Ariana
Pereira
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Néia
Rosseto 13/2/2008
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Sérgio, Lucas e Rosane: casamento na igreja foi celebrado
após autorização da Santa Sé
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preconceitos e barreiras. Eles tiveram de optar entre dois
caminhos: de um lado as mulheres com quem vivem hoje; do outro, o grande
amor a quem fizeram votos de fidelidade e celibato - a Igreja Católica
Apostólica Romana. Atualmente, no Brasil, existem mais de quatro mil
padres casados. Não são ex-padres. Aliás, a maioria deles não admite ser
chamada assim. Uma vez padre, eternamente padre. "Se a gente parar de
conversar, chamar os funcionários e eu celebrar uma missa, ela é tão
válida quanto a de qualquer outro sacerdote da Igreja", diz o padre
casado Nilson Bueno, 46 anos, enquanto falava ao Diário na última
quinta-feira. O celibato é o estado de uma pessoa solteira, sexualmente
abstinente, que fez voto de castidade. Ele é exigido pela Igreja
Católica dos que querem ser padres e religiosos.
A reportagem entrou em contato com seis padres casados que moram na
diocese de Rio Preto. Deles, quatro falaram com o Diário. Um dos padres
casados ouvidos pela reportagem assegura que, apenas na cidade, são
sete. O bispado de Rio Preto afirma que não tem levantamento de quantos
padres se afastaram do ministério na diocese para se casar ou sacerdotes
casados que vieram de outros locais para morar na diocese. De acordo com
o bispo de Rio Preto, dom Paulo Mendes Peixoto, não há casos recentes de
pedidos de afastamento de padres em exercício. "Isso não significa que o
padre em uma circunstância até de desgosto na sua caminhada chegue a
desistir como muitos fizeram. Na diocese não vejo, no momento, nenhum
padre nessa situação de querer desistir", diz. Apesar de reconhecer os
esforços que a Igreja faz para evitar que um padre deixe o ministério,
dom Paulo acredita que ser sacerdote não exclui a pessoa desse risco.
"Ser ordenado não significa imunidade a uma cultura na qual tudo é
descartável."
Experiência celibatária de 17 anos
Para Sérgio Francisco Valle, 53 anos, o processo de abandonar a ordem à
qual pertencia e assumir o amor que sente pela jornalista Rosane da
Silva Almada Valle, 36 anos, ainda está recente na memória. Depois de 17
anos de sacerdócio, Valle precisou de apoio, compreensão e tempo para
tomar a decisão que mudaria a rotina que levava até então. "Entrei para
o seminário com 11 anos. Fui ordenado com 29, em Taubaté. Depois de
ordenado, envolvi-me com diversas iniciativas da ordem da qual fazia
parte. Nesse excesso de trabalho, a Rosane apareceu e começou a me
ouvir. Isso foi em 1996", lembra Valle. Os dois trabalhavam em um
veículo de comunicação da ordem à qual Valle pertencia. Rosane tentou se
afastar, esquecer o que sentia pelo padre, mas não houve meio de
escapar. "Não busquei isso, nunca tive a intenção de namorar, muito
menos, casar com um padre. Minha primeira reação foi tentar afastar essa
possibilidade, mas depois, decidi encarar com maturidade e
naturalidade", diz a jornalista Rosane.
Passaram-se dez anos até que o padre subisse ao altar não mais para
celebrar o matrimônio de outra pessoa, mas o seu próprio. Hoje, Lucas, 4
anos, é o filho do padre, o príncipe absoluto na igreja doméstica do
sacerdote casado. "Vivemos quatro anos de crises psicológicas, quando em
2000 decidi que abriria mão do ministério para ficar com ela. Tivemos
acompanhamento psicológico e de padres para enfrentar esse processo.
Consegui que o Vaticano me liberasse das funções", afirma Valle. Mesmo
afastado das funções de sacerdote católico, Valle participa ativamente
da vida da Igreja e conserva intacto o amor que tem por ela. "Não me
arrependo. Saí feliz com o meu sacerdócio. Tenho um grande amor pela
Igreja. Deixei o ministério, mas não abandonei o projeto do Reino de
Deus", avalia o padre casado.
