----- Original Message -----
From: José Vicente de Andrade
To: PADRES CASADOS GRUPO PCS
Cc: Mario Palumbo
Sent: Saturday, December 24, 2005 1:21 AM
Subject: Padres Casados diante diante do presépio.l

 


                                          Noite de silêncio...Noite de Natal!
 
      Para muitos dos padres casados esta noite é de lembranças, é noite de expectativas, é noite de partilha da vida, do pão, do amor e da fé em família, no recôndito de seus lares.
     Uns se sentem deprimidos pela saudade e pelo  desejo de estarem interagindo em templos cheios de fiéis, em festivas  celebrações rituais. Outros, satisfeitos e realizados em serem pais de família, sem pesos de temores e sem pressões de leis humanas, celebram a Eucaristia com seus familiares, amigos, vizinhos e convidados. 
      Celebrar a  misericórdia missionária de Deus e a base familiar mostrada ao mundo na manjedoura de Belém. É evento que não traduz rebeldia, nem causa  desconfianças e rupturas.  Talvez possa causar estranheza hipócrita; suscitar interrogações, jamais, porém, escândalos, desconfianças ou cismas.
       Quem celebra "pro domo sua", não o faz por rebeldia, mas para responder  aos naturais processos de realização desejos lícitos, de execução de missão recebida   em sua ordenação e, também,  por conveniência de  tentar, em espírito de paz e fraternidade, a retomada de sua devoção maior de confeccionar a Eucaristia , ato que lhe é impedido pela lei, mas não pela essência do chamado.
      
      Sou de opinião que nenhum padre casado deve brigar com a Igreja, pois ela é figuração de Cristo; nem associar-se a comunidades de outras vertentes para exercerem profissionalmente a partilha da Palavra, do Perdão e do Pão, participando de poder episcopal talvez suspeito ou duvidoso.
       O que hoje se considera episcopado surgiu em etapas distintas do  gradual desenvolvimento da Igreja. Em verdade,  a partilha verdadeira, mística e sacramentada já se encontrava reconhecida na base da qual as comunidades extraíram alguns "valores de fé" que se organizaram, com racionalidade, nos segmentos de ministérios ordenados e outros serviços que ainda hoje passam por alterações, segundo necessidades funcionais e conveniência de episcopados.
       Neste Natal oremos e procuremos compreender os motivos que induzem ou seduzem colegas a se dirigirem a outras agremiações para exercerem de público o presbiterato. Temos que ser humanos e respeitar a liberdade pessoal de companheiros bem formados, piedosos e até idosos. Eles devem estar sofrendo muito, pois o passado é a única realidade que ninguém pode mudar, mesmo que ele gere angústias e melancolia e que se sustente mais em desejos nostálgicos do que em expectativas de realizações.
     
Para  ajudar-nos a refletir e dialogar sobre o fato natalino da vida dos que se encontram em perplexidade e necessitados de luzes, proponho esta reflexão  do pregador da Casa Pontifícia, Raniero Cantalamessa, OFM, um dos poucos teólogos, sensíveis e sábios, que falam de Deus sem se enroscar nas teorias que grandes mestres desenvolveram sobre Deus, mas que a ninguém movem  a chegar até Ele e entrar em Seu coração.
      Feliz Natal. José Vicente de Andrade - Belo Horizonte


"O Evangelho da segunda Missa de Natal, chamada «da aurora», mostra-nos com os pastores e com Maria qual deve ser nossa resposta e nossa atitude ante o nascimento de Cristo. Os pastores personificam a resposta de fé ante o anúncio do mistério. Deixam «sem demora» seu rebanho, interrompem seu descanso; tudo passa a ser um segundo plano frente ao convite de Deus; Maria personifica a atitude contemplativa e profunda de quem, em silêncio, contempla e adora o mistério: «Maria, por sua parte, guardava todas estas coisas, e as meditava em seu coração».

