de: Francisco
para: Mário Palumbo

As estrelas brilham, os homens sofrem - Rubem Alves


 
Mário:
 
Repasso este artigo de Rubem Alves e o aplico ao MPC.
 
Ele fala dos temas que angustiam grande parte da humanidade e oferece sua percepção sobre os motivos pelos quais a Hierarquia católica trata destes temas como se fossem estranhos a ela.
Rubem Alves é um teólogo e um poeta. Usa a imagem do céu estrelado, refúgio do pensamento católico, que ignora os belos jardins de Deus espalhados pelo universo.
 
Li uma afirmação sobre o encontro de Recife, glorificando a ausência de querelas.
 
Estes problemas relatados por Rubem Alves seriam querelas?
Atribuir à hierarquia uma posição autoritária e triunfalista seria uma querela?
Pedir espaço para participação do laicato e das comunidades nas decisões do Vaticano seria uma querela?
 
 
A preocupação com a evangelização deste mundo globalizado, cada vez mais plural, não deverá contemplar principalmente aquilo que aflige o quotidiano das pessoas?
 
Tenho certeza de que a "Igreja", sonho de Jesus Cristo, deverá ser muito diferente deste modelo clericalizado que temos. Talvez tenha sido este o motivo que causado o "Êxodo Clerical" pós Vaticano II.
 
 A imensa maioria dos padres casados saiu do clero espontaneamente, por iniciativa própria, porque não reconhecia no modelo clerical o instrumento adequado para evangelizar o mundo atual. Estes não desejam reinserção no clero. Almejam novas formas de igreja, aptas a evangelizar a cultura da nossa sociedade. Usando a imagem poética de Rubem Alves, diria que desejam uma Igreja que admire os jardins que Deus espalhou pelo universo. Queremos olhar as estrelas, mas gostamos de admirar os jardins. 
 
Com um abraço,
 
 
Francisco Resende
 
 
 
From: Carlos R Carvalho
To: Francisco de Assis Resende ; Aamigos & Amigas

 
RUBEM ALVES

As estrelas brilham, os homens sofrem

RETORNAMOS ÀS ETERNAS estrelas do céu e aos efêmeros jardins da Terra... Os que olham para as estrelas dizem possuir a verdade. Mas os que olham para os jardins sabem que tudo o que sabem é provisório.
Os olhos da Igreja Católica não vêem jardins; só vêem as estrelas. E é do seu olhar para as estrelas imóveis que ela deseja governar a Terra. Já os jardineiros sabem que há muitos jardins diferentes, nenhum deles é verdadeiro, mas todos são belos...
Todos os que pretendem possuir a verdade estão condenados a serem inquisidores. Para explicar esse ponto vou transcrever um pequeno trecho do filósofo polonês Leszek Kolakowski que tem o título "Em louvor à inconsistência".
"Falo de consistência em apenas um sentido, limitado à correspondência entre o comportamento e o pensamento. Assim, considero como consistente um homem que, possuindo um certo número de conceitos gerais e absolutos, esforça-se honestamente em tudo o que faz, em todas as suas opiniões sobre o que deve ser feito, para manter-se na maior concordância possível com aqueles conceitos. Por que deveria qualquer pessoa, inflexivelmente convencida da verdade exclusiva dos seus conceitos relativos a qualquer e a todas as questões, estar pronta a tolerar idéias opostas? Que bem pode ela esperar de uma situação em que cada um é livre para expressar opiniões que, segundo seu julgamento, são patentemente falsas e portanto prejudiciais à sociedade? Por que direito deveria ela abster-se de usar quaisquer meios para atingir o alvo que julga correto? Em outras palavras: consistência total equivale, na prática, ao fanatismo, enquanto a inconsistência é a fonte da tolerância..."
O SS Bento 16 acredita que Deus revelou à Igreja Católica e somente a ela a verdade total das estrelas. Segue-se, por necessidade lógica, que todos os homens, indivíduos ou igrejas, que têm idéias diferentes das suas, estão privados da verdade. O que torna sem sentido os esforços ecumênicos de aproximação entre as igrejas. O ecumenismo é baseado na crença de que Deus, jardineiro supremo, planta muitos jardins diferentes... Mas quem só olha para as estrelas não pode se deleitar na variedade dos jardins. A Igreja Católica, mãe e mestra de todos, nada tem a aprender.
Segue-se a conclusão ética: compete aos homens encarnar na Terra a verdade eterna das estrelas. Aquilo que deve ser feito é decidido não pela análise da situação qual o comportamento que traria o bem maior ao maior número de pessoas, mas pela imitação da perfeição divina.
A Igreja tem horror à experiência. Experiência é conhecimento que cresce da terra como as plantas. E ela contesta a verdade das estrelas. Roger Bacon, precursor da ciência moderna, por haver afirmado que o conhecimento vem pela experiência, amargou 15 anos na prisão. E a luneta de Galileu quase o levou à fogueira...
Assim, as difíceis questões que a experiência moderna coloca, a AIDS, a camisinha, o aborto, o divórcio, a inseminação artificial, o uso de células-tronco, a ortotanasia, são como se não existissem. Indiferentes ao sofrimento dos homens, as estrelas decretam: é pecado abortar um feto sem cérebro, a despeito da inutilidade da gravidez e do sofrimento dos pais... As estrelas brilham no céu. Os homens sofrem na Terra. (FSP, 19.2.2008)