----- Original Message -----
From: claudemiro-nascimento
To: oraetlabora
Sent: Monday, May 09, 2005 6:12 PM
Subject: Opinião

 
Caro Mario Palumbo, irmão da caminhada
 
Ao ler a pequena frase do sociólogo Reginaldo Prandi senti o dever de expressar meus sentimentos em relação a mesma. Primeiro, gostaria de dar uma dica a você e a toda equipe do Ora et Labora para inserir o texto todo donde é retirada a frase, considero que seria mais interessante ler todo o contexto na qual a frase se encontra, provavelmente num artigo. Segundo, já conheço algumas reflexões de Reginaldo enquanto sociólogo e as considero importantes para nosso contexto e realidade eclesiológica atual. No entanto, permita-me fazer algumas considerações.
 
Num artigo recente que enviei a Ora et Labora afirmo que João Paulo II significou o atraso, foi o Papa anti João XXIII. Mas, realmente considero e minhas ultimas reflexões estão nesta perspectiva de uma análise da real dimensão do Concílio Vaticano II, tão necessário e tão urgente para o contexto dos anos 60 e para os nossos dias de primavera eclesial como bem afirma Leonardo Boff, nosso irmão e companheiro. Até que ponto poderíamos dizer que o Concílio conseguiu minar todas as forças reacionárias presentes dentro da estrutura. Sem dúvida foi um avanço, mas até que ponto? O nosso irmão e teólogo da América Latina e dos sertões nordestinos, Pe. José Comblin, em seu livro Cristãos rumo ao século XXI pubicado pela Paulus em 1997 já afirmava com veemência os limites do Concílio Vaticano II. Concordo com ele. Pois não é uma crítica ao Concílio, mas a continuidade do Concílio na vida das comunidades cristãs que foi minada.
De uma certa forma o Concílio significou momentos de pentecostes para a Igreja, ou seja, de 1962-1970, considero o grande momento do Concílio. Não podemos esquecer da II Conferência Episcopal Latino-Americana ocorrida em Medellín onde os bispos se encontraram e se colocaram em defesa da vida e dos pobres em países que viviam naquele período sob a égide de regimes totalitários.
Com o avanço, sabemos da existência de forças que se aglutinavam para derrubar esta conquista eclesial. Os movimentos ultra-conservadores nada mais são do que forças corporativas que nasceram com o intuito de erradicar os avanços alcançados pelo Concílio. Assim, podemos citar: a Opus Dei, a Comunhão e Libertação, os Focolarinos e até mesmo a Renovação Carismática Católica utilizada até mesmo por Ronald Reagan para desistabilizar os movimentos de libertação que surgiam na América Latina e Caribe.
Portanto, quando o nosso companheiro Reginaldo afirma que João Paulo II levou a Igreja a um estado, a um caminho complicado, minha leitura se faz por outro viés. O caminho já estava complicado antes da assumência de João Paulo II. Ele e sua eleição aconteceram na hora e no momento determinado pelas forças que também fazem lobbies em conclaves. Seria ingenuidade e infantilidade política acreditarmos que o Espírito Santo é o agente social e político e que o Papa é uma escolha divina.  O Papa é construído já nos bastidores. Lembremos que a eleição de João Paulo II foi difícil. Os grupos estavam rachados e venceu as forças reacionárias que souberam se articular. Sinceramente, dúvido que não haja promessas no pré-conclave, nas caladas da noite. Promessas de eleição de bispos, promessas de titulos cardinalícios, promessas de cargos na Congregação da Sé Romana... Seria ingenuidade acreditarmos que não exista os SEVERINOS dentro desse jogo pelo poder. Assim, uma primeira questão discordante em relação ao pensamento de Reginaldo é que João Paulo II já encontrou um caminho decandente, ele foi o homem que conseguiu levar adiante os ideais de um grupo que ao longo de seu pontificado se tornou hegemônico.
Um segundo ponto destacado por Reginaldo é um problema que considero antes de tudo filosófico. A questão não deve se pautar pela perda de fiéis. Penso que a dimensão do Evangelho é muito mais abrangente do que calcular o número de adeptos. Os judeus no tempo de Jesus eram muitos, mas existiam os fariseus e aquelas pessoas como a mulher no templo que doa sua única moeda à Deus. Ou seja, a questão é mais profunda do que dizer que a Igreja vai perder fiéis. A questão se encontra no discurso da Igreja, em sua postura tridentina, enfim em suas verdades absolutas e intocáveis. Considero que se Jesus pudesse participar ao vivo das nossas comunidades, ou se fosse um teólogo da América Latina, da Ásia ou da África seria acusado pelo novos fariseus e pelo Caifás de hoje que se encontra presente dentro dessa estrutura.
