Uma esposa para o padre

 

O lançamento da versão em DVD do filme Pássaros Feridos nos dá a oportunidade de indagar sobre o jeito que o cinema tem de contar histórias de padres com suas implicações sociais, religiosas e, sobretudo, afetivas. Eu acredito que para entender esta problemática é necessário um “desarmamento geral”. A sociedade, a arte, o mundo do cinema não devem usar a arma do “escandaloso, do proibido, do imoral, do sujo” para se aproximar do mistério escondido no coração do padre. Saiu finalmente nestes dias em DVD o filme São Vicente de Paula – O Capelão das Galeras, de Maurice Cloche, um filme bem feito, profundamente humano e que mostra a radical dedicação de um padre ao bem do povo e à glória de Deus. Assistindo aos dois filmes, percebemos o valor do celibato consagrado e também a complexidade de um problema ao qual nos devemos aproximar com respeito e sabedoria.

Do outro lado, isto é, do lado da igreja, não deveria prevalecer a arma do silêncio, que corta qualquer tipo de diálogo sobre esta questão, como está acontecendo sob a direção do atual Papa. Uma cortina de silêncio caiu sobre esta questão e parece que é até pecado falar no assunto. Existe o problema? Todo mundo sabe que existe, mas não se deve falar dele e ponto final. Os mesmos padres casados, na maioria (em Goiânia vivem mais de 70 padres casados) aceitaram esta situação e se “secularizaram” completamente.

Isto não é bom, nem para os padres que se casaram nem para a Igreja, porque não é conforme a verdade, e por isso não conforme o Evangelho, tratar o padre casado como um padre “casado, rebaixado, afastado, cancelado, afinal, morto”, quando a teologia e a doutrina da Igreja católica ensinam que “padre é sempre padre” e que ninguém, nem o bispo nem o Papa, pode tirar da sua vida a “ordem sagrada” que é um sacramento eterno. O documento final do XV encontro Nacional dos Padres Casados (Luziânia, 22/24 de julho de 2004) diz que: “Ser padre casado é uma vocação específica de serviço ao Povo de Deus”. Mas os decretos disciplinares dos “burocratas da religião”, quando o padre pede licença para celebrar o seu matrimônio religioso na igreja, como qualquer bom cristão, rezam de maneira diferente. Eu, padre casado há 18 anos, escondi no fundo do baú a carta, que recebi do Vaticano, que enumera as condições a que me devia submeter para que pudesse celebrar o matrimônio na igreja: por respeito aos meus leitores vou manter somente para mim a angústia, a humilhação, a raiva que suscita um documento daquela espécie. Eu tenho em grande consideração a minha pertença à Igreja católica e tenho uma estima muito grande pelo meu sacerdócio. Não peço a ninguém que me chame de “padre”, mas quando alguém me chama assim eu acho bom! Dom Fernando, o primeiro bispo que encontrei aqui em Goiânia, quando cheguei da Itália, ficava furioso quando alguém chamava os padres casados de “ex-padres”.

Para conforto dos bons católicos que temem que o casamento dos padres traga uma perda irreparável para a Igreja católica, quero dizer que antigamente eu também pensava assim. Entre os fatos que me ajudaram a perceber que a questão não é teológica ou dogmática, mas simplesmente disciplinar e de conveniência, recordo a visita que o Arcebispo Dom Tepe, bem conhecido bispo brasileiro (já falecido), nos fez na cidade de Verona (na Itália), onde eu, com mais duzentos padres, freiras e leigos, estávamos preparando a nossa viagem missionária para o Brasil e outras nações da América Latina. Era o ano de 1971 e Dom Tepe voltava do Sínodo (reunião dos bispos com o Papa) onde o Papa Paulo VI, entre outros assuntos importantes, tinha colocado para os bispos, em votação, a seguinte pergunta: “Vocês acham conveniente que a Igreja permita que acedam ao Sacerdócio homens casados, de vida comprovadamente cristã?” Por poucos votos, não me lembro se foram uma dezena, ganhou a resposta “não”. Dom Tepe, homem santo, nos dizia: “Temos que aceitar de bom grado esta decisão da Igreja, os tempos ainda não são maduros e pode ser que nós não estejamos preparados para este passo.”

