Marcelo Barros*

HÉLDER CÂMARA, O SANTO REBELDE

 

Este é o título do novo filme da cineasta brasilense Érika Bauer, premiado no recente Festival de Fortaleza, como em premiére no Cine Bouganville Lumiére em Goiânia, em agosto. Até dezembro, grupos religiosos de várias tradições e pessoas comprometidas com a educação para a paz organizam em cidades do Brasil, como na Itália e na França, homenagens ao bispo Dom Hélder Câmara, no quinto aniversário do seu falecimento.

A missão de uma pessoa religiosa é ser testemunha da presença divina e do amor no mundo. Infelizmente, esta não é sempre a forma como líderes religiosos e fiéis compreendem a fé.

Um movimento religioso que tem crescido muito no mundo é o fundamentalismo,  que em diversos credos, propõe uma interpretação rígida e dogmática da fé, assim como busca poder para seus gurus. Na própria Igreja Católica, quem conhece os mecanismos do poder sabe que, hoje em dia, nunca um homem como Dom Hélder seria nomeado bispo. Até como padre ele teria dificuldade de ser aceito. Mas, para os grupos mais comprometidos com o diálogo e a paz, Dom Hélder é referência de novo ânimo no caminho. Em 1969, no Recife, Dom Hélder me ordenou padre e me escolheu para ajuda-lo no diálogo com outras tradições religiosas. Em 1999, vinte dias antes de sua morte, o visitei e lhe pedi uma palavra. Com esforço, sussurrou: “Não deixe cair a profecia”.

Hoje, Dom Hélder continua a dizer: “Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento e a dor do inocente, mas de combater o mal e a injustiça.

Esta é a tarefa de todos nós”.

Para crentes e não crentes, é bom recordar quatro elementos de sua profecia: 1. – Qualquer ser humano só pode ser verdadeiramente feliz no dia em que o mundo for um só e justo para todos.

Desde que Dom Hélder peregrinou pelo mundo afirmando esta profecia da inclusão, o mundo piorou muito. As injustiças se agravaram e continentes inteiros afundam na fome e na miséria.

Os Estados Unidos e a Europa erguem novos muros de discriminação e isolamento dos pobres. Ele insistia: “Nenhuma felicidade pode basear-se na infelicidade dos outros, porque ofenderia o sentido de injustiça que diz respeito a todos”.

2. – O apelo a nos constituirmos como “minorias abraâmicas.”

O mundo não mudará pela ação isolada de líderes esclarecidos e sim pelo empenho comunitário de grupos de resistência e de profecia que se consagrem a transformar o mundo a partir de uma profunda convicção de fé no ser humano e na vida. Estes grupos podem ser minorias na sociedade (Dom Hélder os chamava minorias abraâmicas), mas são fecundos fermentos de uma humanidade nova. Só neste caminho de humanização, tem sentido falar em fé cristã para as pessoas que querem crer e viver o Evangelho.

3. – O compromisso com a Paz e a Não violência.

A transformação do mundo começa pelo compromisso com a Paz e através de um método que elimine qualquer violência que existe em nossa forma de ser e de agir. Dom Hélder vivia isso profundamente. Na Igreja, sempre conviveu com padres e fiéis que discordavam de seu pensamento. Nunca os agrediu ou se valeu do poder eclesiástico para remove-lo de seus cargos eclesiais.

Mas sua opção pela não violência não o tornava menos forte na defesa da justiça. Diante de qualquer violência contra um pobre, ficava revoltado e tornava posições até perigosas para si mesmo. Sempre apoiou e defendeu os lavradores sem terra que continuam indefesos em sua caminhada e incompreendidos em sua causa. O cuidado com a Paz e a Não violência era também sua forma de viver as relações humanas na Igreja e no seu ministério de pastor. Quando ele faleceu, um padre falou: “Eu era pároco de uma Igreja central na cidade. Ele foi arcebispo por 21 anos.

Saiba que eu era contrário a posições que ele defendia e sempre me respeitou. Durante os 21 anos do seu ministério, nunca o vi levantar a voz contra ninguém”.

4. – O compromisso com o macro-ecumenismo.

Este termo foi proposto por outro irmão de Dom Hélder no episcopado, o também profeta dos pobres, Dom Pedro Casaldáliga. O macro-ecumenismo é mais do que o diálogo. Busca a comunhão das religiões e das culturas na construção da injustiça e da paz. A base deste caminho é o reconhecimento da presença e ação do Espírito Divino em todas as culturas e pessoas. Dom Hélder vivia isso. Desde os anos 60, era amigo de sacerdotes e sacerdotisas da religião dos Orixás. Em 1970 participou da Conferência das Religiões para a Paz em Kyoto no Japão. Ali, convocou representantes das diversas tradições espirituais a dar juntos o testemunho do serviço dos excluídos e a contemplar o rosto de Deus em todos os seres humanos.

É preciso nos sentir convocados/as de novo para este mutirão de esperança e solidariedade tão urgente no mundo.

Em 1994, Dom Hélder mandava esta mensagem ao movimento italiano Mani Tesi (Mãos Estendidas):”... não estamos sós. Por isso, não aceito nunca a resignação nem o desespero. Um dia, a fome será vencida e haverá paz para todos. A última palavra neste mundo não pode ser a morte mas a vida! Nunca mais pode ser o ódio, mas o amor! Precisamos fazer com que não haja mais desespero e sim esperança. Nunca mais vençam as mãos enrijecidas contra o outro e sim o que o movimento de vocês valoriza: Mãos estendidas! Unidas na solidariedade e no amor para com todos”.

 

*Monge beneditino, autor de 26 livros – e.maill – mosteirodegoias@cultura.com.br

 

Texto extraído do Boletim Rede de Cristãos das Classes Médias – Agosto-2004.

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