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São Francisco: greve de fome de bispo divide Igreja Católica

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6 DE DEZEMBRO DE 2007 - 16h06

Setores da Igreja Católica contrários à greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, 61, aumentaram a pressão pelo fim do protesto contra a transposição das águas do rio São Francisco. Nesta quarta (5), o cardeal arcebispo e primaz do Brasil, dom Geraldo Majella Agnello, foi a Sobradinho (a 540 km de Salvador) pedir pessoalmente ao religioso que encerrasse o jejum. Ele não foi o primeiro. Na terça (4), o arcebispo metropolitano da Paraíba, dom Aldo Pagotto, já havia criticado o protesto e disse que ninguém tem o direito de tirar a própria vida ''a qualquer título''.
Pagotto pediu ainda a Cappio que ''reveja a sua posição quanto à revitalização e à integração das Bacias Hidrográficas do rio São Francisco''.

No documento entregue a Cappio por Pagotto, o arcebispo lembra que, dois anos atrás, quando o bispo realizou a primeira greve de fome contra o projeto, a nunciatura apostólica no Brasil, que representa o papa, pediu em carta que ele ''desistisse dessa conduta''.

O bispo afirmou que o seu comportamento é coerente com a sua trajetória de franciscano e declarou que a nunciatura apostólica apenas ''pediu'' para que ele encerrasse o primeiro protesto --o que, em 2005, ocorreu após 11 dias de jejum.

Segundo o bispo, a transposição só beneficiará o ''hidronegócio'' e ''não vai trazer verdadeiro desenvolvimento''.

Pagotto, que preside o Comitê Paraibano pela Integração das Bacias Hidrográficas do Rio São Francisco, por ouyro lado, afirmou que não compete aos bispos intervir no ''planejamento técnico-científico e na gestão administrativa e econômica'' da transposição.

Entretanto, ele declara que os ''bispos e o povo da Paraíba e dos demais Estados pleiteantes'' apóiam o projeto. E justifica a razão: ''quem tem sede apóia a obra''.

Cardeal discorda da greve

Cappio conversou por uma hora, a portas fechadas, com dom Geraldo Majella Agnello e mais quatro bispos - entre eles o conselheiro permanente da CPT (Comissão Pastoral da Terra) dom Tomás Balduino, aliado de Cappio - nesta quarta.

No encontro, o bispo recebeu uma carta do cardeal, com o posicionamento da regional Nordeste 3 (Bahia e Sergipe) da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil). No documento, a entidade manifesta solidariedade em relação à luta de Cappio, mas discorda da forma escolhida para isso. Para dom Ceslau Stanulla, que também é bispo de Itabuna, o jejum de protesto “é extremo”. “Greve de fome eu não apoiaria nunca”, disse.

Ao final da reunião, o arcebispo primaz não confirmou ter pedido o fim do protesto. “A gente deixou para a consciência dele (decidir)”, declarou. Dom Geraldo Magela também afirmou que compreende a dimensão da causa, mas discorda da forma escolhida para protestar.

Cappio disse que ficou ''alegre pela solidariedade'' e afirmou que via o pedido de recuo feito por Majella como um gesto de preocupação com a sua vida. ''Os pedidos para que eu recue vêm de toda parte'', declarou. ''Todos me querem bem, querem me ver com vida, mas mantenho meus propósitos.''

Jejum até a morte

O bispo tem dito que manterá o jejum ''até o fim''. Ele condiciona a suspensão do protesto à saída do Exército do canteiro de obras e ao arquivamento do projeto da transposição. O governo diz que a obra continua.

A igreja de São Francisco, em Sobradinho, onde Cappio está, transformou-se em ponto de encontro de romeiros, pescadores, políticos e ativistas ligados a movimentos sociais.

Na terça à noite, o bispo celebrou uma missa campal, às margens do rio São Francisco. A cerimônia foi precedida por uma caminhada de três quilômetros, feita pelos fiéis. A CPT, que participou da organização, disse terem participado duas mil pessoas.

Apoios

Desde o início desta terça, chegaram à Capela de São Francisco ônibus dos municípios da Bahia (predominantemente), Pernambuco e Ceará para o protesto. Para dom Cappio, a caminhada foi “um bonito momento pela vida do povo”.

Nesta quarta, uma nova manifestação, em Ibotirama (a 667 km de Salvador), reuniu mil pessoas, na avaliação da Polícia Rodoviária Federal. O grupo interditou, por cerca de oito horas, uma ponte de 1.045 metros sobre o rio São Francisco.

Portando faixas de apoio ao religioso, trabalhadores rurais, pescadores, estudantes e integrantes de movimentos sociais jogaram pneus velhos na pista e montaram toldos sobre a ponte para protestar.

Há mais de uma semana só bebendo água e sem se alimentar, o bispo recepciona todos que o visitam e celebra missa diária. Neste período de jejum, dom Cappio só não presidiu a celebração em dois dias.

