M E D I T A Ç Ã O    X   A D O R A Ç Ã O

 

 Mario Palumbo apresenta o texto de Romano Guardini

 

Este texto, após mais de 50 anos conserva a atualidade pois é baseado sobre verdades imutáveis e pode ser lido em chave de Meditação Cristã.

Aqui especificamos o que entendemos por meditação cristã, pureza de coração, adoração:

 

Meditação Cristã,  chamada também de oração do coração, ou oração silenciosa,  consiste basicamente em ficar com Deus, alertos,procurando de silenciar a mente, as emoções e o próprio corpo, ficando quietos,  de olhos fechados, repetindo mentalmente, com amor um mantra, uma (jaculatória) de preferência bíblica, como maranata, abba, Jesus, sem se preocupar com os pensamentos, deixando-os passar, sem se importar com eles.

 

Pureza de coração, na repetição silenciosa e constante da “humildade de um só versículo, ou de uma só palavra” como se expressa Cassiano, (século IV), na fidelidade de sua recitação duas vezes ao dia, por uns 20 minutos e na sinceridade do coração, este método, já  conhecidos pelos padres e madres do deserto, leva ao despojamento de si: à pureza do coração e abre a porta para a ADORAÇÃO , ou contemplação infusa, dom gratuito que Deus oferece a todos seus filhos. Neste estado a alma encontra seu centro, seu equilíbrio: Deus!

 

 

A ADORAÇÃO ( segue texto de Romano Guardini)

 

“A garantia da pureza do espírito é a adoração de Deus. Enquanto um homem adora Deus, se inclina perante Deus como digno de receber o poder, a honra e o comando, porque é o Verdadeiro e o Santo, Ele está protegido da mentira.

A pureza e a saúde do espírito são as maiores forças do homem – mas, porque o homem só é uma vez, também as forças mais vulneráveis e mais fáceis de seduzir devem ser protegidas. É preciso haver um meio de o homem distinguir o verdadeiro do falso, o puro do impuro. Não fazer o bem que reconheceu como tal, é grave e merece ser julgado por isso. Mas é incomparavelmente mais grave a falta de retidão na atitude perante a própria verdade; a mentira perturbando o olhar, porque perturba já o espírito. Deve por isso haver um meio de renovar continuamente o amor da verdade, para purificar o espírito, clarificar o olhar, corrigir o caráter. Esse meio é a adoração.

Nada é mais importante para o homem do que aprender a curvar a sua inferioridade perante Deus, a abrir-Lhe um lugar dentro de si, para que Ele aí desça e reine, porque Ele é digno de aí estar. Pensar que Deus é digno, infinitamente digno de adoração porque é Aquele que é, e adorá-lo na realidade interiormente, é um ato grande e santo que dá a saúde no que há de mais fundo.

 O nosso objetivo foi sempre o de compreender Cristo. Queremos fazê-lo, porque tocamos na raiz mais profunda da nossa vida interior. Deveríamos impor-nos a adoração. Há duas horas do dia particularmente indicadas para esse efeito, a manhã e a noite. Nós, modernos, já o não sentimos porque a aparição da luz e o cair da noite não têm sobre nós a força que têm sobre os homens que vivem mais profundamente na natureza. Sentimos, não obstante, ainda que com uma consciência pouco clara, que o começo da manhã produz o começo da nossa vida e que o fim do dia é uma antecipação do fim da nossa vida. Essas são as horas da adoração. É então que a devemos praticar. Não basta assim prestá-la quando sentimos vontade de o fazer. A oração não é apenas a expressão da vida interior do homem que quer manifestar-se, mas também o ato voluntário do homem que se torna a si próprio. Não nos é naturalmente fácil adorar Deus. Isso exige uma aprendizagem. Devemos assim  exercermo-nos, ajoelharmo-nos e dizermo-nos que Deus é e que Ele reina, que é digno de possuir a soberania sobre todas as coisas, que é digno de ser Deus... Encontraremos talvez um grande sentimento de bem-aventurança neste pensamento, que Deus é digno de ser Deus. Santos houve que morreram de amor por Ele.

Se empregarmos fórmulas de adoração, que nos sirvamos das da Escritura. No Apocalipse (4,11), encontrávamos uma. Há uma outra no capítulo sete: “Todos os anjos estavam em pé ao redor do trono e dos anciãos e das quatro criaturas viventes; prostraram-se sobre os rostos diante do trono e adoraram a Deus, dizendo: Amém. A bênção, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra, e o poder e a força sejam a nosso Deus pelos séculos dos séculos. Amém.” (Apoc., 7, 11-12).

Há também salmos magníficos, plenos de adoração. Encontram-se nos profetas textos admiráveis... Mas talvez as palavras nos venham por si mesmas. Ou o nosso coração não precisará delas, cheio de humildade e de respeito, e se inclinará espontaneamente. Poderá também acontecer que estejamos insensíveis, cansados, mal dispostos. Será então já alguma coisa colocarmo-nos silenciosa e respeitosamente perante Deus. Esses momentos agirão sobre a nossa vida e dar-lhe-ão verdade, sobretudo se frutificam na ação, se, por exemplo, não dizemos uma mentira porque Deus, é a Verdade; ou se somos justos para com os outros porque Deus está sentado no trono da sua santidade.