COMO É O CÉU?

Dom Luciano Mendes de Almeida

 

Pouco antes de partir para a vida plena em 27/08/06, Dom Luciano participou de Simpósio Teológico programado pelo 15° Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Florianópolis, de 19 a 20 de maio de 2006, quando fez esta reflexão:

            Há um tempo queria muito ver o céu, saber como é lá. Um dia subi no céu. Não pensei que era tão bonito, fiquei contente com tanta musica, pessoas dançando na presença de Deus. Mas, de repente, percebi que eu estava escondido atrás de uma árvore. Descobri que o céu é ver os outros felizes.

            Nossa vida nesse mundo é fazer o bem. Nossa alegria e paz são deferentes. Reconciliemo-nos com o projeto divino de salvação. A vontade de Deus é o nosso paraíso.

            Como esquecemos a expressão do Pai Nosso “seja feita a vossa vontade...”; não existem exceções para este pedido. Deus nos dá força para enfrentarmos as dificuldades, inseridos no cotidiano da vida humana.

            Nossa mística, que nasce da Eucaristia, é a de quem aceita situações da vida como elas são, faz-se forte na oração, confia no amor do Pai, mas não foge da tribulação.

            Maria sempre se identificou com a vontade do Pai. Aqui está a descoberta: aceitar os desígnios de Deus que incluem a oferta de nossa vida.

            Temos, às vezes, uma visão de que se Deus nos ama, devemos estar muito bem. Comumente afirmamos: “Rezei e não aconteceu nada”. São Paulo afirma que tudo concorre para o bem do que tem a experiência do amor de Deus. Se você acredita no amor, vai ver o mundo de modo diferente.

            A Eucaristia quer nos convencer de que Deus nos ama. Tudo o que acontece é visto à luz do amor. Não coloco mais em dúvida o amor.

            A ação de Deus no mundo é lenta. Estamos vivendo o tempo, a história. Não somos do mundo, mas estamos no mundo que contém a fragilidade do pecado.

            A Eucaristia nos joga para dentro da realidade, sem privilégios e sem milagres. Jesus não mudou as articulações do mundo, mas mudou nosso coração para viver no mundo. Não quero dizer que não podemos rezar pedindo saúde, mas muitas vezes não somos curados e Deus nos ama. Não nos queixamos de vida. Passamos por aquilo que todo mundo passa. A salvação é lenta na história.

            Temos que nos reconciliar com Deus, com o projeto divino que passa pela cruz. Enfrentar as dificuldades sem colocar em questão o amor do Pai é a grande maturidade, a força para transformar a sociedade.

            Jesus não entrou na história de seu tempo com grandes honras, mas respeitando a fragilidade da liberdade humana.

            A Eucaristia é o amor maior, a grande revelação. À medida que penetramos na Eucaristia, encontramos a força para mudar nosso modo de ser no mundo. A grande chave de compreensão da vida se realiza no amor.

            Por que a Igreja insiste tanto para que participemos da Santa Missa? Não podemos viver sem ouvir o amor do Cristo: “Isto é o meu corpo, que é dado por você; o meu sangue que é derramado por você”.

            Quais coisas precisamos transformar na sociedade? Fome, miséria, rivalidades, conflitos, violência, perda de sentido da vida. Somos chamados a  amar e transformar. A transformação se faz com um amor novo que se torna perdão, partilha.

             A Eucaristia coloca diante de nós – no horizonte de nossa vida – a felicidade. “Eu vou preparar-vos um lugar”. Quando recebemos a Eucaristia estamos dinamizados para a felicidade.

 

 

            Nota: Dom Luciano, bispo de Mariana/MG, morreu de câncer no fígado aos 75 anos. Durante dois mandatos foi secretário geral e depois presidente  da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tendo atuação destacada em defesa dos direitos humanos, durante o regime militar implantado em 1964.

 

            Fonte: Boletim Meditação Cristã do Rio de Janeiro, n° 41.