Carta de James Petras ao presidente Sarkozy e outras direções
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Este material deve ser reproduzido amplamente, para que o sofrimento do povo
colombiano termine o quanto antes, para que a mais sangrenta intromissão do
imperialismo na América Latina tenha fim.
Carta de James Petras ao presidente Sarkozy
O reconhecido
sociólogo estadunidense James Petras publicou nesta segunda uma carta aberta
ao presidente da França, Nicolas Sarkozy, sobre a intervenção deste no
processo de Intercâmbio Humanitário na Colômbia.
"Li com grande interesse sua carta ao líder das FARC, Manuel Marulanda.
Partilho consigo um impulso humanitário para dar fim ao encarceramento de
prisioneiros políticos na Colômbia.
Contudo, vamos ser claros, com princípios e realistas acerca disto. A
liberdade dos presos políticos das FARC está dependente de um qui pro quo –
a libertação dos combatentes da resistência das FARC nas masmorras do Estado
colombiano.
A sua intervenção dramática e altamente publicitada concentrou a opinião
pública mundial nos prisioneiros mantidos pelas FARC, mas deixou de
mencionar a situação dos presos políticos do governo colombiano, torturado e
brutalizados por um Presidente cujos mais próximos associados no Congresso
estão à espera de julgamento pelas suas ligações antigas aos esquadrões da
morte paramilitares e aos narcotraficantes.
Vamos começar de novo, Presidente Sarkozy. Se quiser ser um mediador honesto
ou um líder humanitário consequente deve actuar imparcialmente com um
espírito de reciprocidade. Até agora o senhor actuou de uma maneira injusta
(one-sided), a qual não conduz a uma resolução positiva do intercâmbio de
prisioneiros. Nos seus curtos e altamente publicitados apelos o senhor não
actuou com boa fé e imparcialidade.
Por exemplo: no princípio de Dezembro apelou 'solenemente' às FARC
(especificamente ao seu secretário, Manuel Marulanda) para que libertasse
unilateralmente os seus prisioneiros incluindo Ingrid Betancourt sem
qualquer apelo paralelo ao Presidente Uribe para libertar os seus
prisioneiros e aqueles mantidos nos Estados Unidos. O seu apelo
assemelhou-se mais a um truque publicitário vazio de substância e de
solenidade teatral. Pensa você que o mais sagaz e lendário líder
guerrilheiro da América Latina seria intimidado pela sua retórica que coloca
o ónus 'da vida' de Ingrid sobre os ombros de Marulanda? A sua dupla
moralidade colonial não convenceu ninguém e certamente não avançou o
processo de negociações. O seu posicionamento ético pode deliciar alguns
ex-maoistas de meia idade transformados em filósofos de novela em Paris, mas
não tem cabimento ao tratar com revolucionários sérios e consequentes.
Deixe-me sugerir que, uma vez formou tamanha relação carnal com o seu 'bom
amigo' Presidente Bush, volte o seu encanto para ele e diga-lhe para
devolver os dois líderes da FARC à Colômbia como parte da troca de
prisioneiros pelos três operacionais estado-unidenses da contra-insurgência
que estão numa cadeia da FARC. Reciprocidade, Sr, é o sine qua non de
quaisquer negociações entre iguais.
Em segundo lugar, você fez um pronunciamento público de condenação aos
'métodos' e 'objectivos' das FARC, mas não de Uribe. Isto certamente não é
um modo de começar negociações. Dá a impressão de que Uribe é um político
democrático, o que vai em sentido contrário de relatórios das Nações Unidas,
colombianos, Organização dos Estados Americanos, Organização Internacional
do Trabalho, organizações de direitos humanos, os quais documentam que a
Colômbia é o lugar mais perigoso do mundo para jornalistas, sindicalistas,
advogados de direitos humanos e líderes camponeses por causa dos terrorismo
patrocinado pelo Estado. É presunçoso da sua parte, Presidente Sarkozy,
questionar as credenciais morais das FARC uma vez que você e o seu ministro
dos Negócios Estrangeiros, Kouchner, deram o seu apoio incondicional ao
Estado de Israel apesar do facto de eles manterem mais de 10 mil presos
políticos, a maior parte dos quais foi brutalmente torturada e muitos nunca
terem sido acusados oficialmente ou levados a tribunal. Um regime como o
seu, cujo ministro dos N. Estrangeiros endossa o estrangulamento económico
(corte de alimentos, remédios, água e electricidade) de um povo inteiro em
Gaza e o banho de sangue americano no Iraque, não tem autoridade moral para
dar lições quanto a 'métodos' e 'objectivos'. Vamos ao ponto, Sr.
Presidente. As FARC nem mantém 10 mil presos políticos como o seu aliado, o
Estado judeu, nem invade e coloniza países independentes como o seu 'bom
amigo' Presidente Bush. Assim, tendo levantado o véu da hipocrisia gaulesa,
vamos voltar-nos para algumas das questões reais que confrontam a abertura
das negociações.
Local das negociações
A insistência das FARC sobre uma localização específica não é uma escolha de
paisagem, mas uma garantia da sua segurança face aos numerosos rompimentos
de acordos com o regime Uribe. Presidente Sarkozy: a sua insistência, na
verdade exigência, foi 'prova fotográfica' da sobrevivência de Ingrid
Betancourt levou ao mais recente exemplo da deslealdade fundamental de Uribe.
Os emissários que transportavam as 'provas' para si, via Venezuela, foram
presos e encarcerados, violando grosseiramente um entendimento implícito de
salvo conduto entre o senhor mesmo, o Presidente Uribe e o Presidente Chavez.
