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Caro Mario Palumbo, irmão da caminhada
Ao ler a pequena frase do sociólogo Reginaldo Prandi senti o dever de
expressar meus sentimentos em relação a mesma. Primeiro, gostaria de dar
uma dica a você e a toda equipe do Ora et Labora para inserir o texto
todo donde é retirada a frase, considero que seria mais interessante ler
todo o contexto na qual a frase se encontra, provavelmente num artigo.
Segundo, já conheço algumas reflexões de Reginaldo enquanto sociólogo e
as considero importantes para nosso contexto e realidade eclesiológica
atual. No entanto, permita-me fazer algumas considerações.
Num artigo recente que enviei a Ora et Labora afirmo que João Paulo II
significou o atraso, foi o Papa anti João XXIII. Mas, realmente
considero e minhas ultimas reflexões estão nesta perspectiva de uma
análise da real dimensão do Concílio Vaticano II, tão necessário e tão
urgente para o contexto dos anos 60 e para os nossos dias de primavera
eclesial como bem afirma Leonardo Boff, nosso irmão e companheiro. Até
que ponto poderíamos dizer que o Concílio conseguiu minar todas as
forças reacionárias presentes dentro da estrutura. Sem dúvida foi um
avanço, mas até que ponto? O nosso irmão e teólogo da América Latina e
dos sertões nordestinos, Pe. José Comblin, em seu livro
Cristãos rumo ao século XXI pubicado pela Paulus em 1997
já afirmava com veemência os limites do Concílio Vaticano II. Concordo
com ele. Pois não é uma crítica ao Concílio, mas a continuidade do
Concílio na vida das comunidades cristãs que foi minada.
De uma certa forma o Concílio significou momentos de pentecostes para a
Igreja, ou seja, de 1962-1970, considero o grande momento do Concílio.
Não podemos esquecer da II Conferência Episcopal Latino-Americana
ocorrida em Medellín onde os bispos se encontraram e se colocaram em
defesa da vida e dos pobres em países que viviam naquele período sob a
égide de regimes totalitários.
Com o avanço, sabemos da existência de forças que se aglutinavam para
derrubar esta conquista eclesial. Os movimentos ultra-conservadores nada
mais são do que forças corporativas que nasceram com o intuito de
erradicar os avanços alcançados pelo Concílio. Assim, podemos citar: a
Opus Dei, a Comunhão e Libertação, os Focolarinos e até mesmo a
Renovação Carismática Católica utilizada até mesmo por Ronald Reagan
para desistabilizar os movimentos de libertação que surgiam na América
Latina e Caribe.
Portanto, quando o nosso companheiro Reginaldo afirma que João Paulo II
levou a Igreja a um estado, a um caminho complicado, minha leitura se
faz por outro viés. O caminho já estava complicado antes da assumência
de João Paulo II. Ele e sua eleição aconteceram na hora e no momento
determinado pelas forças que também fazem lobbies em conclaves. Seria
ingenuidade e infantilidade política acreditarmos que o Espírito Santo é
o agente social e político e que o Papa é uma escolha divina. O Papa é
construído já nos bastidores. Lembremos que a eleição de João Paulo II
foi difícil. Os grupos estavam rachados e venceu as forças reacionárias
que souberam se articular. Sinceramente, dúvido que não haja promessas
no pré-conclave, nas caladas da noite. Promessas de eleição de bispos,
promessas de titulos cardinalícios, promessas de cargos na Congregação
da Sé Romana... Seria ingenuidade acreditarmos que não exista os
SEVERINOS dentro desse jogo pelo poder. Assim, uma primeira questão
discordante em relação ao pensamento de Reginaldo é que João Paulo II já
encontrou um caminho decandente, ele foi o homem que conseguiu levar
adiante os ideais de um grupo que ao longo de seu pontificado se tornou
hegemônico.
Um segundo ponto destacado por Reginaldo é um problema que considero
antes de tudo filosófico. A questão não deve se pautar pela perda de
fiéis. Penso que a dimensão do Evangelho é muito mais abrangente do que
calcular o número de adeptos. Os judeus no tempo de Jesus eram muitos,
mas existiam os fariseus e aquelas pessoas como a mulher no templo que
doa sua única moeda à Deus. Ou seja, a questão é mais profunda do que
dizer que a Igreja vai perder fiéis. A questão se encontra no discurso
da Igreja, em sua postura tridentina, enfim em suas verdades absolutas e
intocáveis. Considero que se Jesus pudesse participar ao vivo das nossas
comunidades, ou se fosse um teólogo da América Latina, da Ásia ou da
África seria acusado pelo novos fariseus e pelo Caifás de hoje que se
encontra presente dentro dessa estrutura.
