From: Almir Simões
To: tavaresj@elo.com.br
Sent: Tuesday, January 22, 2008 11:22 PM
Subject: As lições de Recife

Tavares e Sofia
 Fiquei tão 'intrigado' com a tal virada, que mal abri as malas, fui rápido ao gatilho e pensei na curiosidade dos colegas que não foram a Recife. Certamente mais 'intrigados' ainda! Aliás, participei do encontro, anotando algumas coisas, com o propósito de escrever.  Envio-lhe em anexo as Lições do Encontro de Recife. Acho que não me esqueci de nada. A dificuldade foi condensar o máximo em poucas linhas. Se algo ficou fora foi por que não considerei notável. Não sou jornalista e meus comentários podem conter erros. Fique inteiramente à vontade para corrigi-los em todos os sentidos, com exceção do conteúdo pois reflete o meu pensamento. Como não se trata de transposição do São Francisco, espero que vocês concordem.Julgue-o na na qualidade de moderadores se deve passar adiante. Abraços Almir

 

 

As lições do Encontro de Recife

                                                                                         Almir Simões

 

Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estarei no meio deles, disse Jesus.

Sentimos a presença divina no XVII Encontro dos padres casados e suas famílias realizado no Centro de Treinamento Cristo Rei na região metropolitana de Recife, de 10 a 13 de janeiro de 2008. Éramos representantes de 13 estados da federação e mais de 95 pessoas. Três dias intensivos de muito diálogo e sem dissensões. “Quam bonum et jucundum habitare fratres in unum”. O tempo fluiu tão rápido que não podemos rever Olinda.

Cada encontro tem as suas peculiaridades e agrega sempre algo novo aos participantes.  Este, em Recife, trouxe lições especiais e inesquecíveis. A organização e acolhida pelos colegas anfitriões Félix, Mateus, Bernardo, Marcelino, Cloves, Isaac, Oliva, Leonardo, Crespo, Tôrres, Rocha e Mourão, com suas esposas e filhos, foram exemplo de dedicação e modelo de trabalho em equipe com reflexos altamente positivos no clima, no conteúdo e nos resultados do evento. O local muito aprazível e aconchegante. Desde o pré-encontro com o moderador João Tavares de São Luiz usando o correio eletrônico, o denodo do Joarez Virgolino, de Curitiba, através do jornal Rumos e a colaboração de Mario Palumbo de São Paulo, com o site www.oraetlabora.com.br, produziram-se excelentes textos de apóio e reflexão.

Houve liberdade e oportunidade de manifestação de diversas tendências e percepções sobre a missão dos  padres casados perante os desafios  do mundo de hoje, a crise que atinge ao clero em sua credibilidade e a defecção progressiva dos fieis. Estas preocupações por parte daqueles que “foram deixados” ou “reduzidos” revelam que o “espírito sopra aonde quer... e Deus pode usar da fraqueza para confundir a força”.

 Não foi por acaso que nos reunimos em Recife... Todo o espaço físico, da capela à piscina, passando pelo horto florestal, era propício à meditação, criava uma atmosfera de oração. Amadurecidos pelas reflexões teológicas do Pe Comblin e de D. Sebastião Gameleira, bispo anglicano, descemos a um nível de profundidade e chegamos a uma linguagem comum: Fomos ungidos por dois sacramentos – batismo e ordeme o ministério está vivo em nós. Devemos assumi-lo, não a partir de um templo, mas das nossas relações diferenciadas com o mundo, abertos aos sinais dos tempos, aos apelos de Deus e ao contexto de nossa própria vida.

Neste aspecto, o encontro trouxe uma maior tranqüilidade de consciência e deu asas àqueles que sempre desejavam um engajamento pastoral. Foi um encontro que evidenciou qual deve ser o perfil do padre hoje e oportunizou a cada participante tomar as suas próprias decisões.

Se algum desavisado, imaginou que o chamado encontro da virada seria um retorno às estruturas arcaicas da pastoral hierárquica da igreja ou a aceitação dos apelos das diversas seitas que como canto de sereias flertam os padres casados ou ainda uma ruptura com o status quo, simplesmente caiu do cavalo. Trata-se de uma atitude de independência e de engajamento ao seu próprio meio – sinkatabasis – ser povo com o povo.

Para completar Jorge Ponciano, de Brasília, abordando aspectos psicológicos, enfatizou a necessidade de desconstrução da nossa estrutura interior e o rompimento de paradigmas dentro dos quais fomos formados, pois ninguém coloca remendo novo em roupa velha.

 Na minha ótica, o mais importante  é que isto não ficou apenas na teoria. Houve surpresas. A virada pretendida já está acontecendo e tem dado frutos. Basta recordar os testemunhos de Isaac Braun e Socorro, de Bernardo e Marta, certamente inspirados nas CEBs. O sacerdócio exercido na própria família foi o depoimento vibrante e autêntico da jovem Cristiane, filha de Fernanda e Paulo Crespo, eleita secretária do MPC nacional..

Resta-nos ainda o despertar de um trabalho embrionário de um pequeno grupo de Brasília que pretende também deixar o mundo das idéias e ser fermento na massa.

O padre casado, portanto, tem um vasto campo de atuação, livre, independente, multiforme, sem perder a condição de presbítero, podendo ser protagonista da aurora sonhada por João XXIII e engavetada no pós- concílio.

O evento foi muito mais além...Foi um momento forte de integração, de re-encontro de irmãos que há mais de 30 ou 40 anos estavam juntos freqüentando as mesmas salas de aulas nos seminários e participando das mesmas aventuras.

Presentes também alguns padres casados da novíssima geração. Tinha até um bebê de 04 meses no colo do pai e da mãe. O divino e o humano estavam conjugados. A presença feminina foi marcante e decisiva para os diálogos mais prazerosos, espontâneos, transparentes,  muito diferentes daqueles retiros clericais pesados, estruturantes, onde cada um ficava na solidão do seu monólogo ou do seu quarto.

Não faltaram cultura e lazer: o frevo na comemoração do seu centenário apresentado por um grupo de jovens campeões no exterior, o maracatu com o ronco dos seus tambores afastou a chuva, as comidas típicas e a confraternização invadiram a noite. Ainda merecem destaque especial a visita à oficina Brennand, gênio em criatividade artística, o passeio de catamarã pela Veneza Brasileira singrando o Capibaribe, o Palácio das Princesas e o Marco Zero.

O Felix revelou-se exímio cicerone e historiador. Com fluência, discorreu sobre Frei Caneca, Nassau, Joaquim Nabuco, Gilberto Freire, D. Helder Câmara.

Ah Dom Helder! Que saudade! Impossível esquece-lo. A homenagem que lhe foi prestada com a exibição do filme o Dom da Paz e aquela parada do ônibus em  Três Fronteiras, em frente ao casebre onde morou, como bispo emérito, até à morte, foram muito eloqüentes e emocionantes: são lições que desafiarão o tempo.

A voz do profetas, mesmo mortos, ainda ecoa: D.Helder, D.Luciano Mendes, D Aloísio Lorscheider, os grandes amigos dos padres casados, deixaram um vazio enorme na igreja brasileira, desafio a ser preenchido pelo Espírito Santo. Finalmente voltamos para os nossos estados de origem sem a elaboração de um documento final. Totalmente desnecessário. Para que e para quem? Vivenciamos o Evangelho e todos, na mente e no coração, levaram a lição de casa.

                              Até Ribeirão Preto em 2010.