Existem verdades e acontecimentos que se podem acolher melhor com o canto que com as palavras, e um deles é precisamente o Natal. O canto natalino mais popular na Itália é Tu scendi dalle stelle (Descendo das estrelas. Ndr), composto por Santo Alfonso Maria de Ligório. O Natal aparece-nos nele como a festa do amor que se faz pobre por nós. O rei do céu nasce «em uma gruta no frio e no gelo»; ao criador do mundo «faltam panos e fogo». Esta pobreza comove-nos, sabendo que «te fez amor mais pobre», que foi o amor o que fez pobre o Filho de Deus. Com palavras simples, quase infantis se expressa o significado do Natal que o apóstolo Paulo encerrava nas palavras: «Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo rico, por vós fez-se pobre a fim de que vos enriquecêsseis com sua pobreza» (2 Co 8,9).

Há infinitas formas de pobreza que, ao menos uma vez ao ano, vale a pena recordar, para não ficarmos sempre na pobreza dos bens materiais. Existe a pobreza de afetos, a pobreza de educação, a pobreza de quem foi privado do que lhe era mais querido no mundo, a pobreza da esposa rejeitada pelo marido ou do marido rejeitado pela esposa; a pobreza dos esposos que não puderam ter filhos, de quem deve depender fisicamente de outros. A pobreza de esperança, de alegria. Finalmente a pior pobreza de todas, que é a pobreza de Deus.

Existem pobrezas, próprias e alheias, contra as quais há que lutar com todas as forças, porque são pobrezas más, desumanizadoras, não queridas por Deus, fruto da injustiça dos homens, mas há muitas formas de pobreza que não dependem de nós. Com estas últimas devemos reconciliar-nos, não deixar-nos abalar por elas, mas levá-las com dignidade. Jesus Cristo elegeu a pobreza; há nela um valor e uma esperança.

Outro canto natalino, o mais amado em todo o mundo, é Sille Nacht, Noite silenciosa (popularmente entoado também como «Noite de Paz», Ndr). O texto original diz: «Noite de silêncio, noite santa! / Tudo cala, só velam / Os dois esposos santos e piedosos. / Doce e querido Menino / Dorme nesta paz celeste». A mensagem deste canto não está nas idéias que comunica (quase ausentes), mas na atmosfera que cria: uma atmosfera de estupor, de calma e de silêncio, e nós temos uma necessidade vital de silêncio. «A humanidade, disse Kierkegaard, está enferma de estrondo». O Natal poderá ser para alguns a ocasião de redescobrir a beleza de momentos de silêncio, de calma, de diálogo consigo mesmo ou com as pessoas. Um texto da liturgia natalina, procedente do livro da Sabedoria (18, 14-15), diz: «Quando um sossegado silêncio tudo o envolvia, tua Palavra onipotente, oh Senhor, saltou do céu, desde o trono real», e Santo Inácio de Antioquia chama Jesus Cristo de «a Palavra saída do silêncio» (Magn. 8, 2). Também hoje, a palavra de Deus descende ali onde encontra um pouco de silêncio.

Maria é o modelo insuperável deste silêncio adorador. Nota-se uma diferença entre sua atitude e a dos pastores. Os pastores põem-se em caminho dizendo: «Vamos até Belém e vejamos o que aconteceu», e voltam glorificando a Deus e relatando a todos aquilo que haviam visto e ouvido. Maria cala. Ela «não tem palavras». Seu silêncio não é um simples calar; é maravilha, estupor, adoração, é um «silêncio religioso», um estar dominado pela grandeza da realidade.

Concluo com uma bela lenda natalina que resume toda a mensagem que recolhemos dos dois cantos natalinos: pobreza e silêncio. Entre os pastores que foram na noite de Natal para adorar o Menino havia um tão pobrezinho que não tinha nada que oferecer e se envergonhava muito. Chegados à gruta, todos rivalizavam para oferecer seus presentes. Maria não sabia como fazer para receber todos, ao ter nos braços ao Menino. Então, vendo o pastorzinho com as mãos livres, confiou-lhe por um momento Jesus. Ter as mãos vazias foi sua sorte. É a sorte mais bela que poderia suceder também a nós. Deixar-nos encontrar neste Natal com o coração tão pobre, tão vazio e silencioso que Maria, ao ver-nos possa confiar-nos também seu Menino." [Extraído da Zenit
 
