de: f a u s t o
para: luiza de oliveira

 
Ti copio qui sotto un pezzo molto denso, profondo di Leonardo Boff.
Merita di essere approfondito, vissuto.
Ciao, fai sapere le tue reazioni,
fausto

 

Duas utopias urgentes para o século XXI

  Leonardo Boff

  Teólogo e membro da 
Comissão da Carta da Terra
 

  Vivemos no olho de uma crise civilizacional de proporções planetárias. Toda crise oferece a chance de transformação, bem como o risco de um fracasso desolador. Na crise, medo e esperança mesclam-se. Para reforçar a esperança, nascem as utopias. Por sua natureza, as utopias nunca vão realizar-se totalmente. Mas elas nos mantêm no caminho. São como as estrelas. Nunca as alcançaremos. Mas elas encantam a noite e orientam os navegantes. Bem disse um poeta desta cidade de Porto Alegre, Mário Quintana: 

Se as coisas são inatingíveis, ora!

Não é motivo para não querê-las.

Que tristes os caminhos se não fora

A mágica presença das estrelas. 

  No contexto da crise atual, vejo surgir duas utopias que são conaturais à teologia da libertação: utopia da salvaguarda da Casa Comum,o planeta Terra e a utopia da conservação da unidade da família humana. Consideremos a primeira.

A utopia da salvaguarda da Casa Comum

  A teologia da libertação nasceu ouvindo o grito do oprimido. Seu mérito foi ter dado centralidade ao empobrecido, fazendo-o sujeito de sua história e o lugar a partir do qual se entende melhor a natureza de Deus como o Deus da vida, a missão de Jesus como promotor de vida em abundância e a natureza da Igreja como sacramento, vale dizer, instrumento e sinal de libertação integral.

  Mas não só os pobres gritam. Gritam as águas, gritam as florestas, gritam os animais, gritam os ecosistemas, grita a Terra. Todos esses também são vítimas da mesma lógica que cria os empobrecidos. Por isso a Terra e a natureza são exploradas e devastadas. Na opção preferencial pelos pobres contra a pobreza e pela libertação -- marca registrada da teologia da libertação -- cabe o Grande Pobre que é a Terra, a única Casa Comum que temos para morar. Uma teologia da libertação somente será integral se incorporar, em sua reflexão e em sua prática, a libertação da Terra como sistema de sistemas, como superorganismo vivo da qual nós somos filhos e filhas junto com os demais organismos vivos, nossos irmãos e irmãs, também produzidos e alimentados pela Mãe Terra.

  Assim como o encontro com o pobre permitiu uma experiência espiritual originária, base de uma prática e de uma reflexão libertadora, da mesma forma, agora, o encontro com a questão ecológica propicia uma nova experiência do Sagrado e do Spiritus Creator agindo em sua criação, animando práticas alternativas no relacinamento com a natureza e em nosso estilo de vida. Dessa experiência e dessa prática projeta-se a utopia de salvaguarda da Terra.

  Essa utopia possui o caráter de urgência porque a nossa civilização construiu o princípio da autodestruição. Por vinte e cinco formas diferentes pode-se destruir o projeto planetário humano e ferir, profundamente, a biosfera. Já há quarenta mil anos, bem antes do neolítico (há dez mil anos), começou um assalto sistemático à biosfera, porque foram desenvolvidos instrumentos que tornaram bem sucedida a dominação da natureza. Em poucos milhares de anos, os caçadores extinguiram os mamutes, as preguiças-gigantes e outros mamíferos pré-históricos.

  Nos dias atuais, tal processo se agravou assustadoramente. Existe uma taxa de extinção de fundo que é norma no processo de evolução, cerca de trezentas espécies por ano. Mas, hoje, uma espécie, a cada treze minutos, desaparece, definitivamente, devido à voracidade produtivista e consumista dos seres humanos. Esse cenário dramático fez o grande historidor Arnold Toynbee(†1975) escrever, em seu ensaio autobiográfico Experiências (1969):"Vivi para ver o fim da história tornar-se uma possibilidde intra-histórica capaz de ser realizada não por Deus mas pelo ser humano". Não outra coisa pensava o conhecido cosmólogo Carl Sagan, pouco antes de morrer em 1996: as forças diretivas da natureza e do universo já não garantem mais o futuro da Terra, que, agora, depende da vontade política dos seres humanos. Para sobreviver, devemos quere-lo coletivamente. Por fim, ninguém melhor expressou o atual drama que a Carta da Terra, aquele documento fruto da reflexão mundial em vista da salvaguarda do planeta e que a UNESCO assumiu para ser divulgado em todas as escolas:

 Estamos diante de um momento critico da história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. A escolha é esta: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e cuidar uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a devastação da diversidade da vida.

