TRANSCREVEMOS AQUI O ARTIGO DO FREI BETTO EM OCASIÃO DOS 90 ANOS DE DOM HÉLDER CÂMARA

DOM HÉLDER CÂMARA, 90 ANOS
Completa 90 anos de idade, no próximo dia 7 de fevereiro, dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife. Em 1962, indicado pela Ação Católica de Minas, integrei a equipe de coordenação nacional da JEC (Juventude Estudantil Católica), no Rio. O assistente nacional da Ação era dom Hélder, bispo-auxiliar do cardeal do Rio, dom Jaime de Barros Câmara.
Durante três anos, convivi com o bispo que fundou a CNBB, a Cruzada São Sebastião, o Banco da Providência e, no Nordeste, a Operação Esperança, que deu acesso a terra a vítimas do latifúndio.
Magro, rosto chupado, a calvície mal disfarçada por uma réstia de cabelos, dom Hélder andava sempre de batina, mesmo após ser permitido aos bispos o uso de roupas comuns. De baixa estatura, padre Hélder – como prefere ser chamado pelo círculo de amigos mais próximos, alcunhados de “família mecejanense”, em alusão ao seu chão de origem, no Ceará – parecia um gigante ao abrir a boca, quando ainda pregava em público.
Não era um orador sacro à moda antiga, nem um pregador retórico pleno de pomposidade e vazio e conteúdo. Não se apresentava com a carranca dos arautos do Vale de Lágrimas, como se o inferno fosse o destino natural de todos nós, pecadores contumazes.
Dom Hélder pregava com vivacidade e entusiasmo – que significa etimologicamente “estar cheio de Espírito de Deus” – os olhos faiscando, as mãos esqueléticas e os braços finos em gestos exuberantes que lhe compensavam a estatura; o corpo erguido na ponta dos pés, como se a ênfase lhe brotasse do impulso de querer voar; o sotaque nordestino rasgado as vogais de suas mensagens em frases curtas, sem vírgulas ou circunlóquios.
O bispo brasileiro que mais influenciou o Concílio Vaticano II sempre teve idéias claras, articulando o ardor da fé com o clamor de justiça. Profeta, de sua mente jorravam projetos que mudariam a face da Igreja católica. E dele a iniciativa de organizar os bispos em conferências episcopais, os planos de pastorais e o exercício da colegialidade entre os prelados.
Graças a ele, parcela significativa da Igreja resgatou suas origens evangélicas no compromisso de justiça com os setores mais pobres da população.
Compadre de Roberto Marinho, dom Hélder resistiu quando JK quis faze-lo prefeito do Rio. Marcado por sua malfadada passagem pelo integralismo, nos anos 30, dom Hélder jamais entrou na política partidária. Assim como jovens esquerdistas fanáticos tendem a se tornar reacionários moderados na idade adulta, dom Hélder fez o percurso inverso.
Nunca aceitou o marxismo, malgrado sua fama de “bispo vermelho”. Defensor intransigente dos pobres, toda a sua atuação se pautou pela busca de uma alternativa que superasse tanto o comunismo quanto o capitalismo. Por essa utopia correu mundo, aprendeu a falar inglês com sotaque cearense e mobilizou multidões em metrópoles de países desenvolvidos.
No início de 1964, dom Hélder foi nomeado arcebispo de São Luís do Maranhão.
Quando se preparava para a posse, morreu o arcebispo do Recife. O papa João XXIII decidiu transferi-lo para a arquidiocese pernambucana.
Na última semana de março, eu me encontrava em Belém do Pará, no congresso latino-americano de estudantes. A 1º de abril, estourou o golpe militar. Escondi-me no seminário. Mas o arcebispo, dom Alberto Gaudêncio Ramos, passou a colaborar com a política, interessada em deter os padres “subversivos”. Ora, se nem o clero podia contar com o bispo, o que seria de nós leigos?
Corri para a agência da Varig. Minha passagem Belém-Rio tinha sido dada pelo Betinho, chefe de gabinete do então ministro da Educação do governo Jango, Paulo de Tarso dos Santos, deposto pelo golpe.
A atendente desapareceu com o meu bilhete. Retornou pouco depois. Comunicou que todas as passagens cedidas pelo governo anterior estavam canceladas.
Fiquei ali aturdido entre inúmeras pessoas que tentavam deixar a capital paraense. Na capa do bilhete, um carimbo nítido: “Cancelado”. Rasguei a capa e estendi a passagem a outra atendente:
<Já que não há mais lugar para o Rio, pode desdobrar minha viagem via Recife?>
Fui atendido.
Desembarquei no aeroporto de Guararapes no dia da posse de dom Hélder.
Cheguei ao palácio episcopal de Manguinhos na hora da recepção. Ao saudar o novo arcebispo, manifestei interesse de falar-lhe em particular. O homenageado largou a festa, trancou-se comigo numa sala e ouviu atento o que eu tinha a relatar sobre a igreja de Belém do Pará.
Ao longo das últimas décadas, encontrei-o em viagens e eventos eclesiais. Ne-le identifico o principal inspirador da “opção pelos pobres”, compromisso que propôs a um grupo de cardeais e bispos durante o Concílio. Ele é, portanto, o precursor da Teologia da Libertação.
Dom Hélder é para a Igreja o que Paulo Freire representa para a educação e os movimentos sociais. Sem a “pedagogia do oprimido” não haveria MST, CUT, CMP e PT. Sem dom Hélder talvez não houvesse comunidades eclesiais de base e pastorais sociais. Campanha da Fraternidade e Grito dos Excluídos.
Estivemos juntos em Puebla, no México na conferência episcopal latino-americana de 1979. eu, do lado de fora, em companhia de duas dezenas de teólogos da libertação: ele, do lado de dentro, repassando nossos subsídios aos bispos e, deles, às comissões e aos textos.
Vale definir dom Hélder como um “conspirador” – alguém capaz de conspirar a favor do bem com arte, verve, delicadeza e alegria. Nunca conheceu o desânimo e o luxo. Sempre se alimentou como um passarinho, de preferência em botequins nas imediações de seu local de trabalho.
A ditadura manteve o nome dele distante do noticiário nacional. Mas o êxito de suas pregações no exterior levou o Itamaraty a empenhar-se para que não recebesse o Prêmio Nobel da Paz. Talvez articulações semelhantes expliquem por que não mereceu também o chapéu cardinalício.
Perdeu o Nobel, perdeu a Igreja. Dom Hélder engrandeceria um e outro, pois ele sintetiza e simboliza o que de mais evangélico ocorreu na Igreja católica nesta segunda metade do século XX.
Padre Hélder, feliz idade!
Frei Betto é frade dominicano e escritor autor do romance sobre Jesus “Entre todos os homens” (Ática), além de outros livros.