JANAYNA   2

 

                 Ester, Janayna e eu padre e casado

 

Ester,  símbolo de solidariedade

Para o biblista José  Bortolini, o Livro de Ester é a mais leiga das novelas do Antigo Testamento. Tirando os acréscimos do livro e ficando apenas com o texto original hebraico, percebemos que nele, não há qualquer referência direta a Deus.

A judia Ester, com sua graça feminil, seduz o rei violento e consegue anular a sentença de morte do seu povo condenado ao extermínio: “Se o senhor quiser fazer-me um favor, se lhe parecer bem, o meu pedido é que me conceda a vida, o meu desejo é a vida do meu povo”. (Est 5 7,3)

 

Janayna esquece suas dores lancinantes, seu lento declínio, esquece-se a si mesma, esquece sua preocupação. Com seu livro ela deseja  que as pessoas  aprendam a dar valor à vida!  Por isso ela diz: “Para mim ele é muito importante, pois é uma maneira de ensinar as pessoas a dar valor à vida”.

Presumo que Janayna seja praticante de alguma religião. De propósito, não me preocupei em pesquisar.

A profecia é possível em qualquer religião e até no ateísmo. Sócrates, Gandhi, Chico Xavier, Einstein, Herbert de Souza são alguns exemplos.

Janayna supera as dores, seu ego e espalha doçura, otimismo: difunde vida.

Sem saber, Janayna é profetiza anunciando vida, é sacerdotisa unindo as pessoas em comunidade de admiração do amor (adoração) e celebra sua missa na cruz da sua cama. Ela salva dando vida.

 

Eu, padre casado.  Aos doze anos incompletos entrei, por vontade própria, no postulantado beneditino. Sempre gostei de espiritualidade. Vivi e vivo a minha vida religiosa com entusiasmo.

Tive ótimos mestres entre os quais o Abade Enrico Baccetti, Devroede, Garrigou Lagrange, Cipriano Vagaggini. Com este eu  estava preparando uma tese de doutorado, que deveria apresentar contra Maritain, provando que é possível chegar-se aos graus místicos  da contemplação através da liturgia.

Com 25 anos fui ordenado padre. Mal iniciei a pesquisa teológica foi chamado para ser pároco; logo em seguida, mestre dos noviços.  Depois, novamente pároco e mestre dos noviços, esta vez já no Brasil, onde me apaixonei pela Margarida, única mulher da minha vida, com a qual vivo feliz até agora, sem nada rejeitar do passado.

Contra a orientação de Paulo Apóstolo - que diz que o bispo deve ser escolhido entre os homens bem casados e com uma só mulher – ainda se forma a maioria dos padres, em seminários menores  e, depois, estudam Filosofia e Teologia.

O padre pode ser santo, mulherengo, homossexual ou até ocultamente adepto da pedofilia, (poucos na verdade) e, no ambiente em que vivi como religioso, jamais tive conhecimento  de algum caso destes).

Quando ao novo sacerdote é confiada uma igreja, ele a encontra repleta de fieis que participam das celebrações, seja para cumprir preceito, seja convicção. A grande maioria dos novos padres sente-se satisfeita, como quem volta do supermercado, após ter efetuado a sua compra. No entanto, em verdade o padre nada fez para estas pessoas estarem juntas.

 Congrega-se nessa igreja um grupo de pessoas, mas nela existe comunidade? Conforme o padre, pode até pode nascer uma pequena comunidade.  No caso da Janayna, os laços de amor foram se construindo naturalmente; as pessoas se aglutinam a ela espontaneamente. A conseqüência: uma livraria torna-se uma catedral da comunicação, da vida, da celebração do amor.

Atualmente, na Igreja há efervescência de polêmicas, de idéias, de propostas em torno dos ministérios. Discute-se a respeito de leigos, de presbíteros, de bispos casados e celibatários; discute-se sobre a ordenação de mulheres, sobre a possibilidade de elas celebrarem a missa. Esta, agora, até de novo em latim... Preocupados ou não, com  disposições do assim chamado magistério, discute-se ordenação ou não-ordenação de bispo para o Movimento dos Padres Casados; Milingo sim, Milingo não...

Será que nós não estamos nos perdendo em detalhes e nos esquecendo o essencial?  Continuando na lógica deste raciocínio, parece não haver necessidade de alguém ordenado, ou seja, de pessoa, seja homem ou mulher, que coordene a caminhada do amor e o faça celebrado, em espírito e verdade, em comunidade de vida!

A presença do escolhido pela comunidade e para a comunidade é necessária, mas temos que fugir do artificial e procurarmos a simplicidade. Estamos com tanta sede de dar Deus aos homens e levar o homem a Deus? Queremos ter a “nossa” comunidade? Então, em primeiro lugar, iniciemos a intensificação de nossa união com o Deus - Pessoa e não com o deus da teologia ou do ritual litúrgico, do direito canônico ou, pior, do poder.

Creio que a situação do padre casado atualmente é das mais propícias para realmente exercer o múnus sacerdotal.  Não temos privilégios, não temos como nossa, uma “nossa”, uma assembléia artificial; não somos separados, pois somos iguais a todas as demais pessoas e, como elas, temos que lutar pela sobrevivência, para garantir pão e amor nas nossas famílias.

Padre sem comunidade não existe. Há quarenta anos chamamos atenção para este fato. Em todo esse tempo imploramos por trabalharmos em comunidades “alugadas” do Vaticano, mas, agora, cansados, apelamos a novas igrejas, a bispos casados ou celibatários.

Há tantas polêmicas a respeito do ministério ordenado, por que estamos acostumados a receber tudo na boca e a nos sentirmos donos do rebanho, e não servidores dele?

Experiências que surgem do meio do povo, como a de Vitória, podem ser ótimas, como também a alternativa de recurso ao Milingo. Porém, antes de mais nada, é morrendo ao poder, ao egoísmo que se cria a comunidade, mais facilmente indo a uma favela do que pisando sobre tapetes vermelhos das catedrais. Concluindo: em primeiro lugar devemos procurar estabelecer a comunidade com Deus e, somente depois, podemos construir nossa comunidade e não procura-la artificialmente.

Mesmo quando, mortos para nós mesmos, de bem conosco mesmos e com o olhar compassivo sobre tudo e todos, tivermos feito tudo para sermos sacerdotes, ou seja, para levarmos Deus ao povo e o povo a Deus, ainda seremos sempre servos inúteis. Então a comunidade deverá surgir em volta de nós, ou até a semente poderá apodrecer e a gente morrer na solidão como o Mestre na Cruz, mas do nosso túmulo surgirá a vida, a ressurreição que frutificará em nova Jerusalém, aqui na terra.

Pedir ao dono da messe que envie operários é preceito evangélico. Insistir pela abolição do celibato obrigatório é  clamor  universal. Forçar as "autoridades" a ouvir este clamor é iniciativa         louvável.                                                                                                         Readmitir sacerdotes casados idóneos aos ministério é questão de bom senso, frente à carência de operários, mas tudo não passa de soluções periféricas, sem colocar em prática a colegialidade em todos os níveis. O Espírito fala à Igreja- Povo de Deus. Quando a Igreja escutar a voz do Sopro Divino, com certeza seguirá a orientação paulina e as comunidades saberão escolher seus pastores, homens ou mulheres,  que tenham família, bem constituída, já experimentados por anos de dedicação ao Reino e se celibatários voluntários tanto melhor.

 É o que opinamos.