A Igreja, não consegue apresentar ao mundo um projeto, como dizia nosso irmão Pedro Casaldáliga, uma espiritualidade. Mas, também considero que a Mídia quer fazer da Igreja uma des-organização total e incuti na mentalidade das pessoas determinadas contradições que se apresentam também como verdades. Por exemplo, não podemos querer que a Igreja aceite o aborto e a eutanásia. Isso não seria vida em abundância, mas também não podemos esquecer que a Igreja precisa aceitar e acolher as mulheres, os homossexuais, os povos indígenas, os sem terras, as tribos africanas, as religiões do Oriente, enfim precisa se abrir às culturas e ao universo de vida em abundância que essas realidades apresentam. Agora, não podemos ver as coisas com os olhos da Mídia capitalista. Por isso, o problema não está em perder fiéis, é muito capitalista esta análise, mas em procurar perceber que tipo de cristãos e cristãs podemos ser. Se a Igreja aceitasse o sacerdócio da mulher, o celibato opcional, a instituição de ministérios, outras pessoas também saíriam e se perderia fiéis também. Não podemos afirmar que todos pensam e concordam com estas mudanças.
Desculpe em estar me alongando, mas a discussão é pertinente e frutífera. Quando Reginaldo fala que a Igreja perdeu sua importância eu não vejo problema nisso. De fato, ela tinha... não sei... acho que continua tendo uma importância política. Evidente que sofreu um refluxo principalmente com a eleição de bispos sem nenhum compromisso com a transformação da sociedade. Mas, todas as estruturas passam por isso, os partidos sofrem deste mau. Em geral as instituições passam por momentos de descrédito. As pessoas não acreditam mais. Mas se perguntarmos às pessoas qual a instituição que ela mais confia, ela vai dizer que é a Igreja. Isto é sinal de uma importância política. Talvez, o que Reginaldo queria dizer e com toda a razão é que a Igreja não tenha mais importância política na luta pelos direitos sociais e na construção da cidadania o que considero precipitado, já que entendemos Igreja não somente enquanto poder hierárquico. Considero que se deixássemos tudo por conta dos senhores bispos a Igreja estaria um caos. Portanto, não podemos dizer na marginalidade se encontram atores políticos com importância para os pobres. O que dizer então do martírio de Irmã Dorothy? Foi um suícidio. Não, ela incomodou setores. Por isso, a Igreja tem sua importância sim, muitas vezes não aparentes, mas que se encontra nas catacumbas de nossas comunidades.
A Igreja continua falando pelos pobres, não gosto muito desse termo massa. A Igreja fala também às massas e apresenta um projeto político a elas, é o caso da Renovação Carismática Católica que possui um pensamento bem tucanista e pefelista. Isto também é falar as massas. Mas também se fala aos pobres e temos exemplos disso: o CIMI, a CPT, o MEB, a Comissão de Erradicação da Fome e da Miséria, de uma certa forma a CNBB em determinados momentos. Profetas continuam a falar. Pedro não deixou de ser bispo, Tomás está a frente da CPT, Dom Erwin em constante adesão aos povos indígenas. E os missionários e missionárias que se dedicam ao anúncio do Evangelho. Os irmãozinhos e irmãzinhas de Jesus, os monges de Goiás do Mosteiro de nosso irmão Marcelo. Enfim,são sinais de que a Igreja continua falando aos pobres e sendo pobres com eles. Agora, se Reginaldo abordasse que a Igreja está formando um cartel de homens sem nenhum compromisso com os pobres, isso é verdade. Onde já se viu coisa mais absurda do que a manutenção de seminários lotados por sinal na formação de padres, e diria mais, na formação de pequenos burgueses.
Agora não sabemos se o novo Papa vai assumir este papel de continuísmo. A história dirá. Considero precipitado afirmamos tal proposição. Ratzinger é um homem  inteligente, muito mais que João Paulo II, é teólogo e foi cardeal. No entanto, enquanto papa resta-nos saber se continuará atuando como cardeal da Cúria Romana ou agirá como Pastor e como teólogo do Concílio? Sinceramente considero inviáveis as mudanças tão necessárias, tão evangélicas para nossa Igreja. Resta-nos saber também articular algumas alternativas.
Quis apenas partilhar um pouco do que penso e que não são verdades e com certeza que estão em constante transformação pedagógica e dialética.
 
Fraternalmente,
 
do irmão que acredita na Esperança de novos tempos
 
Claudemiro Godoy do Nascimento