é pecado? Pecado liga-se à liberdade humana, à sua finitude e à possibilidade humana de ir contra si mesmo, contra a natureza e contra seu próximo, contra a vida, contra Deus.
O que entendemos por salvação? Entendemos a intervenção divina para libertar o homem de suas ontológicas limitações e contradições.
A intervenção divina realiza a salvação gratuitamente: eleva o ser humano a ser divino, participando sua vida divina.
Para isso Deus assume, em Jesus Cristo, a natureza humana com toda sua fraqueza, destrói o pecado, restabelece a paz do homem consigo mesmo, com seu habitat e com seu próximo e supera a finitude humana.
Como se efetua a salvação da parte de Deus? Pelas Escrituras, Deus realiza a salvação através do servo de Javé, (Isaias) que preanuncia o messias salvador Jesus Cristo. Ele, que não pode pecar, se torna pecado de toda a humanidade e redime-a através da sua morte de cruz e ressurreição.
O ser humano, na expressão plástica de Heidegger, “é um ser para a morte”.
Jesus Cristo é realmente humano. Traz o sofrimento e a morte física na sua biologia.
Mas precisava que o Filho do Pai morresse com tanta atrocidade?
A idéia de uma reposição da justiça através de um pagamento, de uma dívida que fosse paga através da morte tão violenta, ou também a idéia do restabelecimento da honra de Deus, nos parecem teorias mesquinhas que diminuem a grandiosidade da imagem do Deus-Amor.
O bode expiatório que é expulso da cidade e sobre o qual recaem os pecados do povo é liturgia vetero-testamentária.
Não seria uma influência de povos pagões?
Se a morte pertence à natureza humana, precisava porém que Cristo tivesse uma morte tão violenta, quando uma só gota de sangue, como diz São Thomaz de Aquino, poderia salvar a humanidade toda?
Seria Deus um pai sádico?
São João Evangelista mostra a solução plena a esta pergunta: “Assim Deus ama o mundo que entrega o seu Filho Unigênito à humanidade”.
Deus na sua infinita bondade torna-se um como nós em tudo excetuado no pecado. Nos doa sua vida para que o homem não conheça mais a morte do pecado, a morte do ódio, a morte da autodestruição, a morte da exclusão do irmão.
Deus nos doa a sua vida que não conhece finitude, nem estará sujeita aos limites do tempo e do espaço. Ele nos doa a vida plena que não conhece ocaso.
Ao assumir a natureza humana, além de lhe conferir a imortalidade, lhe doa o que é infinitamente mais sublime: a participação à sua vida divina! Torna-se o homem divino, inserido no Corpo de Cristo, um só com Ele, assim como Ele é um só com o Pai no Espírito.
A Sagrada Escritura ao referir-se à Redenção o faz sempre em função dos nossos pecados: “O sangue de Cristo será derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados” (Mt 26,28; I Cor11,24-25)
Conforme antiga teoria teológica (Dum Scoto), Deus, por sua pura gratuidade, se tornaria homem, mesmo sem o pecado.
Poderia-se dizer que a redenção do pecado seria o segundo efeito da salvação.
A Divina Misericórdia, mesmo rejeitada pelo pecado, agiria como um sábio médico que tirando o tumor (pecado), doa vida.
Somente a Encarnação do Verbo já seria suficiente para resgatar do pecado todo o gênero humano.
Voltamos a perguntar, por quê então uma morte tão violenta? Seria decisão do Pai?
A condenação de Cristo deve-se à maldade humana, ao pecado.
Cristo nasceu pobre, foi excluído, desprendeu-se de tudo, até da sua condição divina, morreu assassinado, eliminado na plenitude da sua vida, traído, torturado, abandonado pelos mais íntimos, sentiu, no âmago do seu ser, o abandono do Pai, do qual nunca se separou. Tudo isso é decorrência do orgulho humano que não tolera nenhuma ameaça ao seu ego, ao seu status, não aceita a defesa do pobre, a denuncia da injustiça, o desmascaramento da hipocrisia, quando isso ameaça privilégios econômico-sociais e religiosos.
Todos nós com Caifás decidimos: “que um só homem morra pelo povo para que a nação toda não pereça”! (Jô 11,50).
Todos nós estamos presentes nas pessoas de Pilatos, dos sacerdotes e gritamos com o povo de Jerusalém: “Crucifica-o”.
A condenação à morte de cruz do Cristo tem como causa imediata a garantia do cargo de Pilatos, da manutenção do status quo do estabeleshiment políticos e social dos donos do poder que precisam conservá-lo graças à exclusão da maioria que não podem, nem devem ter acesso a uma vida digna.