Da família para os altares da diocese Sábado de manhã e a sede da paróquia Santo Expedito, em Rio Preto, está movimentada. No escritório paroquial, o padre José Antônio Daria conta com a ajuda da secretária para organizar a própria agenda e os compromissos da igreja. "Administrar uma paróquia é mais difícil do que uma família", diz, com conhecimento de causa. Ele é um dos poucos sacerdotes a ter o privilégio de batizar o próprio neto. O batizado foi no mês passado. Isso porque tornou-se padre depois de passar pela experiência de ter a própria família e criar os dois filhos ao lado da mulher dele. "Em 2001, minha mulher faleceu. Eu havia concluído o curso de teologia, aberto por dom Orani João Tempesta aos leigos. Fui ordenado o primeiro diácono permanente de Rio Preto, em 2003. Não tinha a intenção de ser padre", diz Daria. |
Na falta de um padre para a paróquia de Sebastianópolis do Sul, dom Orani enviou Daria, como diácono, para a cidade. "Faltava a mim a experiência de administrar uma paróquia. Depois de um tempo em Sebastianópolis perguntei a dom Orani se ele tinha intenção de me manter diácono ou se eu poderia pedir para ser ordenado padre." Pedido feito, pedido aceito. Em novembro de 2004, dom Orani ordenou o padre Daria. A última ordenação feita pelo bispo na diocese de Rio Preto. Antes de casar eu não tinha vontade de ser padre, nunca tinha passado pela minha cabeça. Mas meus filhos e minha família aceitaram muito bem a minha decisão", diz Daria. Para os altares, Daria carregou consigo a experiência de viver em família. Para ele, criar os filhos e viver com a mulher, com quem foi casado por 28 anos, ajuda na hora de exercer a função de pai de uma paróquia inteira. "Claro que administrar família e paróquia ao mesmo tempo seria muito difícil, mas padre é uma pessoa como qualquer outra. Não é super-homem. Sou suspeito para falar, mas acho que a Igreja pode pensar na possibilidade de tornar o celibato opcional." |
Deixar o ministério é dilema em novela A história de um padre dividido entre dois amores ganhou as telas da rede Globo, com a novela Desejo Proibido, exibida de segunda a sábado às 18 horas. Na trama, o padre Miguel (Murilo Rossa), enviado pela Igreja à pequena Passaperto para investigar uma misteriosa imagem da Virgem Maria, apaixona-se por Laura (Fernanda Vasconcelos). Por esse amor, o padre e a moça enfrentam preconceitos e as tramas do ex-noivo de Laura, Henrique, que não admite perder a companheira para Miguel. Para ficar com Laura, padre Miguel pede ao Vaticano autorização para desligar-se do ministério. Solicitação aceita pela Santa Sé que o libera para passar a vida ao lado de Laura. Antes de ser liberado, no entanto, o romance dos protagonistas causou problemas a padre Inácio, padrinho e confessor de Miguel. O padre correu o risco de ser transferido de Passaperto pelos transtornos causados pela história de amor do afilhado. |
Um batismo que mudou a história Com cara de bravo, como a de um legítimo padre linha dura, Nilson Bueno, 46 anos, recebe a equipe de reportagem do Diário. Ele deixou o ministério há quase 18 anos, depois de três em exercício em uma paróquia rio-pretense. Lílian Roberta Ferreira, 39 anos, exerceu na vida do sacerdote o mesmo papel que ele tinha na vida de paroquianos: disponibilidade para ouvir. "Meu pai foi a pessoa que mais me apoiou quando decidi entrar para o seminário. Durante toda a minha caminhada de formação, esteve ao meu lado. Depois que fui ordenado, ele morreu. Então surgiu a Lílian que me dava apoio, pois me sentia muito sozinho", diz Bueno. Abandonar o ministério, para Bueno, no entanto, não foi um processo longo e acompanhado como o de Valle. Ele e a atual mulher envolveram-se quando ainda estava na paróquia. Desse envolvimento, Lílian ficou grávida. Bueno viu-se dividido entre a Senhora Romana e a mulher e o filho que estava por vir. "Disse ao bispo, na época, que faria o que ele mandasse. Então, me transferiram para uma paróquia no Mato Grosso", lembra o padre casado. Lílian permaneceu em Rio Preto. Depois de alguns meses, a celebração de um batismo mudou o rumo da história. "Um dia, eu fazia um batizado e disse para o pai da criança que ele teria de assumi-la e ser responsável por ela ao longo de toda a vida. Era incoerente. Eu não estava fazendo isso por meu filho. Em novembro de 1990 informei ao bispo que deixaria o ministério", lembra Bueno. O padre casado, no entanto, não pediu dispensa ao Vaticano. Bueno acredita que um dia a Igreja o aceitará de volta como sacerdote. "Eu tinha de dizer ao Vaticano que me ordenei sem consciência para ter a dispensa. Eu sabia o que queria quando decidi pelo sacerdócio, fiz uma escolha. Se a Igreja quiser determinar para mim qualquer trabalho, eu vou. Acredito que ela vai evoluir nesse sentido, tanto que não pedi a dispensa." |
