"Gaudere cum gaudentibus, flere cum flentibus"
Gostaria ser apenas um cristão, ou melhor uma simples criatura humana, vestida da benignidade e humanidade do nosso Salvador Jesus Cristo.
Gostaria me despir totalmente do homem velho e que Cristo me vestisse totalmente do homem novo. Sei que realizar isso sozinho é impossível, mas sei também, que “tudo posso Naquele que me conforta”.
Anos e anos de “segurança” dentro de uma instituição com o carimbo de “Status Perfectionis”, após ter sido “ungido” e enviado para ensinar, pregar e distribuir Deus aos homens e os homens a Deus, o homem velho que me habita, com certeza quer oferecer o incenso ao ego e colocá-lo em cima do altar sustentado pelo meu saber (pobre saber!) teológico e filosófico.
Como “amigo” de Deus e cumpridor da sua lei, posso muito bem falar com Ele, pois não sou como os demais, ignorantes e nem como estes colegas homossexuais ou até pedófilos. Tive a coragem de me despir das vantagens clericais, enfrentar o mundo e comer o pão que o diabo amassou. E agora, forte do meu sacerdócio in aeternum e do caráter sagrado indelével, posso falar ex cátedra e anatemizar todos que pensam ou tentam caminhos diferentes do meu.
Por pura gratuidade divina, sou habitado também pelo Homem Novo. Este me leva à morte de tudo que acho que é meu. Morte esta que proporciona a vida plena que é partilha, serviço, compaixão. O meu eu, então, ressuscitará no Dele. Se Cristo pedia perdão para os seus algozes, quem sou eu para não aceitar um Dom Milingo, alguém que queira celebrar sua eucaristia, se submeter a um bispo. Será que Lutero não trouxe também benefícios ao Reino? Posso não concordar, jamais anatemizar. Dom Cappio pode até estar equivocado, mas daí a emitir julgamentos, seria por demais temerário. Alguém insiste em caráter, sucessão apostólica, hierarquias, ritos, sacramentos: tudo ótimo, tudo maravilhoso! Ninguém me constituiu juiz de ninguém, por quê me incomodaria com isso? Há tantas necessidades neste mundo: é só estender a mão e fazer o que tiver ao nosso alcance. Nada mais. O que é a Eucaristia se não revela, na minha vida, o que significa? Tudo poderá ser valido se baseado na virada interior, tudo será inútil, até a Missa será inútil sem a minha virada interior. Será possível evangelizar, sem aceitar o Evangelho dentro de mim? Isso deve começar na minha casa, com meus vizinhos: fazer-me tudo para todos. Gaudere cum gaudentibus, flere cum flentibus. Alegrar-se com quem está alegre e chorar com quem chora.
Bernardoni falou do individualismo eclesiástico, talvez uma das característica do clericalismo, um pouco natural a toda criatura humana e mais ainda pela formação autoritária, infalível e potencializada pelo celibato, quase sempre não vivido espiritualmente. Eu posso ter tirado a batina, tirei das minhas costas o clericalismo?
Não é preciso pensar em fazer grande coisas e depois fazer pouco caso do meu irmão: se o chamar de imbecil mereço o inferno. De jeito nenhum posso considera-lo inferior. O Evangelho é claro e é duro! Quem pode entender isso? Das vezes a comum educação, polidez, as boas maneiras usada pelos leigos ensinam e muito aos clérigos de como respeitar as pessoa e ser gentis sem ser efeminados. Sendo habitado pelo homem velho com a deformação clerical, posso pensar em trabalhar como enviado por Deus? Posso e devo, não tanto pelo discutível caráter indelével, mas pelo impulso do Espírito que me impulsiona, como a todos os homens e me impõe a virada interior. É Ele que conduz ao deserto do encontro quotidiano com o Pai e me envia, com o Cristo a evangelizar os pobres! De minha parte não posso deixar de dar uma resposta concreta e quotidiana à voz de Deus, que me chama para encontro a sós no deserto. Após isso posso até usar roupas especiais ou não, conforme as circunstancias para chegar aos irmãos. Valer-me da imposição das mãos não tanto como meio de poder, mas como impulso para o serviço. O importante e isso peço a Deus, que possa viver a presença divina que me habita gratuitamente. Não me chamem de padre, nem de mestre. Me chamem simplesmente de Mario, pois gostaria associar-me mais ao sacerdócio comum dos fieis do que ao sacerdócio pomposo levítico. No máximo gostaria ser apenas um velho lutador-presbítero, sem condenar os que vêem nisso o único caminho da salvação. Apenas gostaria de ser um homem simples, revestido da humanidade e benignidade do nosso Salvador Jesus Cristo e isso peço aos irmãos que me honram com suas visitas virtuais, que colaborem com o Espírito de Deus a realizar isso em mim e em todos nós.