Depoimento de Armando e Altiva sobre o Encontro dos Presbíteros
Caros João e Palumbo,
segue, abaixo, o depoimento enviado por Armando e Altiva, sobre a participação do XII Encontro
Nacional dos Presbíteros, realizado em Itaici, São Paulo:
O XII Encontro apresentou muitos
aspectos importantes, interessantes, despertou muitas
interrogações nos participantes, nos assessores e nos convidados como nós.
Não temos idéia do caminho pelo qual passaram os Encontros anteriores
desde o II até o X. Do primeiro foi possível formar uma certa idéia por
aquilo que você nos disse, pelo meu irmão que também participou,e pelos
textos que recebi na época. Agora, no XII havia
participantes do primeiro Encontro e deles ouvi alguns depoimentos
interessantes. Relataram que diante do fato de os presbíteros terem
discutido, votado e aprovado a ordenação de casados e a integração no
ministério dos padres que se casaram, da parte de Roma
os Encontros não acontecriam mais. A força de D.Aloisio, de D. Ivo e de D.
Luciano evitaram que isto acontecesse.Nos outros Encontros,pelas informações
fragmentadas que possuo, sempre houve alguma forma de presença dos padres
casados, que inclusive fizeram uso da palavra. Não sei quem poderia fazer um
levantamento
mais objetivo disto. Nossa participação se tornou mais efetiva a partir
do XI Encontro, formalizada por Convite Oficial e a gentileza da estadia
paga pelo Conselho Nacional
dos Presbítros. Há uma relação com o nosso XV Encontro Nacional de
Luiziania-Go e a presênça oficial de um casal dos padres casados no XI ENP.
No XV nacional das
famílias dos padres casados estavam presentes representantes do CNP, creio
eu tenha sido o P.Tarcísio e outros. No XV Encontro assumimos a Presidência
de Rumos/MPC.
Antes de tentar uma resenha do XII ENP é interessante destacar alguns
tópicos sobre o XI ENP realizado no período de preparação da V Conferência
Latino Americana e do Caribe e durante a comemoração dos 40 anos do Vaticano
II. Sob a égide do Concílio e
da V Conferência, as reflexões sinalizaram para a caminhada da Igreja no
pós-Concílio, seus sucessos e retrocessos e para a significação das
Conferências de Medelin, Puebla,e Santo Domingo, que são a experiência única
de magistério sinodal da Igreja a partir do
Vaticano II e que correu risco de desaparecer ou ser subtituida por sínodo
consultivo.Além da análise e reflexão sobre o que fazer em relação ao
Vaticano II,estava no ar a interrogação dos rumos que a V Conferência
tomaria.
O XI-ENP, além da temática, das Eucaristias, da oração em comum e dos
debates em grupo, também teve a grata surpresa da acolhida. Nos acolheram: o
Presidente e Secretário do CNP, Pe José Pietrobom Rotta e Tarcício Rech,o
arcebispo Anuar Batistti de Maringá e Presidente da Comissão dos ministérios
ordenados e vida consagrada e o bispo de Umuarama, D.Vicente Costa.No
decurso do Encontro recebemos cumprimentos, palavras de estímulo e apoio dos
bispos que participaram do Encontro ou eram visitantes.DLuciano Mendes,do
qual guardamos uma profunda e grata lembrança, D Antonio Celso de Queiroz
Vice- Presidente da CNBB, D Odilo Scherer,D Ervin Krautler da Prelazia do
Xingú, D Severino de Santarem e vários outros. A acolhida e o interesse da
parte dos presbíteros foram uma constante. Os intervalos, as caminhadas
pelos
corredores e as refeições foram o tempo e o espaço para perguntas, troca de
idéias, pedido de endereços.
Fomos chamados para compor a mesa dos trabalhos e fazer o uso da palavra,
ouvida atentamente e aplaudida. O pequeno texto de nossa fala faz parte dos
textos do XI Encontro.