Jesus é condenado pela política e pela religião.
Teólogos e filósofos discutem sobre a origem do mal: se Deus causa o mal (o que seria uma contradição); se apenas o permite, (também esta hipótese um tanto piedosa não satisfaz); se o Alcorão, segundo o qual “Deus perdoa a quem quer e tortura a quem bem entende”; se, conforme Calvino: “ Deus não somente previu a queda do primeiro homem, e nela a ruína de toda a posteridade, como também a quis”; se...
No Evangelho encontramos a solução pratica: Jesus Cristo não faz teoria, coloca-se ao lado do homem, sofre com ele, está disposto a tudo, até morrer para nós. Pode dizer com a própria morte, (e que morte!): “Não haver maior amor que doar a vida pelos irmãos”
Aquele Vulto Santo de Cristo transfigurado pelo sangue, escarros, e hematomas, mais que nos levar à maldade humana, nos mostra a verdadeira Face de Deus, a sua infinita misericórdia!
Na penitenciaria mataram um jovem. A mãe chora convulsivamente. O rosto e pescoço daquela mulher estavam cheios de arranhões e cicatrizes que o filho drogado produziu.
Após vida de desprendimento e doação para o outro, após sua morte tão cruel, seu pedido de perdão em nosso favor, ninguém mais pode queixar-se de sentir-se sozinho.
O sofrimento de todos os homens, os mais bárbaros suplícios, todos os abandonos e exclusões estão selados na Cruz de Cristo, no Silêncio Amoroso do Pai.
O vulto de Deus tão suspirado por todas as religiões e culturas se manifesta em toda sua verdade, não na grandiosidade dos fenômenos cósmicos, no segredo da natureza ou no poder dos milagres mas sim no vulto agonizante do Cristo suando sangue no getsemani e dilacerado na cruz. È ai que se revela o verdadeiro vulto do Emanuel, o Deus conosco que se coloca ao lado de todos os sofredores e martirizados.
Ele assumiu todos os sofrimentos da humanidade e torna-se companheiro e salvador de todos.
O sofrimento da humanidade, que parece uma avalanche devoradora a nos destruir e ao próprio cosmo, é a dor de Deus que não acaba nas trevas do Calvário. Ele preanuncia a Ressurreição de Cristo, com “céus novos e terras novas”, não apenas no vislumbrar de uma vida após morte, mas desde já, aqui e agora. Então o Pai, com Jesus, no Espírito do Amor é recebidos nas moradias do coração dos que se abrem para a Vida. Com o Divino Mestre se compadecem com a dor e se colocam a serviço dos irmãos. Para quem vive de Deus e para Deus, não haverá mais dor, nem choro, pois o Pai-Mãe enxugará todas as lágrimas.
A vida assim torna-se um perene canto de louvor à Misericórdia Divina.
O servo de Javé, anunciado por Isaías com oito séculos de antecedência, já vislumbra o mistério do amor de Deus que nos salva e liberta da dor, ficando o Emanuel ao lado de todos sofredores, sofrendo com eles e por eles:
“Desprezado e evitado pela gente,
homem acostumado a sofrer, curtido na dor;
ao vê-lo cobriam o rosto;
desprezado, nós o tivemos por nada;
ele, que suportou nossos sofrimentos
e carregou nossas dores,
nós o tivemos como um contagiado,
ferido de Deus e afligido
Ele, ao contrário, foi trespassado
por causa de nossas rebeliões,
triturado por causa de nossos crimes.
Sobre ele descarregou o castigo que nos cura,
e com suas cicatrizes nos curamos
Todos nós andávamos perdidos como ovelhas,
Cada um para seu lado,
e o Senhor fez cair sobre ele
todos os nossos crimes.
Maltratado, suportava, não abria a boca;
como cordeiro levado ao matadouro,
como ovelha muda diante do tosquiador,
não abria a boca.
Sem detenção, sem processo, tiraram-no do meio.
Quem meditou em seu destino?
Arrancaram-no da terra dos vivos,
Pelos pecados de meu povo o feriram.” (Isaías, 53, 3-8)
Não conseguimos encontrar nenhuma explicação plausível ao mistério da encarnação de Cristo e à sua entrega voluntária à morte e morte de cruz para a nossa salvação.
Há por acaso lógica à nossa existência ou à existência do cosmo?
Entendemos a lógica do amor humano?
Mais que a procura de discussões filosóficas, não é mais valioso adorar e exultar de alegria face à gratuidade da bondade divina que nos amou primeiro (já no útero da nossa mãe) e que está à espera da nossa adesão a este infinito amor?