  Agora, podemos entender o bem fundado da utopia da salvaguarda da Terra. Desta vez não haverá uma Arca de Noé que salve alguns e deixe perecer os demais. Ou nos salvamos todos ou perecemos todos. Tal urgência funda uma nova centralidade. A questão não é mais saber que futuro possui a civilização da tecnociência hoje globalizada, ou que futuro possui o cristianismo ou a teologia da libertação. A questão é saber que futuro possuem a Terra e a humanidade e em que medida nossa a tecnociência, a Igreja e a teologia da libertação ajudam a assegurar um futuro de esperança para todos.

  Para isso precisamos de um novo paradigma, que restabeleça uma aliança de paz duradoura com a Terra. Ele vem sob o nome de paradigma ecológico. Ecologia, aqui, não se resume a uma técnica de gerenciamento de recursos naturais escassos, mas implica um novo olhar para a natureza, a percepção de que não existe o meio ambiente (estamos cansados de meio ambiente, queremos o ambiente inteiro). O que realmente existe é a grande comunidade de vida, da qual nós somos um membro junto com outros, com a singularidade de sermos seres éticos e espirituais, com a missão de guardiães da criação, aqueles que cuidam de tudo o que existe e vive, porque tudo o que existe e vive merece existir e viver. Implica entender, como entendiam os povos originários e os cientistas de ponta hoje, que a Terra não é inerte, um baú de recursos ilimitados. A Terra é viva, equilibra todos os elementos físico-químico-ecológicos de forma tão sutil e integrada como somente um organismo vivo pode fazer. Por isso é chamada de superorganismo vivo, Gaia ou Pacha Mama. E o ser humano (homem e mulher) deriva de húmus (terra fecunda), como Adão provem de adamah, terra fértil. O ser humano, mais do que filho(a) da Terra, é a própria Terra, que, num momento de sua evolução, começou a sentir, a pensar, a amar, a cuidar e a venerar.

  Não há, aqui, tempo para detalharmos os princípios que dão sustentabilidade à utopia Terra. A nossa cultura os enviou ao exílio, mas, hoje, eles estão voltando e construindo as bases da geossociedade. É o cuidado que é uma relação amorosa para com a realidade, cuidado que constitui a ética básica que preserva a vida e garante a convivência de todos com todos. É a dimensão da anima, do feminino no homem e na mulher, que nos faz sensíveis à totalidade, que nos abre para captar as mensagens que todas as realidades irradiam e que confere centralidade à vida e à cooperação, superando a competição e a visão meramente utalitarista da natureza. Por fim, a espiritualidade como aquele momento da consciência que se sente ligada e religada ao Todo e que vive de valores não-materiais, como a compaixão, o amor, a solidariedade e o diálogo com a Fonte originária de todo o ser. Esses princípios nos permitem, como diz o grande poeta português Fernando Pessoa, "imaginar a vida como ela nunca foi".

A utopia da salvaguarda da unidade da família humana

  A segunda utopia consiste na salvaguarda da unidade da família humana. Há o risco real de que a família humana seja bifurcada entre aqueles que se beneficiam dos avanços tecnológicos e da biotecnologia e dispõem de todos os meios possíveis de vida e de bem-estar -- cerca de 1,6 bilhão de pessoas --, podendo prolongar a vida até os 130 anos, o que corresponde à idade das células, e a outra humanidade, os restantes 4,4 bilhões de seres humanos barbarizados, entregues à própria sorte, podendo viver, se tanto, até os 60-70 anos com as tecnologias convencionais, num quadro perverso de pobreza, miséria e exclusão social.