No XI Encontro não houve presênça da imprensa e havia preocupação com
eventuais censuras por parte da Nunciatura, que havia colocado restrições à
presênça de D. Capio, pregador do retiro. Poucos dias antes havia
interrompido a primeira greve de fome pela não
transposição do Rio São Francisco.As negociações de D.Luciano levantaram as
restrições.
O XII ENP também também se formalizou no convite, assinado pelo
Presidente e pelo bispo D.Esmeraldo de Santarém,Presidente da Comissão dos
ministérios ordenados. A acolhida foi mais calorosa do que a do anterior
porque estavam presentes muitos do
Encontro anterior.O clima de acolhida, de troca de idéias foi uma constante
desde a chegada.
Havia novidades no pedaçõ: O Cardeal Humes,Prefeito da Congregação
Romana para o Clero e a imprensa estavam presentes. A Rede Vida transmitiu
várias celebrações.
A manhã do primeiro dia, desde a Eucaristia, foi presidida pelo cardeal
Cláudio Humes, terminando com um plenário e coletiva de imprensa. A fala do
Cardeal versou sobre a situação do clero do mundo e do Brasil,escasso e
idoso na Europa, mais jovem e
numeroso no Brasil, mas vivendo numa situação de pobreza.Exaltou o zelo e
dedicação dos padres, abordou os problemas de ordem sexual e a sua
gravidade,ressaltando que no entanto que trata-se de um pequeno percentual
de padres.Apontou a existência
de um segmento de padres que busca vida comoda, centrada na roupa de
grife,no veículo, no celular,creditando esta questão à uma deficiente
formação dada pelos seminários, para os quais recomenda uma disciplina mais
severa e que é desejada pelos que aí
se formam.
Respondeu perguntas do plenário e da imprensa, esquivando-se das
perguntas sobre celibato opcional, ordenação de casados e integração no
ministério dos padres casados.Instado pelos repórteres, o cardeal disse que
há assuntos que a Igreja não pretende discutir no momento, sendo um dêles a
mudança sobre a disciplina vigente sobre o clero. Ressaltou que esta postura
não significa que a Igreja não discutirá esta
questão, mas não neste momento.
Após a coletiva com a imprensa, inesperadamente, fomos apresentados pelo
Pe Tarcísio ao cardeal Humes.Cumprimentamo~lo assegurando-lhe nossa oração e
nossos
votos pelo sucesso na árdua missão que recebeu. Lhe expusemos que entendemos
que formalmente não possa nos dizer mais do que já disse à imprensa,embora
pessoalmente possa até ver a questão sob outros angulos. Lhe asseguramos que
um significativo número de padres casados está refletindo,
estudando,buscando uma definição do minsitério do padre casado,entendendo
que o minsitério não se extingiu e
que se concretiza pela concretude da vida do presbítero e sua família.
Cremos que certtamente um dia a Igreja recolherá esta forma de ministério.
Ouviu-nos atentamente,sem mostrar contrariedade,gentilmente despediu-se e
foi embora.
Além da fala do Cardeal Humes, o Encontro concentrou seus trabalhos em
torno de quatro questões, vistas à luz da V Conferência: Análise eclesial
apresentada por José Oscar Beozzo,, análise da Conjuntura apresentada por
Maria Luiza Erundina, o
discipulado da Igreja e dos presbíteros e a missionariedade dos presbíteros.