A Igreja, não consegue apresentar ao mundo um projeto, como dizia nosso
irmão Pedro Casaldáliga, uma espiritualidade. Mas, também considero que
a Mídia quer fazer da Igreja uma des-organização total e incuti na
mentalidade das pessoas determinadas contradições que se apresentam
também como verdades. Por exemplo, não podemos querer que a Igreja
aceite o aborto e a eutanásia. Isso não seria vida em abundância, mas
também não podemos esquecer que a Igreja precisa aceitar e acolher as
mulheres, os homossexuais, os povos indígenas, os sem terras, as tribos
africanas, as religiões do Oriente, enfim precisa se abrir às culturas e
ao universo de vida em abundância que essas realidades apresentam.
Agora, não podemos ver as coisas com os olhos da Mídia capitalista. Por
isso, o problema não está em perder fiéis, é muito capitalista esta
análise, mas em procurar perceber que tipo de cristãos e cristãs podemos
ser. Se a Igreja aceitasse o sacerdócio da mulher, o celibato opcional,
a instituição de ministérios, outras pessoas também saíriam e se
perderia fiéis também. Não podemos afirmar que todos pensam e concordam
com estas mudanças.
Desculpe em estar me alongando, mas a discussão é pertinente e
frutífera. Quando Reginaldo fala que a Igreja perdeu sua importância eu
não vejo problema nisso. De fato, ela tinha... não sei... acho que
continua tendo uma importância política. Evidente que sofreu um refluxo
principalmente com a eleição de bispos sem nenhum compromisso com a
transformação da sociedade. Mas, todas as estruturas passam por isso, os
partidos sofrem deste mau. Em geral as instituições passam por momentos
de descrédito. As pessoas não acreditam mais. Mas se perguntarmos às
pessoas qual a instituição que ela mais confia, ela vai dizer que é a
Igreja. Isto é sinal de uma importância política. Talvez, o que
Reginaldo queria dizer e com toda a razão é que a Igreja não tenha mais
importância política na luta pelos direitos sociais e na construção da
cidadania o que considero precipitado, já que entendemos Igreja não
somente enquanto poder hierárquico. Considero que se deixássemos tudo
por conta dos senhores bispos a Igreja estaria um caos. Portanto, não
podemos dizer na marginalidade se encontram atores políticos com
importância para os pobres. O que dizer então do martírio de Irmã
Dorothy? Foi um suícidio. Não, ela incomodou setores. Por isso, a Igreja
tem sua importância sim, muitas vezes não aparentes, mas que se encontra
nas catacumbas de nossas comunidades.
A Igreja continua falando pelos pobres, não gosto muito desse termo
massa. A Igreja fala também às massas e apresenta um projeto político a
elas, é o caso da Renovação Carismática Católica que possui um
pensamento bem tucanista e pefelista. Isto também é falar as massas. Mas
também se fala aos pobres e temos exemplos disso: o CIMI, a CPT, o MEB,
a Comissão de Erradicação da Fome e da Miséria, de uma certa forma a
CNBB em determinados momentos. Profetas continuam a falar. Pedro não
deixou de ser bispo, Tomás está a frente da CPT, Dom Erwin em constante
adesão aos povos indígenas. E os missionários e missionárias que se
dedicam ao anúncio do Evangelho. Os irmãozinhos e irmãzinhas de Jesus,
os monges de Goiás do Mosteiro de nosso irmão Marcelo. Enfim,são sinais
de que a Igreja continua falando aos pobres e sendo pobres com eles.
Agora, se Reginaldo abordasse que a Igreja está formando um cartel de
homens sem nenhum compromisso com os pobres, isso é verdade. Onde já se
viu coisa mais absurda do que a manutenção de seminários lotados por
sinal na formação de padres, e diria mais, na formação de pequenos
burgueses.
Agora não sabemos se o novo Papa vai assumir este papel de continuísmo.
A história dirá. Considero precipitado afirmamos tal proposição.
Ratzinger é um homem inteligente, muito mais que João Paulo II, é
teólogo e foi cardeal. No entanto, enquanto papa resta-nos saber se
continuará atuando como cardeal da Cúria Romana ou agirá como Pastor e
como teólogo do Concílio? Sinceramente considero inviáveis as mudanças
tão necessárias, tão evangélicas para nossa Igreja. Resta-nos saber
também articular algumas alternativas.
Quis apenas partilhar um pouco do que penso e que não são verdades e com
certeza que estão em constante transformação pedagógica e dialética.
Fraternalmente,
do irmão que acredita na Esperança de novos tempos
Claudemiro Godoy do Nascimento
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