 

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From: João Tavares
To: José Vicente de Andrade ; Padres Casados - EGrupo
Cc: Mario Palumbo
Sent: Saturday, December 24, 2005 2:35 PM
Subject: Resposta a José Vicente: Padres Casados diante diante do presépio.l

 
PADRES CASADOS DIANTE DO PRESÉPIO
 
Meu caro José Vicente,
 
Gostei da tua bela meditação em voz alta para esta noite de Natal em que, quem puder, faria bem em encontrar um lugar e um tempo para um meditação silenciosa sobre o augusto mistério que se celebra.
Achei muito linda a afirmação do Pregador da Casa Pontifícia:
 - O Natal poderá ser para alguns a ocasião de redescobrir a beleza de momentos de silêncio, de calma, de diálogo consigo mesmo ou com as pessoas. Um texto da liturgia natalina, procedente do livro da Sabedoria (18, 14-15), diz: «Quando um sossegado silêncio tudo o envolvia, tua Palavra onipotente, oh Senhor, saltou do céu, desde o trono real».
 
Mas não posso concordar contigo sobre a opinião que emites acerca dos Padres casados que, por vários motivos, procuram outras denominações cristãs para exercerem seu Sacerdócio de forma integral.
Desde, naturalmente, que o façam com critérios sólidos e com maturidade humana e cristã.
Está havendo, de há uns três anos para cá, uma reflexão séria e, mais antigas,  algumas tentativas concretas de opção pelo ministério sacerdotal pleno em outras denominações cristãs, com sucessão apostólica.
Não podemos ignorar ou, pior, tentar suprimir essa pequena e titubeante vida que se manifesta. Seria a contradição e a negação do NATAL!
 
Sei que vossa experiência de MPC em Belo Horizonte tem sido muito positiva, mas também sabemos que, em muitos lugares do Brasil, tem sido bem diferente
Tu sabes, pois já tiveste a oportunidade de o conferir em Belo Horizonte, com que firmeza eu me opus a um certo grupo que estava usando o nome do MPC e o Jornal RUMOS  para, leviana e autocraticamente, atacar o Vaticano e o Episcopado Brasileiro por qualquer assunto pequeno.
Mesmo advogando firmemente nossa independência em relação a eles, não sou a favor de brigas fáceis com os Bispos e com a Igreja institucional.
Pelo contrário, tanto escrevendo em Rumos, como nos debates havidos nos Encontros Nacionais do MPC, sempre fui a favor de um diálogo aberto do MPC com cada Bispo do Brasil e mesmo com a CNBB nacional e local, de cada estado ou região.
No Maranhão, em 2002, pouco antes do XIV Encontro Nacional do MPC, tentamos levar isso à prática, num encontro da Diretoria Nacional com todos os Bispos do Estado, onde, num clima de respeito recíproco e de grande abertura, pudemos manifestar a eles toda a nossa preocupação com os rumos da educação e formação dos seminaristas (talvez, diante dos fatos recentes, seria mais correto falar de falta de educação e de formação integral válida, séria e sólida)
 
Apesar disso, José Vicente, tu sabes que, salvo raras exceções, temos assistido no Brasil, no Vaticano e no mundo, à determinação oficial e/ou oficiosa, ora explícita, ora  implícita, de nos ignorarem por completo, pior de nos reduzirem a algo menos do que cristãos comuns.
Se Roma é eterna, nós não somos. Se ela é estática, muitos de nós somos dinâmicos. Se ela volta para Trento, muitos de nós gostaríamos de ver realizados e implementados a letra e o espírito do Vaticano II, sem hermenêuticas esvaziadoras de 40 anos depois.
Por outro lado, o MPC como um todo, tem falado muito, mas não tem concretizado praticamente nada.
 