Foram dois dias de trabalho na forma de colocações, discussão em grupos,
plenários. Não temos em mãos o documento final, que só sairia na terça
feira, após o retiro de domingo e as
eleiç~es de segunda feira. As colocações, especialmente de José O. Beozzo,
de Satefano Raschietti e de Paulo Suess, as discussões nos grupos e os
plenários evidenciaram que a Conferência de Aparecida, diante da nova
situação economica, social e cultural, decidiu-se pelo discipulado no
seguimento de Jesus e pela missionariedade como inerente ao discipulado. É
um passo gigantesco que significa sair
de um sistema de manutenção ( o sitema paroquial), baseado na pressuposição
de que as pessoas estão evangelizadas, que o mundo é ainda um mundo rural, e
que a forma de pastoral baseada na força da tradição de ser católico ainda
funciona. O posicionamento da
Conferência de Aparecida colocou em cheque a atuação do clero e sua
formação. Os posicionamentos de Aparecida inclusive abriram questionamentos
sobre os
próprios Encontros Nacionais quanto à sua forma e sua eficácia. Apareceram
com força nos plenários as propostas para realizar os encontros em locais
diferentes, mais ligados à vida religiosa popular, como Aparecida, Joazeiro,
e outros centros de peregrinação. Ficaram no ar grandes interrogações tais
como:Quem é o destinatário das conclusões do Encontro: É a Congregação para
o Clero ?, é a CNBB ?, são os
presbíteros ?, são os próprios encontristas ? Outra interrogação é sobre a
eficácia dos padres que participam do Encontro como representantes do clero
das Dioceses. É uma média de um representante para 36 representados. Ele vai
conseguir influenciar os padres
que representa ? Uma outra questão é se o atual presbitério vai conseguir
se mudar da estrutura de uma pastoral de manutenção para uma postura de
discípulo
missionário dentro e fora do pais. Dentro desta questão é que está imbutida
a questão de formas diferentes de ministério para atender à situação resente
e superar estruturas ultrapassadas.
Na linha deste último questionamento e ancorados na proposta de
Aparecida,com enfase no número 200 que propõe que cada Igreja particular
estabeleça relações
de fraternidade e mútua colaboração com os presbíteros que sairam do
ministério canonico, é que apresentamos a nossa fala no Encontro. Foi
uma fala que recebeu acolhimento e que coloca nos nossos ombros uma tarefa
bastante complexa. De um
lado, se há muito tempo se esperava uma palavra , um sinal da Igreja, essa
palavra esse sinal estão dados.Por outro lado vem a pergunta: como
estabelecer concretamente o relacionamento de fraternidade e mútua
colaboração ? Muitos os padres que nos procurarram informando que conhecem
padres casados e com os quais
já mantêm um intercambio de cooperação e que estabelecerão contatos de
colaboração ainda mais efetiva. Os bispos presentes , especialmente
D.Vicente Costa de Umuarama, D. Esmeraldo e D. Zanoni Demetino Castro, recem
eleito para a Diocese de São
Mateus-ES, nos procuraram e nos animaram a prosseguir.De nossa parte
prometemos que ofereceráimaos informações e orientação para ajudar os que
quisessem acertar sua situação canonica, que não cremos seja a mais
importante.
Queremos destacar uma conversa com D. Zanoni, que participou da V
Conferência representando os presbíteros, juntamente com o Pe José Pietrobom
Rotta.
Informou que houve uma proposta muito mais ampla e aberta do que a que está
no número 200. Foi apresentada, salvo caso de engano, por D. Anuar Battisti
de Maringá. Foi votada e obteve mais da metade de votos, só não passando
porque precisava de
dois terços. Vamos recuperar esta informação. Ela é inportante e aponta que
não há mais muito tempo. É hora de ir dando passos concretos. Quando o
Cardeal
Bea, nomeado por Jão XXII para os Secretariado da União dos Crstãos escreveu
uma Carta ao Secretário do organismo que congregava as Igrejas Cristãs, este
lhe
respondeu que, considerando os 400 anos que as Igrejas Reformadas não mais
se falavam com a Igreja Católica, era preciso que primeiro ele pudesse se
encontrar com
o cardeal Bea e que esse encontro não poderia ser nem em Genebra e nem em
Roma , mas em algum lugar a meio caminho. ( foi em Milão). Isto significa
que cada um
tinha que dar passos na direção do outro.
Lembrando a fala do Ponciano em Recife, onde ele fez a mesma colocação
dizendo que é preciso que nós procuremos estabelecer com eles, os bispos e
os
presbíteros do ministério canonico da Igreja Católica,relações de
fraternidade e mútua colaboração. Teremos que nos assentar e pensar nisso.