Anemia e desidratação

No entanto, a greve de fome de Cappio, que dura há nove dias, já começa a apresentar sinais de desidratação, fadiga e anemia.

O diagnóstico é do médico Rogério Leal, que o examinou nesta quarta (5). Leal recomendou ao bispo que ingerisse soro caseiro - e não somente água pura -, o que passou a ser feito à tarde.

Além de trocar a água pelo soro, o religioso também aumentou os períodos de descanso, de um para três ao dia. Ele manteve, porém, suas duas principais atividades públicas, a reza do terço e a missa noturna. A rotina de atendimento aos romeiros também não mudou. O bispo recebe os grupos na igreja de São Francisco, local escolhido para o jejum.

O governo afirma que não vai paralisar a obra, avaliada em R$ 6 bilhões e alega que a transposição beneficiará 12 milhões de pessoas. O projeto prevê o desvio de até 26 mil litros de água por segundo, do rio para canais e leitos secos nos Estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Atentado à vida

O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, manifestou inúmeras vezes sua avaliação sobre a greve de fome do bispo. No dia 28 de novembro, um dia após o início da greve, o ministro disse que a ação ''parece chantagem'' e que o governo sempre esteve aberto para o diálogo.

''Lamento profundamente que o Cappio tenha enveredado por esse caminho, contrariando dogmas da igreja, que diz que atentar contra a própria vida é pecado. É assim que a Igreja Católica, a minha igreja, tem se posicionado, por exemplo, quando trata do aborto, ao dizer que ninguém é dono do próprio corpo, da própria vida'', declarou.

Segundo Geddel, sua única iniciativa no caso foi entrar em contato ontem com o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), ''para pedir a ele que deixe uma estrutura médica à disposição do bispo Cappio'', afirmou. ''E só isso'', reiterou.

Diálogo aberto

O ministro rebateu a acusação do religioso, de que o governo federal teria se recusado a conversar sobre o projeto. Disse que quando assumiu o ministério, em março, fez sua primeira ligação telefônica no cargo para o bispo, convidando-o para conversar.

''Os meses se passaram, e ele não atendeu meu chamado'', afirmou Geddel. ''Chamei-o para conversar, e ele disse que ia consultar as pessoas ligadas a ele e que me retornaria. Até hoje não me retornou.''

“Eu também lamento que ele esteja enveredando pelo caminho que não é o do bom senso”, disse. “A democracia não pode se curvar à vontade de um homem”, acrescentou. Reiterando o que disse no programa Fala Bahia, da rádio Bahia FM, Geddel frisou que permanece aberto “a quem quiser contribuir para o projeto”.

''Postura fundamentalista''

Já no dia 30 de novembro, o ministro foi mais duro em suas críticas à Cappio. Ele afirmou, em Petrolina (780 km de Recife, PE), que o bispo adotou uma ''postura fundamentalista'' ao retomar a greve de fome.

O ministro também destacou que Cappio e a igreja ''têm total legitimidade para criticar, apontar caminhos, pastorear almas, mas não para governar''. ''A legitimidade para governar é de quem se submeteu ao debate popular e obteve do povo essa licença'', disse.

''Essa postura fundamentalista do bispo vai contra ensinamentos da igreja, vai contra o que eu aprendi a respeitar desde muito jovem'', declarou.

Geddel reafirmou ainda que o governo não vai paralisar as obras da transposição, apesar da ameaça de Cappio de manter o jejum até a morte. ''Ele fala o que quiser, e eu estou lhe dizendo que essa obra vai ser levada adiante, porque essa é uma determinação do presidente Lula'', disse Geddel.

O bispo divulgou uma ''carta ao povo do Nordeste'', em que explica o motivo do seu protesto e afirma que não é contra o direito dos nordestinos à água. ''Fosse a transposição solução real para as dificuldades de água de vocês, eu estaria na linha de frente da luta por ela'', diz a carta.

Sem negociação

Sobre a possibilidade de tentar um acordo para acabar com o jejum, Geddel declarou: ''Não tem o que negociar, até porque a forma que ele está colocando parece chantagem''.

Ainda de acordo com o ministro, ''as obras não vão parar por causa disso''. E o que fazer, então? ''Resta apenas lamentar e pedir a Deus pela sua misericórdia, e que devolva o bom senso a Cappio'', declarou.

O ministro já assinou quatro contratos relativos à transposição do Rio São Francisco – três relativos ao projeto executivo e um para estudos topográficos, totalizando R$70 milhões. Engecorps – Corpo de Engenheiro Consultores (R$18 milhões) e os consórcios Hidroconsult/MWH Brasil (R$ 8,7 milhões) e Techne/Projetec/BRLi (R$14,5 milhões) foram contratadas para os projetos executivos, totalizado R$51,3 milhões.

Geddel também assinou contrato com a Aquatool Consultoria Ltda, que fará os serviços topográficos das primeira e segunda etapas dos Eixos Norte e Leste. Os serviços estão orçados em R$779 mil.
Fonte: Da redação, com agências