  Esse fosso deriva do horror econômico que tomou a cena histórica sob a dominação do capital globalizado. Considerando-se triunfante diante do socialismo, cuja derrocada deu-se no final dos anos 1980, exacerbou seus princípios, como a competição,o individualismo, a privatização e a difamação de todo tipo de política e satanização do Estado, reduzido ao mínimo. Duzentas megacorporações, cujo poder econômico equivale a 182 paises, conduzem, junto com os organismos da ordem capitalista, como o Fundo Monetário Internacional - FMI, o Banco Mundial - BM e a Organização Mundial do Comércio - OMC, a economia mundial apenas sob o princípio da competição sem qualquer sentido de cooperação. No Brasil há oito milhões de famílias de credores do governo, dispondo de R$ 700 bilhões (o 1% de ricos que detém 42% da riqueza nacional). Em tal sistema, tudo é feito mercadoria -- do sexo à mística, da água a órgãos humanos --, numa volúptia de acumulação desenfreada de riquezas e serviços à custa da devastação da natureza e da precarização ilimitada dos postos de trabalho.

  O risco consiste em que esses criem um mundo só para si, que rebaixem os direitos humanos a uma necessidade humana que deve ser atendida pelos mecanismos do mercado (portanto, só tem direitos quem paga e não quem é, simplesmente, pessoa humana), que façam dos diferentes desiguais e dos desiguais dissemelhantes, pessoas consideradas não-pertencentes à espécie humana.

  No Ocidente -- que é quem domina no processo de globalização -- nunca triunfou, politicamente, a idéia de igualdade. Ela ficou limitada ao discurso religioso-cristão, de conteúdo utópico. Esse déficit de uma cultura igualitária suprime os entraves que impediriam a bifurcação da família humana. Pode triunfar uma idade das trevas mundial, que se abateria sobre toda a humanidade.

  A utopia urgente é manter a unidade da família humana, habitando a mesma Casa Comum. Todos são Terra, filhos(as) da Terra, criados à imagem e semelhança do Criador, feitos irmãos de Jesus Cristo e templos do Espírito. Todos têm direito de ser incluidos nesta Casa Comum e de participar de seus dons.

  Para dar corpo a esta utopia, precisamos resgatar os valores ligados à solidariedade e à compaixão. Importa recordar que foi a solidariedade/cooperação que permitiu a nossos ancestrais, há alguns milhões de anos, darem o salto da animalidade à humanidade. Ao sairem para coletar alimentos, não os comiam individualmente, como faziam os animais maiores. Antes, reuniam os frutos e a caça, levavam-os para o grupo de co-iguais e repartiam-os, fraternalmente, entre todos. Desse gesto primordial nasceu a socialidade, a linguagem e a singularidade humana. Será hoje, ainda, a solidariedade irrestrita, a partir de baixo, a compaixão que se sensibiliza diante do sofrimento do outro, que garantirão o caráter humano de nossa identidade e de nossas práticas. Foi o que, vergonhosamente, faltou aos grandes credores internacionais, que, diante da tragédia dos tsunamis do sudeste da Ásia, não perdoaram os US$ 26 bilhões de dívidas daqueles paises flagelados, apenas protelando, por um ano, o seu pagamento. Sem o gesto do bom samaritano que se verga sobre os caídos da estrada, ou a vontade de infinita compaixão do bodhisattwa que renuncia a penetrar no nirvana por amor à pessoa que sofre, ao animal quebrantado ou ao raminho machucado, dificilmente faremos frente à barbárie cotidiana que se está fazendo natural em âmbito mundial.

  Termino este fragmento de reflexão. Na perspectiva dos astronautas, daqueles que tiveram o privilégio de ver a Terra de fora da Terra, Terra e humanidade formam uma unidade sem distinção, dinâmica, irradiante e aberta. Ambas estão, agora, ameaçadas. Ambas possuem um mesmo destino e comparecem, juntas, diante do futuro. Sua salvaguarda constitui o conteúdo maior de uma única grande utopia, a utopia do século XXI.

  Se nossa teologia não ajudar a sonhar esse sonho e não levar as pessoas a vivê-lo, não teremos cumprido a missão que o Criador nos reservou no conjunto dos seres, que é a de sermos o anjo bom e não o Satã da Terra, nem teremos escutado e seguido aquele que disse: "Vim trazer vida e vida em abundância". Cresçamos, irmãos e irmãs, conscientes de nossa responsabilidade, sabendo que nenhuma preocupação é mais fundamental do que cuidar da única Casa Comum que temos, procurando fazer com que toda a família humana possa viver unida dentro dela com um mínimo de zelo, solidariedade, irmandade, compaixão e reverência, que produzem a discreta felicidade pelo curto tempo que nos é concedido passar por este pequeno planeta.