Mas nos sintimos tanquilos e animados. Deus nos deu a graça de você
Félix e Fernanda, juntamente com todo grupo de Recife, terem aceito a
presidência da
Associação e a Presidência do MPC, que agora não está mais só nos ombros de
vocês, mas do Conselho Gestor criado em Recife, um Conselho muito bom: você
e
Fernanda, o Gilberto e Aglésia, o Tavares e Sofia,Pamumbo e Margarida,Ponciano
e Ziulma, Saltiel e Sonia Maria,Antonio Evangelista e esposa, Zé Vicente e
esposa.
.
Fraternalmente,
Armando e Altiva
MENSAGEM AOS PARTICIPANTES DO XII ENCONTRO NACIONAL DOS PRESBÍTEROS
Trazemos a saudação das famílias dos padres casados que se reuniram no seu XVII Encontro Nacional em Recife, entre 10 e 13 de janeiro passado, para refletir, aprofundar e partilhar a missão do padre casado, quer seja na Igreja, na sociedade ou na família.
Desejamos que este XII Encontro Nacional dos Presbíteros do Brasil seja para cada um dos presentes e seus representados o momento onde o discipulado se ilumina e se torna um dos grandes passos para o novo momento da Igreja da América Latina e Caribe, que optou por ser Missionária.
O caminhar dos padres casados durante estes últimos quarenta anos se apoiou e se inspirou no Movimento dos Padres Casados. É um movimento que se empenha seriamente para não se institucionalizar porque se sente vocacionado para acolher e apoiar a cada um, leigo ou ordenado, para que cada um possa perseverar na fé e crescer dentro de sua opção pessoal. O Movimento dos Padres Casados busca ser movimento para poder acolher o outro assim como ele é.
Três elementos são como a coluna dorsal: 1) Os grupos. É onde o padre e sua família se insere, partilha a sua fé, dá seu testemunho e exerce seu ministério, que é um ministério de serviço.
2) Os Encontros, nacionais, internacionais, regionais ou locais. São a forma de partilha, do aprofundamento e definição do ministério.
3) Os Organismos de apoio, que são a Associação Rumos, o Jornal, a Internet, a Comissão de Teologia, Delegação para Eventos Internacionais, Assessoria Jurídica e a Comunicação Externa.
Os Encontros, 17 ao todo e representam 34 anos de caminhada, ajudaram a aprofundar e desenhar a silhueta do ministério do padre casado e da sua família, um ministério multifacial. Por imperativo de brevidade destacamos apenas duas faces:
a) A vida inserida no quotidiano da vida familiar, profissional, social e grupal é a forma concreta de anunciar Jesus Cristo, não Jesus doutrina, mas Jesus o Cristo encarnado, o Cristo Deus e Homem inserido na vida humana. O profetismo do padre casado pode ser definido assim: sou profeta no que sou e o texto de Paulo aos Corintios ( 1 Cor 7,20-31) esboça como viver a vocação: ser como se não fosse.
b) O desligamento do ministério canônico tornou-se o caminho para trazer o padre de volta para a realidade da vida, como o casamento, a vida familiar, o trabalho profissional e a prestar um ministério de serviço que consiste no ministério da palavra, do testemunho, do estar presente, do ser solidário, do celebrar sem presidir, podendo até presidir, mas despojado do "status" e do poder.
Concluímos agradecendo poder estar aqui. Obrigado ao Padre José Pietrobom Rotta e a D. Esmeraldo Barreto Farias pelo convite e pela acolhida. Agradecemos a calorosa e fraterna acolhida de todos os que estão nesta casa.
Entendemos que a acolhida, que é desde o 1º. Encontro, hoje concretamente se constitui nos primeiros tijolos que estamos colocando para realizar a proposta de no. 200 da Conferência de Aparecida e que diz que cada Igreja Particular procure estabelecer, com os presbíteros que se desligaram do ministério canônico, relações de fraternidade e mútua colaboração.
Sonhamos que nos dois anos que transcorrerão até o próximo Encontro, a edificação já esteja bem adiantada. Muito obrigado.