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Nenhum dos argumentos catastróficos contra a CPMF se confirmou. O
que é inegável é que ela é um indicador da sonegação
Quando ocupei a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (1979 a
82), chamou a minha atenção a diferença gritante entre o número e a
qualidade dos centros de saúde no interior e os existentes na Grande
São Paulo.
Era difícil entender que os municípios do interior, com 49% da
população do Estado, tivessem 549 centros de saúde -quase a
totalidade- em prédios especialmente construídos, e a Grande São
Paulo, com 51% da população, tivesse 257, dos quais só 54
especialmente construídos. Os demais ocupavam casas alugadas,
totalmente inadequadas, na periferia da capital e em
cidades-dormitório.
A perplexidade começou a se desfazer quando resolvi atender a
convites para ir a assembléias populares, convocadas pela população,
apoiadas nas comunidades eclesiais de base. Eram reuniões agressivas
e difíceis, mas me ensinaram aquilo que todo homem público deve
incorporar. Ficou claro, para mim, que os pleitos eram simples e
legítimos, como ter onde vacinar seus filhos -e não tinham!
Foi a partir daí que criei a frase: "O grande problema do pobre não
é ele ser pobre, é que o amigo dele também é pobre!". Ele não tem
amigo que fale com quem decide, que marque uma audiência, que o
ajude a elaborar um projeto, que negocie financiamento.
Ele está confinado em áreas pobres, com deficiência de saneamento
básico, problemas de segurança, transporte, educação, saúde, lazer
etc. Isso nos moveu a elaborar o Plano Metropolitano de Saúde:
propusemos construir 490 centros de saúde e 40 hospitais nas áreas
mais carentes. Passados 25 anos, menos de dois terços da proposta
foram construídos -e a população saltou de 12 milhões para 18
milhões de habitantes.
Quando, em 1999, estudei a distribuição dos leitos hospitalares na
cidade de São Paulo, com 10 milhões de habitantes e dividida em 96
distritos, a situação continuava da maior gravidade. Em 25
distritos, com 1,8 milhão de pessoas, existiam 13 leitos por mil
habitantes, concentrando os maiores e melhores hospitais; nos outros
71 distritos, onde estavam 8,2 milhões de pessoas, existiam apenas,
na média, 0,6 leito por mil habitantes.
Essa realidade perversa -menos de 20% da população tem todos os
recursos mais modernos, enquanto 80% sofrem todo tipo de restrições-
é difícil de ser aceita como razoável. Por isso venho, há muito
tempo, tentando convencer os que vivem com conforto e com os mais
modernos recursos de saúde à sua disposição de que a distribuição
dos recursos é injusta e não pode ser perpetuada.
A discussão sobre a prorrogação da CPMF mostra claramente isso. A
parcela mais bem aquinhoada da sociedade -a que financia as
campanhas políticas e sustenta a mídia- lança mão de todos os
recursos para subitamente constranger o governo a abrir mão de cerca
de R$ 40 bilhões, quase a metade destinada ao SUS, e não se
constrange de induzir pessoas que dependem desses recursos a assinar
listas e mais listas, convencendo-os de que estão sendo explorados.
Não tenho dúvida de que o chamado excesso de arrecadação ocorre
porque a eficiência da Receita, nos três níveis de governo, graças à
informática e aos cruzamentos possíveis, está resgatando parte da
sonegação, que permitiu a escandalosa concentração de renda
existente no país.
Todos os argumentos contra a CPMF vêm sendo repetidos desde quando a
propusemos, em 1995. Nenhum dos argumentos catastróficos se
confirmou. O país nunca exportou tanto, o saldo comercial vem ano a
ano crescendo, a dívida externa, que em 2002 era de 43% do PIB, é
hoje de 14%. As reservas do Banco Central atingiram inacreditáveis
US$ 170 bilhões, a taxa de inflação é a mais baixa dos últimos 30
anos e a indústria automobilística produziu neste ano, até aqui,
incríveis 2 milhões de carros. Portanto, não se confirmam os
prejuízos apregoados. O que é inegável é que a CPMF é um indicador
da sonegação.
Quando de sua regulamentação, foi proibido, na lei, o cruzamento de
informações para efeito de Imposto de Renda, afinal revogado quando
o secretário da Receita à época mostrou que, dos 100 maiores
contribuintes da CPMF, 62 nunca tinham pago Imposto de Renda e que
existia microempresa -que, para ser micro, não podia movimentar mais
que R$ 120 mil/ano- que chegava a movimentar R$ 100 milhões/ano. O
simples cruzamento de informações elevou a arrecadação de cerca de
R$ 7 bilhões para mais de R$ 20 bilhões/mês.
Quero crer que a luta pela extinção da CPMF, isoladamente, não tenha
relação com o fato de ser um eficiente indicador de sonegação, mas
esteja vinculada à idéia -para mim, equivocada- de que a carga
tributária é muito elevada e toda redução é bem-vinda. Sou dos que
acreditam que a carga tributaria é elevada para os que ganham pouco
e baixa para os que têm muito, daí a concentração de renda.
Melhor seria se o esforço que está sendo feito para extinguir a CPMF
fosse dirigido para uma discussão séria e abrangente da sempre
lembrada e nunca conseguida reforma tributária, capaz de
compatibilizar os recursos públicos com a riqueza ostensiva de
parcela minoritária da população.
Nunca é demais lembrar que todas as convulsões sociais na história
da humanidade ocorreram quando a desigualdade se tornou aguda. A
distribuição de leitos hospitalares na cidade de São Paulo é exemplo
gritante dessa desigualdade, melhor dizendo, dessa desumanidade para
com os mais pobres.
*Adib D. Jatene, 78, cardiologista, é professor emérito da
Faculdade de Medicina da USP. Foi ministro da Saúde (governos Collor
e FHC) e secretário da Saúde de São Paulo (governo Maluf). É
idealizador da CPMF.
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