Finalidades da Meditação*

Thomas Merton

 

        Qual a finalidade da meditação no sentido de “oração do coração ?” Na oração do coração , procuramos , em primeiro lugar , a base mais profunda de nossa identidade com Deus. Não raciocinamos em relação aos “mistérios”. Procuramos , antes , conseguir apreender diretamente, de maneira existencial , por uma experiência pessoal , as mais profundas verdades da vida e da fé: encontramos a nós mesmos na verdade de Deus.A certeza interior depende da purificação . A noite escura retifica nossas mais íntimas intenções . No silêncio dessa “noite da fé” , voltamos à simplicidade e à sinceridade do coração . Aprendemos como nos concentrar, nos “recolher”. Isso consiste em escutar , estar atento para ouvir a vontade de Deus na direta e simples atenção a realidade . O recolhimento (concentração) é percepção ou consciência do incondicional . A oração significa, portanto , desejar ansiosamente a simples presença de Deus, para termos uma compreensão pessoal de sua palavra, para conhecermos a sua vontade, para sermos capazes de ouvir e obedecer. Trata-se, então, de muito mais do que murmurar petições em favor de coisas boas, externas a nossa mais profundas preocupações.

Nosso desejo e nossa oração devem resumir-se nas palavras de Santo Agostinho: “Possa eu conhecer-Te, possa eu conhecer-me”. Desejamos obter uma verdadeira avaliação em relação a nós mesmos e ao mundo, de maneira a entender o sentido de nossa vida como filhos de Deus, remidos do pecado e da morte. Desejamos atingir um verdadeiro conhecimento amoroso de Deus, nosso Pai, e nele repousar.

Desejamos ouvir sua palavra e responder, reagindo com todo nosso ser. Desejamos conhecer sua vontade misericordiosa e a ela nos submeter em sua totalidade. Aí a meta e o escopo da meditatio e da oratio. Esta preparação à oração pode ser prolongada através da lenta e “sapiencial” recitação amorosa de um salmo predileto, demorando-nos no sentido das palavras para nós, aqui e agora.

Na linguagem dos pais do manaquismo, toda oração, leitura, meditação e todas as atividades da vida monástica têm por escopo a pureza de coração. Isto é, uma entrega incondicional a Deus, totalmente humilde, uma aceitação completa de nós próprios e de nossa situação conforme a vontade d’Ele . Isto significa a renuncia a todas as imagens ilusórias de nós mesmos, a toda exagerada apreciação de nossas capacidades, de maneira a obedecer à vontade de Deus como chega ela até nós, nas difíceis exigências da vida em sua rigorosa verdade. Pureza de coração é, portanto, correlativa a uma nova identidade espiritual – o “eu” – reconhecido no contexto das realidades queridas por Deus. A pureza de coração é a iluminada percepção ou consciência do homem novo, oposto às complexas e, talvez, um tanto inconvenientes fantasias do “homem velho”.

A meditação esta, conseguintemente, ordenada a essa nova visão interior, a esse conhecimento direto  de nosso eu, em seu aspecto mais elevado.

Que sou eu? Sou uma palavra pronunciada por Deus. Pode Deus falar uma palavra que não tenha sentido?

Entretanto, estarei certo de que o sentido de minha vida é o sentido planejado para mim por Deus? Será que Deus impõe um sentido a minha vida por fora através do acontecimento, do costume, da rotina, da lei, do sistema, do impacto com outros na sociedade? Ou sou eu chamado a criar por dentro, com Ele, com sua graça, um sentido que irradie sua verdade e me torne sua “palavra” levemente pronunciada em minha situação pessoal? Minha verdadeira identidade permanece oculta no chamado de Deus à minha liberdade em minha resposta a Ele. Quer isso dizer que deve empregar minha liberdade pra amar com plena responsabilidade e autenticidade. Não se trata apenas de receber uma forma que me é imposta pelas forças externas, ou de organizar minha própria vida conforme um padrão social aprovado, mas trata-se de dirigir meu amor para a realidade pessoal de meu irmão e de abraçar a vontade de Deus em toda sua nudez e, com freqüência, em seu impenetrável mistério (São Paulo. Carta aos Romanos, 11 , 33 a 36).

 

·        Transcrição parcial do capítulo XI do livro Poesia e Contemplação . Rio de Janeiro : Editora Agir, 1972.

 

 

Fonte:Meditação Cristã – Boletim do Rio de Janeiro, nº 41