A lição que fica deste episódio é clara: se a Igreja põe em votação a prática do celibato sacerdotal é porque a questão é não dogmática, de fé: a disciplina poderá ser mudada quando “os tempos forem maduros”.

Eu, pessoalmente, acho que passou da hora. A necessidade de multiplicar o número de sacerdotes que possam assumir comunidades e celebrar a Eucaristia é muito grande. Impressionaram-me as respostas que sobre este assunto o atual Arcebispo de Goiânia, Dom Washington, deu ao repórter do Diário da Manhã (jornal do dia 31 de julho de 2004) e que cito textualmente. Pergunta o entrevistador: “Qual é o déficit de padres em Goiânia?”

Resposta: “Em toda a Arquidiocese são dois milhões de pessoas, e nós temos 190 (cento e noventa) padres para atender a todos”

“De quantos padres precisaríamos?”

Resposta: “De mil, mas talvez isso nunca tenhamos.”

“Qual a quantidade de padres formados, em Goiânia, por ano?”

Resposta: “Em Goiânia já houve dez sacerdotes, mas em 2004 será apenas uma ordenação.”

Cada um pode refletir sobre o assunto e tirar suas conclusões, mas eu quero acrescentar ainda uma estatística que circulava nos jornais do ano passado e que pode ajudar a fazer uma comparação: em Goiânia, há, mais ou menos, dez mil pastores evangélicos.

O filme Pássaros Feridos é delicado, em que o padre tem dignidade e espiritualidade e não larga a “batina”. Não é um filme escandaloso, não explora cenas de sexo e é um filme que agrada todos os paladares. O padre é muito estimado na igreja, se torna bispo e depois cardeal, mas o sentimento afetivo profundo e secreto que o liga a uma mulher dura toda a sua vida e o atormenta a te a morte. É por isso que acho o filme muito trágico e tiro dele a conclusão de que se trata de uma história que mostra tudo aquilo que o padre não deveria fazer. O Evangelho fala que devemos agir sempre com verdade: “sim, se sim; não, se não”. Se o caminho do padre era o celibato consagrado, mesmo com o sacrifício da cruz, até o sangue, devia largar o mundo e ir para frente. Mas se o chamado do seu coração era outro, não devia ofender ao Senhor com hipocrisias ou vida dupla, mas tomar uma decisão aberta e firme, e enfrentar todas as conseqüências: admiração, censuras, perda de “status”, fim da carreira eclesiástica etc... Não há meio termo, não há acomodação e, eu acho, que este é o caminho para que os tempos “maduros” cheguem mais depressa, trazendo no seio da hierarquia da Igreja a experiência do matrimônio que, eu acho, daria uma maior consistência à Pastoral.

Isso não significa que o matrimônio dos padres ou a aceitação de homens casados no sacerdócio católico possa resolver, de repente, qualquer problema na vida da Igreja e na vida dos próprios padres casados. Ter uma esposa, ter filhos para educar é um outro árduo caminho da santidade, se a gente levar tudo como vocação que vem de Deus.

E, depois, não é tão fácil casar e casar com a pessoa certa. Permitam-me terminar com uma curiosa notícia sobre casamento de padres, publicada na revista Mundo e Missão, em fevereiro deste ano: “Na Grécia, a Igreja Ortodoxa ajudará os seus sacerdotes a encontrarem esposas. Foi formada uma comissão mista de religiosos, mulheres de sacerdotes e monges, com a finalidade de enfrentar a reticência das jovens em desposar membros do clero e prevenir os divórcios. O escasso “appeal” (charme) dos padres poderia ser causado também pelos vínculos impostos às suas funções.”

Matéria extraída do site: www.caravideo.com.br do nosso amigo e colaborador Sergio Bernardoni