O amor de padre pela comunidade Wilso Parochi, 37 anos, deixou o ministério sacerdotal, mas não quis abrir mão do contato com o povo. Hoje, mais de sete anos depois de abandonar a paróquia pela qual era responsável, em Neves Paulista, Parochi deixou os altares e ocupa uma sala no prédio da administração pública: é vice-prefeito. Envolver-se com trabalhos na diocese de Bragança Paulista e acompanhar o despertar da vocação da irmã dele, que se tornou religiosa, fez com que Parochi ingressasse no seminário aos 18 anos. "Depois de passar alguns anos no seminário da diocese, optei por uma comunidade. Depois da ordenação, entrei em contato com dom Orani João Tempesta, na época bispo de Rio Preto. Precisavam de um padre para Neves Paulista", conta Parochi. O padre que esteve à frente de Neves Paulista antes de Parochi havia deixado o ministério para se casar. "Iniciamos uma série de atividades com os paroquianos", diz. Uma das paroquianas se tornaria a mulher dele, Márcia Regina Cossini, 30 anos. "Não foi premeditado. Quando percebi, tentei me afastar. E rezava muito porque sabia que não era aceito pela Igreja", afirma. A experiência de deixar a comunidade para assumir a família foi dolorosa, segundo Parochi. "Tanto eu, quanto o povo sofremos. Eu os amava, como amo ainda, e eles me amavam também. Mas dom Orani dizia que quando o padre trata o povo com amor há recíproca. Por isso, sofremos quando tomamos a decisão, mas o amor do povo nos fez ficar na cidade". Decisão difícil, segundo Márcia. "No começo sempre tinha um ou outro que nos tratava mal. Penso que um passo como esse em uma cidade maior é mais fácil." Apesar das dificuldades, o casal, com o filho Gabriel, que tem sete anos, continua freqüentando a Igreja. "Não com a mesma doação de antes, pois trabalho e tive de recomeçar a vida do zero. Não guardo raiva e nem mágoa, pelo contrário." O padre casado ainda não pediu dispensa ao Vaticano, mas pretende fazer isso em breve. "Queremos casar na Igreja. Temos esse desejo." |
Vocação dedicada aos mais pobres No início da entrevista, uma senhora interrompe para pedir instruções a Antônio Arnaldo Gomes, 51 anos. Ele deixou o ministério sacerdotal há 20 anos, mas, enquanto conversava com aquela mulher, deixou transparecer os sinais que ainda carrega consigo do tempo que se dedicou aos mais pobres em nome da Igreja. No dedo anular esquerdo, o anel de tucum revela a opção preferencial pelo mais pobre. A atenção total ao problema que ela apresentava lembra a de um padre dedicado a um paroquiano em confissão. "Quando decidi ser padre, via no sacerdócio uma maneira de colocar-me a serviço da classe menos favorecida. Participava de um grupo de jovens, tinha um sonho, identificava-me com o povo, sentia nele a presença de Deus", afirma o padre casado, que durante seis anos atendeu comunidades carentes na região do Pontal do Paranapanema, na diocese de Presidente Prudente. Não foi o amor de uma mulher o fato decisivo que tirou Gomes do ministério. O conjunto de discordâncias com a hierarquia da Igreja e a rejeição ao celibato culminaram com a saída da vida de padre. "Havia um conflito interno muito grande. Sofri muito porque estava deixando algo que amava. Envolver-me com alguém foi apenas conseqüência de uma série de situações. Se estivesse realizado interiormente nada me demoveria. Quem está completo não precisa buscar mais nada." Seis anos após a ordenação, Gomes deixou o sacerdócio e buscou o que faltava: uma amiga do grupo de jovens tornou-se a mulher dele. "Enquanto padre, vivia uma situação de solidão, um vazio interior. Sentia que aquela pessoa iria me completar. Para continuar sendo você, é necessário estar com a pessoa certa", diz o padre casado que hoje tem duas filhas. Ao sair da Igreja, Gomes não pediu dispensa ao Vaticano. "Não tenho que pedir nada ao Vaticano." Mas também não pensa na possibilidade de retomar o sacerdócio um dia. "Já me envolvi tanto com outras formas de atuar que acho que não voltaria. Sou professor e isso para mim tem significado. Ser professor é exercer o meu sacerdócio." |
