HANS KÜNG
UM TEÓLOGO ENTRE ERAS
Por Antonio Carlos Ribeiro
A passagem do teólogo católico Hans Küng pelo Brasil deixa um significativo impacto para as comunidades cristãs, os teólogos e as teólogas, e o relacionamento da teologia com as ciências. O primeiro impacto, se origina no fato de ser um teólogo rebelde, com causas, lúcido, em diálogo permanente com a realidade e capaz de resistir às punições, driblando as armadilhas.
Neste mês – em que os evangélicos celebram os 490 anos da Reforma Protestante, em que os brasileiros deparam-se com a notícia de que vão sediar a Copa do Mundo de futebol e em que celebram vitórias as mais diversas na economia, na saúde, na educação, na cultura e na habitação, embora só recebam os aplausos os que lêem a imprensa estrangeira – a trajetória de resistência anima e estimula.
O professor que dedicou-se aos temas complexos – aborto, celibato, valorização das mulheres, assumindo os binômios fé – intelectualidade, religião – cultura, desenvolvimento e ética global – sofreu as conseqüências de suas opções intelectuais sem se deixar abater, cuja cultura e postura ética tornam sua opinião imprescindível e que vai completar 80 anos de vida e 55 de sacerdócio no próximo ano. Sem abandonar a convicção de que os relógios do mundo não andam para trás, Küng é protótipo do teólogo que superou o lixo barroco medieval”, como escreveu em Por que ainda ser cristão hoje?, e hoje consegue dialogar com a pós – modernidade. Seu testemunho teólogo ajuda a manter a fé de que valores como consciência, liberdade e independência não podem ser negociáveis. Que o custo de qualquer recuo é a credibilidade. Que há compromissos dos quais não se pode abrir mão e que o importante para um teólogo é expressar as preocupações e esperanças atuais do povo, à luz do Evangelho, como disse à Deutsche Welle quando quase foi punido em 1979.
Para teólogos e teólogas, a presença de Küng provoca reflexão sobre seu papel. A função exige estudo, trabalho, persistência e independência. Esperar menos dos/as teólogos/as é ofensivo a Deus, que se revela – por vezes sub contraria espécie – na histeria; às Igrejas, que não existem para interpretar a Palavra mas a sempre se deixarem interpretar por ela: e aos seres humanos, tornados prioritários pelo Pai, dado que Jesus compreendeu e tornou o seu absoluto, a partir do qual relativizou tudo o mais. A trajetória deste teólogo explica o decréscimo de confiança nas constituições religiosas no mesmo ritmo em cresceu a confiança nos teólogos. Na Alemanha, publicações teológicas independentes tem conquistado parte do público das oficinas.
Ademais, a presença de Küng deu significativa contribuição para o relacionamento com as ciências. O fato de ter sido convidados por universidades, capitaneadas pelas Universidades Federais, demonstra com a rejeição da academia brasileira ao discurso religioso, começa a ser ameaçado. Com o advento da transdisciplinaridade, a teologia começou a romper a polaridade altar – sacristia, incluindo espaços como as universidades – duas federais já ofereceram pós – graduação em Ciências da Religião – os debates públicos, as colunas de jornais, os centros e institutos de diálogo com saberes como a filosofia, o direito, a psicanálise, a literatura e as comissões de ética. Em 20 séculos, o espaço exclusivo das igrejas gerou avanços, mas pagou o preço das punições (do ostracismo à morte, passando pelo afastamento da cátedra e a aposentadoria forçada), como a imposta pelo ministro da cultura do 3° Reich ao reformado Karl Barth.
Ao falar em Barth, lembra uma amizade fraterna e respeitosa de Küng com o mundo evangélico, a marca verdadeira e significativa dos que partilham o labor científico com o coração nas igrejas e os olhos na sociedade, ou na Bíblia e no jornal do dia, como queria aquele teólogo protestante. E lembra ainda o impetuoso e intransigente Lutero, em questões de fé, liberdade e consciência, que não hesitou ao chamar Agostinho de Hipona de santo, até seu último escrito, para reverenciar sua cultura teológica.
A passagem de Küng atualiza para nosso povo as convicções do trabalho intelectual dedicado e honesto, da exigência de não se negar ao debate, da abertura para acolher respeitosamente a alteridade da fé do outro, do compromisso de olhar para além dos muros da comunidade cristã, minha paróquia é o mundo, disse John Wesley. Com a confiança de que Deus acolhe a ousadia sincera, em nome das causas de homens e mulheres, especialmente os que só possuem a esperança de esperar o Reino – mesmo as aparentemente perdidas – sem duvidar que somos amados e que podemos pecar com força e crer ainda mais fortemente ( pecca, pecca fortiter et credere fortitius), como escreveu Lutero, sem que o amor dEle por nós sofra qualquer abalo.
Teólogo e Jornalista