XVI Encontro das Famílias dos Padres Casados. 14/01/2006.
Lembrando alguns pontos do filme ‘Jesus’ da BBC
(Ed. Superinteressante)
Eduardo Hoornaert
1. Impostos e pobreza.
A vida de Jesus (cerca do ano 4 aC - antes de 36 dC)[1] transcorre no seio de um judaísmo em plena efervescência. Há três poderes rivais e mal integrados: o templo (cujo poder se estende por toda a Palestina através de dezoito mil sacerdotes para uma população de meio milhão de pessoas), o império romano (cujo representante na Palestina é Pilatos, que reside em Cesaréia) e a casa de Herodes (que colabora com o império romano). A população é forçada a pagar três impostos: o do templo, o do império e o da casa de Herodes. Esses impostos devoram as economias populares. Existe uma rede bem articulada de cobradores de impostos, e as penas para os infratores são terríveis. O imposto do templo serve basicamente para sustentar os sacerdotes e os escribas (que copiam com todo cuidado os textos da Lei de Moisés para as numerosas sinagogas na Palestina e na diáspora, fora do país). Quanto ao império romano, a população local tem de dar abrigo às tropas romanas que costumam passar pelo território em demanda de Cesaréia e Antioquia da Síria (a cidade com maior concentração de legiões em todo o império) e, eventualmente, carregar as bagagens do exército (‘quando o obrigam a andar um quilômetro, ande dois’). A casa de Herodes também pesa sobre as economias populares. Ela tem o apoio dos proprietários das férteis terras da Galiléia e faz imensas despesas em enormes construções (Massadá: um palácio em três níveis num enorme promontório à margem do Mar Morto; Cesaréia: um porto artificial; a reconstrução do imenso templo de Jerusalém, com profusão de mármore e madeira do Líbano). Os proprietários das terras da Galiléia moram em cidades modernas como Séforis (a 5 km de Nazaré) e Mágdala (onde se fala o grego), enquanto os sítios dos camponeses (que falam o aramaico) ficam abandonados pelo poder público. Jesus não visita as cidades modernas, ele anda pelos sítios dos camponeses e se impressiona com a pobreza.
2. Movimentos de revolta.
A insatisfação geral gera uma sucessão de movimentos de revolta em torno de lideranças. O líder é chamado, nos documentos da época, messias, profeta, rei (em sentido irônico) ou, simplesmente, bandido. Esses movimentos costumam articular-se no deserto da Judéia, longe dos centros habitados. Jesus não é o único inspirador de um movimento camponês na Palestina de seu tempo. O historiador americano Horsley elaborou uma tipologia de movimentos camponeses entre os anos 58 aC (início do reino de Júlio César) e o ano 138 dC (morte do imperador Adriano) e identificou os seguintes nomes de líderes de movimentos populares: Ezequias (cerca de 47-38 aC), Judas, filho de Ezequias (aprox. 4 aC), Simão (aprox. 4 aC), Antroges (aprox. 4-20 dC), João Batista (final da década de 20 dC), salteadores anônimos de cavernas na década de 30 dC, o chamado Samaritano (aprox. 26-36 dC), Eleazar ben Dinai (30-50 dC), Tomolau (início da década de 40 dC), Teudas (aprox. 45 dC), o chamado Egípcio (aprox. 56 dC), Jesus, filho de Safias (década de 60 dC), João de Gíscala (66 dC), Manaém, filho de Judas o Galileu (aprox. 66 dC), Jesus, filho de Ananias (62-69 dC), Simão Bar Giora (68-70 dC) e finalmente Bar Kokeba (132-135 dC)[2]. Jesus de Nazaré não consta da lista de Horsley.
3. Jesus provocativo.
O filme insiste no caráter deliberado da entrada ostensiva de Jesus, acompanhado de pessoas da Galiléia, no templo de Jerusalém, por ocasião da festa de Páscoa. Os galileus eram desprezados pelos funcionários do templo e Jesus encena uma entrada triunfal, segundo o ‘script’ elaborado pelos profetas. Segundo os profetas, o messias entraria pela Porta Oriental, sentado num burrinho. Efetivamente, Jesus entra pela Porta Oriental sentado num burrinho. Ele escolhe a Páscoa, época em que judeus da diáspora (do exterior) costumam visitar a cidade em grande número. É pois diante de uma multidão que Jesus entra, o que chama a atenção das autoridades do templo. Além disso, o procurador romano Pilatos costuma se deslocar de Cesaréia para Jerusalém na época da Páscoa, para controlar o serviço de segurança nesses dias de possível agitação popular. O caso suscita, finalmente, uma ‘alerta máxima’ no esquema de segurança do templo, no momento em que Jesus derruba as mesas dos cambistas no templo (o povo só podia fazer algum pagamento usando a moeda do templo). A provocação feita por Jesus contra o sistema do templo é muito bem apresentado no filme, e tem sólida base histórica e arqueológica.
Em conseqüência desses acontecimentos, a elite nacional templária, a casa de Herodes e os representantes do império romano identificam Jesus como um subversivo[3]. Ele é condenado à morte e o título significativo (e irônico), colocado sobre a cruz, indica o motivo da condenação: Rex Iudaeorum (Rei dos judeus, rei nacionalista, líder anti-romano). A crucifixão é uma tortura tão terrível e tão deprimente, seus efeitos sobre o movimento emergente são tão deletérios que nos primeiros anos tudo indica que o movimento é destinado ao fracasso, do mesmo modo que todos os demais movimentos subversivos da época. O destino seria um fracasso estrondoso, como o do movimento liderado por Simão Bar Giora na época da guerra judaica (67-70) ou de Bar Kokeba, entre 132 e 135, na desastrada campanha contra o poder do imperador Adriano, ou, eventualmente, o completo esquecimento, como o dos grupos formados em torno de profetas como Teudas (45) ou Jesus, filho de Ananias (62-69)[4].
4. A originalidade da proposta de Jesus.
O segredo da sobrevivência está na originalidade da proposta de Jesus. O tema merece um estudo mais aprofundado. No meu livro ‘O Movimento de Jesus’ (FTD, São Paulo, 1991), faço uma comparação entre o movimento de Jesus e as quatro outras propostas existentes na sociedade palestinense da época: saduceus, fariseus, zelotes e essênios.
[1] Herodes o Grande faleceu em 4 aC. Os evangelhos mencionam que Jesus nasceu no seu reino, portanto antes do ano 4 aC. O procurador romano Pilatos é transferido em 36 dC. Os evangelhos mencionam que Jesus foi crucificado durante a administração de Pilatos, portanto antes de 36 dC. Herodes o Grande e Pilatos são as duas únicas ‘âncoras históricas’ em que se enquadra com segurança a vida de Jesus.
[2] Horsley, R.A. e Hanson, J.S., Bandidos, Profetas e Messias: Movimentos populares no Tempo de Jesus, Paulus, São Paulo, 1995. (ed. americana:1985), 222-223.
[3] Para maiores detalhes, consulte J.D. Crossan, Excavating Jesus, Harper & Row, San Francisco, 2001, e R.E. Brown, The Death of the Messiah, Doubleday, New York, 1994.
[4] Ibidem, 223.