'Celibato não se sustenta por 20 anos' Alguns dos padres casados não abririam mão do ministério se a Igreja os aceitasse com as famílias. "Ordenar homens casados ou recuperar os sacerdotes que se casaram. Eu acredito que isso traria mais humanização. Muitos padres permanecem sozinhos e são apenas funcionários do sagrado", diz Sérgio Francisco Valle. O celibato, no entanto, é uma escolha bela, na opinião de alguns padres casados. "Em uma sociedade sexualizada, o celibato tem grande valor", diz Valle. "É uma coisa boa, desde que a pessoa esteja preparada", concorda Nilson Bueno. Na opinião de Wilso Parochi, é um caminho que Deus propõe. "É uma via linda. Eu tentei. Rezo pelos que vivem porque é um desafio."Para Antônio Arnaldo Gomes, no entanto, ou a Igreja repensa a questão, ou os sofrimentos com escândalos sexuais serão maiores. "O celibato não faz mais sentido. Traz mais problemas que soluções. Para vivê-lo, é necessário ser herói." O presidente da Associação Rumos, que congrega padres casados do Brasil, Félix Batista Filho, concorda com Gomes. "A Igreja diz que o celibato pressupõe mais doação. Conheço casados que têm mais dedicação do que muitos padres." Batista Filho não tem esperança de ver a Igreja readmitir os sacerdotes casados. "Eu sei que vai acontecer. Se eu vou ver, não sei. Mas penso que o celibato não se sustenta por mais 20 anos." O celibato obrigatório é uma lei da Igreja. Antes do Concílio (reunião entre bispos para decidir rumos para a Igreja) de Trento, em 1563, era imposto apenas a padres de algumas regiões da Europa. Até então, os padres seculares, o que equivaleria aos padres diocesanos, podiam casar-se. A alta procura dos fiéis pelos sacerdotes celibatários teria feito com que a Igreja resolvesse ampliá-lo e torná-lo obrigatório. Na Igreja do Oriente, no entanto, a nova regra não foi incorporada. Nesse caso, o celibato é imposto apenas àqueles que são sagrados bispos. Outro fator que teria contribuído para a imposição do celibato seriam as posses da Igreja na Idade Média. Sem família, os padres não teriam de deixar herança aos filhos, impossibilitando a divisão dos bens eclesiásticos. "A paróquia teria de assumir o padre e a família. A Igreja ainda está convencida de que o celibato é a melhor opção, mas isso não significa que ele deixe de ser obrigatório um dia", afirma o bispo da Diocese de Rio Preto, dom Paulo Mendes Peixoto. Os rumos traçados pela persistência O Vaticano não dá mostras de que pretende discutir o celibato obrigatório. O assunto foi inserido pelo Brasil em documento preparatótio para o 5º Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), realizado em maio de 2007, em Aparecida. Não foi discutido durante o Celam e excluído do documento final. Para a associação de padres casados, a Rumos, isso não é motivo para desanimar. Armando e Altiva Holocheski são desses que permanecem fiéis ao dito popular: "água mole em pedra dura...". Ele, padre, e ela, mulher do padre. Casados há 32 anos, participam desde quarta-feira do 12º Encontro Nacional de Presbíteros, em Itaici (SP). O cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero no Vaticano, está presente no evento que se encerra terça-feira e tem participação de 450 padres de todo o País. "Perguntamos a dom Cláudio sobre a questão dos padres casados. Ele nos disse que, por enquanto, a Igreja não quer discuti-la. Mas não quer dizer que não há possibilidade de discutir um dia. A busca de um trabalho para o padre casado na Igreja não morreu", conta Holocheski, que é ex-presidente da Rumos. Se a união é elemento decisivo na luta por uma causa, a Rumos não abre mão dessa ferramenta. "As mudanças na Igreja começam por baixo. O que é pertinente ela assume. O que não é, perde-se no tempo. Oficialmente não temos apoio, mas nos reunimos para discutir e apontar possíveis rumos para a reintegração dos padres casados à instituição." A persistência existe, ainda que o caminhar pareça solitário e a esmo. "A hierarquia ignora nosso movimento, mas procuramos manter diálogo. Temos a esperança que diante da necessidade do povo a Igreja se abrirá a novos ministérios", afirma o atual presidente da Rumos, Félix Batista Filho, padre casado há 20 anos. A proposta dos padres casados, congregados pela Rumos, seria a implantação de um novo ministério e não o fim do celibato. "O que se tem abordado é a diversificação. Na preparação do 5º Celam falou-se sobre isso junto à ordenação feminina. A definição de um ministério para padres casados e ordenação de casados, tanto homens quanto mulheres. A Igreja tem uma dívida de gratidão com as mulheres. Você foi catequizada por quem?", inverte os papéis e pergunta o padre da Rumos. |