VOLTA AO ESSENCIAL
Nestor Muller
Nas conversas que os leitores assíduos deste site têm mantido sobre o destino dos padres casados, me parece que se infiltrou um certo desvio ou erro de perspectiva. Para mim ele se expressa no convite, recentemente veiculado, de que a adesão a uma instituição antiga e respeitável, como a Igreja dos Vétero Católicos, seria uma boa alternativa para aqueles que se sentem impelidos a exercer seu ministério eclesiástico. A confusão me parece estar na rápida identificação entre ministério e instituição.
Nada contra a citada Igreja, cujo século e meio de história merece veneração ao expressar firmeza e longevidade, sinais do Espírito. Se uma pessoa se sente inspirada por esse exemplo de resistência e coerência, se conhece tão bem essa história que se identifica profundamente com ela, então não há porque não tomar esse caminho. Mas essa decisão amadurecida nunca pode ser instrumentalizada.
O meu ponto é que trocar de instituição me parece um engano. Não é de novas instituições que precisamos, mas de “desmontar” nossa maneira de encarar as instituições. Temos uma Tradição a manter viva, e não é mudando rótulos e fachadas que poderemos contribuir para sua purificação e “aggiornamento”. O essencial da nossa Tradição é o acolhimento pessoal de Cristo, a conversão de vida e a vivência da comunidade fraterna. Isso não precisa de títulos e pompas. Não adianta colocar uma máscara diferente, é o coração que precisa amolecer.
Lembremos mais uma vez dos inícios da Igreja. Ela cresceu durante os primeiros séculos sem muitas normas institucionais, mas alimentada pelo ímpeto de pessoas generosas, tocadas pela experiência de uma “metanóia”, e pelo apoio de pequenas comunidades auto-gerenciadas, as quais se auxiliavam mutuamente no tipo de estrutura que hoje chamamos de “redes de solidariedade”. São características desse tipo de estrutura a flexibilidade, a leveza, a rapidez de adaptação e a grande diversidade de atividades, pensamentos e formas de organização.
Nós fomos educados por um tipo de estrutura completamente diferente: centralizada, controladora, homogênea, muito lenta e extremamente preocupada em uniformizar o pensamento.
É muito claro que na Igreja primitiva havia muito mais discussões, dissenções e liberdade. Situações que também requerem maior caridade em se ouvir o pensamento dos outros. Afinal de contas, temos quatro expressões do Evangelho e não apenas uma só. Foi com o autoritarismo dos últimos 16 séculos que perdemos de vista que a diversidade é um dom do Espírito Santo.
Instituições são necessárias para algumas coisas, como por exemplo educar as multidões. Mas o conteúdo da educação sempre será dado por exemplos pessoais. Nosso Betinho marcou o país não graças a uma instituição, mas pela tenaz insistência naquilo que ele acreditava. Não precisamos de uma instituição para exercer o fundamental do ministério, mas de uma pequena comunidade. Essa comunidade será necessariamente formada por pessoas que confiam em nós pessoalmente, por nosso exemplo, congruência e persistência, não porque são mandadas pela autoridade.
A grande instituição da Igreja Católica precisa ser desmontada. É um dinossauro que, de qualquer maneira, não sobreviverá nos novos tempos, com sua forma atual. Nós nascemos dentro dela, ela nos transmitiu a Palavra Viva, somos seus filhos e lhe devemos obediência, lembrando que a palavra “ob-audire” significa “escutar bem” e isso implica a responsabilidade de abrir-se ao Espírito e atualizar as coisas de modo adulto, em vez de repetir mecanicamente as letras que ouvimos quando éramos crianças.
Creio que o Espírito Santo nos impele para a coragem e a inovação. Mas isso não significa multiplicar instituições. Façamos com firmeza o que acreditamos junto com um grupo de irmãos. Se o bispo não gostar, não nos recusamos a conversar com ele, mas também não dependamos dele. Se for um homem sensato e evangélico, não irá atacar quem não vai contra ele, e nossa obra seguirá seu próprio caminho. Se ele quiser nos proibir, só podemos seguir a nossa consciência. Se com isso perdemos campo e número de amigos, lembremos que o Mestre nunca prometeu facilidades. Em todo caso, é nisso que as redes de apoio podem e devem ajudar.
Não é uma instituição que dá segurança, porque não é uma instituição que ensinamos. Como pioneiros, precisamos de um mínimo de coisas instituídas, como instrumento útil para o essencial que é acompanhar, com a luz do Evangelho, as tremendas mudanças pelas quais a humanidade está passando.
Paremos de nos lamentar com as velharias do Vaticano, mas também não queiramos nos garantir com outras velharias. Para dar um exemplo de fora: recentemente um mosteiro tibetano na Suíça convocou seus congêneres para discutir como manter viva, fora de sua pátria, a milenar sabedoria daquele povo perseguido, hoje dispersa em centenas de pequenos grupos independentes. O Dalai Lama também foi chamado a falar. O que ele disse: é um desafio a ser enfrentado sozinhos e em conjunto; portanto, discutam os vários aspectos da questão com toda liberdade, até que alguns consensos se formem. Embora o Dalai Lama não seja um cargo de autoridade, cabia-lhe dar uma orientação, e a orientação que deu foi a da liberdade, confiando nos frutos oferecidos pelo longo aprendizado e pela concentrada disciplina que todo monge precisa vivenciar.