No período 1984-1990, a FARC alcançaram um entendimento com os Presidentes
Betancourt e Gaviria no sentido de dar uma oportunidade ao processo
eleitoral. Muitos antigos membros das FARC, com outras pessoas progressistas
e grupos de esquerda, formaram a 'União Patriótica' (UP). No decorrer de 5
anos, mais de 5500 membros da UP foram assassinados, incluindo dois
candidatos presidenciais, destruindo aqueles métodos eleitorais tão próximos
do seu coração. Presidente Sarkozy, chamo a sua atenção para estes eventos,
caso os seus conselheiros deixem de informá-lo dos perigos e ciladas
enfrentados por quaisquer negociações das FARC com o governo colombiano.
Mais especificamente, a insistência das FARC sobre a localização é para
proteger os seus líderes e negociadores de qualquer movimento súbito de
Uribe para romper negociações e capturar ou matar líderes das FARC.
Você deveria estar ciente de que Uribe acompanhou o seu apelo a uma reduzida
zona territorial desmilitarizada com um prémio de US$100 milhões por membros
das FARC assassinados ou a entrega de líderes seus ao Exército colombiano.
A imposição unilateral de
condições de Uribe
Como sabe bem, Presidente Sarkozy, para entrar em quaisquer negociações um
lado não pode unilateralmente e arbitrariamente impor condições que
prejudicam o outro lado, como faz Uribe. O Presidente 'paramilitar' não só
decidiu a localização como também o comprimento e a largura da zona
desmilitarizada, o tempo de duração limitado para um ajuste, o comportamento
subsequente dos combatentes da resistência libertados e uma visita da Cruz
Vermelha à prisão clandestina das FARC, bem como insistindo sempre numa
caracterização caluniadora dos seus parceiros de negociação.
A dimensão reduzida da região desmilitarizada (bem como a sua escolha e
tempo de duração) levanta profundas suspeitas acerca dos motivos do governo.
Uma zona desmilitarizada mais pequena torna mais fácil para o regime de
Uribe invadir e capturar negociadores das FARC. Um zona mais amplas não
afecta as questões substantivas a serem negociadas; facilita negociações ao
aumentar a segurança dos negociadores.
Em segundo lugar, as negociações não podem ser decididas arbitrariamente no
decorrer um só mês pois há numerosas questões de grande complexidade que
precisam ser resolvidas. Em primeiro lugar a inclusão dos dois líderes das
FARC encarcerados nos Estados Unidos graças à sua transferência arbitrária
por Uribe.
Não há a mais mínima hipótese de as FARC concordarem em permitir uma
delegação da Cruz Vermelha junto aos presos políticos das FARC, o que
facilitaria os conselheiros americanos de Uribe, com alta tecnologia,
detectarem e atacarem o local das FARC. A insana obsessão de Uribe de
aniquilar fisicamente as FARC, como mostrou sua explosão mais recente,
deveria enterrar o seu pedido por assistência humanitária da Cruz Vermelha.
É desnecessário dizer que o apelo de Uribe à Igreja 'imparcial' para
assistir as negociações é uma brincadeira de mau gosto. A Igreja tem sido
uma apologista não crítica de Uribe, da sua organização política e dos seus
senadores e membros do Congresso presos por ligações aos esquadrões da morte
(em número de 30). Há vários grupos colombianos de direitos humanos que tem
sido reconhecidos internacionalmente pela sua coragem e imparcialidade,
incluindo Justiça e Paz e Reiniciar, que podem servir melhor para qualquer
papel de intermediário.
Presidente Sarkozy: apesar das limitações e do seu previsível posicionamento
moral, o senhor desvendou com êxito as fracassadas e perigosas políticas de
Uribe de 'libertar' os prisioneiros das FARC pela força. O senhor conseguiu,
através de promessas e ameaças, que Uribe concordasse parcialmente ao
razoável pedido das FARC de uma zona desmilitarizada para as negociações. As
concessões extraídas de Uribe são contudo esquivas pois o que ele dá com uma
mão toma de volta com a outra. Ele multiplica condições inaceitáveis
precisamente para minar as negociações. Pois é nos pormenores que o processo
progredirá.
Eis aqui o perigo, Presidente Sarkozy. O seu gesto de abertura, e mais a sua
pressão com êxito para assegurar um terreno para negociações, ganharam-lhe o
apoio de muitos cidadãos franceses profundamente comprometidos com a
libertação da sua compatriota, Ingrid. O senhor tornou-se o querido dos
media franceses e ocidentais. Não colocarei isso no seu passivo. O senhor
interessou-se, falou, actuou, mas ainda não teve êxito.
Para começar mesmo as negociações o senhor deve mais uma vez convencer Uribe
a ser razoável (pelo menos para o resto do mundo), esquecer as suas agendas
ocultas e aceder a uma zona desmilitarizada segura de dimensão adequada e
dar aos negociadores prazo adequado para resolverem as suas diferenças. Sob
circunstâncias normais, Sr. Presidente, deve admitir que estes pedidos são
razoáveis. Mas como deve saber agora, Uribe não é nem um negociador de bom
grande nem está disposto a acerto justo. O sr. tem os projectores dos
medias. O sr. tem um vasto apoio interno e internacional. O sr. tem toda a
credibilidade (e poder) para persuadir, pressionar ou arrastar Uribe à mesa
de negociação para libertar Ingrid e os outros bem como os 500 prisioneiros
das FARC apodrecer nos buracos de tuberculose da Colômbia e dos EUA. O êxito
ou fracasso está agora nas suas mãos, Presidente Sarkozy. O sr. assumiu o
dever solene de libertar Ingrid. Tenhamos esperança de que esteja à altura
da sua responsabilidade.
Fraternalmente,
James Petras"