Por isso acho que está na hora de quem,  em consciência, se sentir chamado a um ministério sacerdotal mais pleno, seguir  seu caminho e, com discernimento e coragem, procurar seu espaço, fazer suas escolhas, disposto, naturalmente, a pagar o seu preço.
Dentro, preferivelmente, ou fora, se dentro não houver possibilidade: o Reino é bem mais amplo do que os limites da Igreja que se chama "católica", mas que, como Sharon e Bush, se está cercando de altos muros orgulhosos e excludentes. Que saudades de João XXIII.... 
Posso até não estar de acordo com esta ou aquela opção concreta, notar, nos que querem arriscar, maior ou menor profundidade e clareza de atitudes e posições, mas penso que devemos respeitar as opções de cada um.
 
O diálogo é um caminho de mão dupla. E se, depois de tantas tentativas, a Hierarquia resolve insistir em nos ignorar e continua a fazer de conta que nós não existimos, pois que cada um siga o caminho que sua consciência e o Espírito Santo lhe indicar.
 
Sou super-zeloso pela Unidade do Rebanho de Cristo, mas não a qualquer preço. E, como aprendi em Gálatas e Romanos, sei que Deus nos fez para a LIBERDADE (responsável, naturalmente), não para a LEI.
José, não vamos amordaçar o Espírito... que sopra onde e quando quer... e que, com certeza não é monopólio do Vaticano e das conferências episcopais sempre mais reduzidas ao silêncio obsequioso que o Vaticano, desde há quase trinta anos lhes vem impondo.
 
Um abraço e, mais uma vez, FELIZ NATAL e BOM ANO NOVO
 
João Tavares
 

 
From: Mario Palumbo
To: José Vicente de Andrade
Sent: Saturday, December 24, 2005 6:37 AM
Subject: Re: Padres Casados diante diante do presépio.l

 
Parabens, José Vicente, penso em plena sintonia com vc. Logo que puder, seu texto irá ao ar!
Ontem estava sozinho a cantar "Tu scendi dalle stelle de Santo Afonso, meu conterraneo de Napoli. O encontro pessoal traz o calor humano. Não podendo ir em Salvador  a internet nos une no dialogo e no coração. Um pensamento, também de Cantalamessa, que vc deve ter lido, e que foi dirigido ao Papa no retiro, foi o seguinte:" Nós somos pastores, acostumados a mandar em ovelhas ( recebemos igrejas cheias e especialmente, hoje, muitas vezes, maltratamds o rebaho recebido...) devemos ser pescadores, procurar, pegar peixes..." O pregador do Papa disse-lhe mais ou menos isto. Creio que é mais um ponto de reflexão para os padres casados. Frente a tantos padrecos novos que judiam do rebanho com autoritarismo, narcisismo, etc, etc, nós temos a missão de ser de exemplo do que significa ser padres. De outro lado há muita manções na casa do Pai e todas as esperiências, na mão do Senhor da História, voltam-se para o bem do Reino. Veja o próprio Lutero. Creio que a missão do nosso MPC é mui importante e dificil, pois deve abrigar  várias tendências, como uma boa mãe, sem destruir nenhuma. Não podemos repetir os erros do clericalismo, tão enraizado em nós, temos que sair, para o novo e cada qual, sem forçar as situações, fazer o que os sinais do Espírito lhe sugerir, como aconteceu no caso de Vitória. Abrir salões para celebrações? Pode ser válido ou não! Tudo depende! Todas a tendencias filosoficas ou teológicas podem ser boas, mas nem sempre se encontram na Palavra! Lógico que a sucessão apostólica, o carater e... são dados importantes na teológia, mas quantos bem não fazem muitos pastores, não estão conosco, mas não são contra nós e fazem até milagres em nome do Senhor.Como me escreveu Casaldáliga,riferindo-se ao oratlabora: " Nosso trabalho pode ser tido <marginal> pela instituição, mas certamente, frutuoso para o Reino."   "Cras egrediemini et Dominus erit vobiscum! A orientação de Paulo Apostolo na escolha dos presbíteros e fechamento de Seminários, se faz cada dia mais urgente e é expantoso como muitos católicos a desconhecem, também, pudera, na liturgia domenical aparece? "Um abraço, mario