Maranatha,                         

o mantra da Meditação Cristã

 

  É a palavra chave da Bíblia e da Meditação Cristã. É a mantra, a palavra-oração que John Main aconselha para ser adotada para o meditante cristão. Para ele a arte, a essência da meditação consistem em aprender a recitar, repetir esta palavra durante a meditação.

Para John Main, o desafio da meditação consiste em suportar a disciplina de repetir a palavra e continuar a dizê-la enquanto quem medita aprende a ser paciente, a esperar e aprende que o caminho a ser seguido nos leva ao nosso centro.

A repetição da mantra é a técnica necessária para aquietar a mente, conduzir a pessoa a habitar consigo mesmo e abraçar o mundo com olhar compassivo.

Marantha não é apenas uma palavra a serviço de uma técnica para efeitos terapêuticos como aumentar o poder da atenção, da concentração e da admiração, ou  para aquisição de calma, equilíbrio e domínio de si mesmo. Ela tem um significado muito mais profundo, espiritual,  e  místico.

Maranatha é do idioma aramaico usado por Jesus. É uma das orações mais antigas dos cristãos.  Significa: “Vem Senhor!”

Maranatha aparece só duas vezes no Livro Sagrado. Encerra a primeira carta aos Corinthios  e a Apocalipse. Seu significado permeia todo Antigo e Novo Testamento.

Muitas vezes  o leitor se escandaliza ao ler acontecimentos  funestos e torpes narrados pelos autores sagrados, que até colocam como o autor o próprio Javé. É o mistério da iniqüidade que perturba a mente humana e com toda a força cósmica grita para  justiça e paz: “ Vem Senhor.”

Toda a caminhada de Jesus para estabelecer o Reino tem uma única finalidade: preparar a vinda do Senhor.

 Maranatha: Vem Senhor, não com a morte, mas com a vida! Vem Senhor, no presente com a plena realização da vida,  aqui e agora. É o desejo da humanidade constituir uma sociedade, “onde não entra nada de impuro e não se pratique a mentira”.(Ap)

Maranata é a melodia que envolve  toda a obra da criação que acontece a cada momento, é o refrão de toda a sinfonia do universo, o anseio de todo coração humano. É a expectativa do cosmo que padece as “dores do parto” até a realização da Vinda que vem em um crescendo infinito! A pessoa humana se encontra sem defesa como

a mulher que acaba de dar a luz uma criança contra o apocalíptico dragão que quer lhe roubar o filho. È a situação também de toda a humanidade. Só podemos apelar para o socorro divino: maranatha! E o socorro não tarda para chegar e vem em forma de noiva, de cidade (sociedade) perfeita. “Jerusalém, é a noiva, a cidade santa. Ela desce do céu, de junto de Deus, com a gloria de Deus.Nesta Cidade não há Templo pois o seu Templo é o Senhor, o Deus todo poderoso, e o Cordeiro. A Cidade não precisa de sol nem da lua para ficar iluminada, pois a gloria de Deus a ilumina e sua lâmpada é  o Cordeiro: o próprio Cristo.

As nações caminharão à sua luz” ( Ap 21). O meditante fica imóvel, de olhos fechados

a repetir lenta e suavemente a mantra. MA-RA-NA-THA. Sem esforço, sem perceber desacelera a respiração, vai fazendo o vazio do raciocínio, da imaginação e dos sentimentos. O vazio é o sim da criatura, da serva Maria. Ele proporciona a Vinda, a Encarnação! Na quietude da fé, vem a bem-aventurada esperança.

 No vazio de si, o orante, na meditação, encontra a sua verdadeira identidade: Deus!

A cada inspiração um novo Sopro do Espírito vivificante infunde vida, renova a face da terra e expande o Reino no íntimo de cada um e na nova Sociedade-Jerusalém.

 

Na Nova Jerusalém, “Deus faz do coração do homem a tenda de sua morada.” Uma multidão imensa que ninguém pode contar, tem vida em abundância. Nesta cidade nova, cada qual é tratado come se fosse único. É admitido a comer com o Mestre e recebe uma pedra com seu nome esculpido. Nome este que é mantido em segredo: só Deus e ele o conhecem. São coisas da intimidade do amor. Quando um amante da um nome particular à sua amada, este nome fica de exclusividade dos dois.

No templo do coração o Espírito de Cristo vive a interceder por nós. Ai murmura a sua incessante oração ao Pai. O silencio do cristão, ou de qualquer orante, é a oração de Cristo na tenda do coração do homem.  “O Espírito e a noiva dizem: Vem e o dizem com gemidos inefáveis.”

É a nova Criação em cada pessoa em cada momento histórico de cada pessoa com cada irnão, pois Deus é tudo em todos.

Na repetição lenta e suave do ma-ra-na-tha há a fé de quem nada vê, mas se abandona nos braços do Pai. Há a esperança (beatam spem) de quem, na noite obscura, espera pela aurora. Há o gemido do puro amor. E aqui deixamos a palavra ao Romano Guardini, na pagina 538 de “O Senhor”-Agir Editora:

 

 

 

“O ESPÍRITO E A NOIVA.

 

            Há um movimento maravilhoso na imagem: “Vi a santa cidade de Jerusalém, descendo do céu da parte de Deus” (Apoc,21,10). Ela “desce do céu da parte de Deus”. Não há um abaixamento do que é nobre para o que é mesquinho, mas uma descida como aquelas que se querem significar ao dizer-se, por exemplo: os raios do sol nascente descem da montanha – ou: o rei desce os degraus do seu trono. É a condescendência da majestade, da amabilidade, da gentileza, no gênero da que apresenta o pintor apocalíptico Matthias Grünewald quando, no retábulo de Isenheim, faz jorrar do alto do céu, sobre Nossa Senhora sentada, luz e anjos: plenitude infinita e torrencial de benção e de beleza.

                        A imagem torna-se depois indizível: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu noivo” (21,2). O esplendor torna-se aqui amor. A inteira criação dirige-se numa abençoada disponibilidade para Cristo. O novo Testamento fala raramente destas coisas íntimas. Encontramos em S. Paulo algumas alusões; e também, se repararmos bem, em S. Paulo – é tudo. Esta palavra é a mais explícita. No fim do Apocalipse diz-se: “O Espírito e a noiva dizem “Vem!. Uma palavra de anseio infinito. O Espírito profere-a, e a noiva. A noiva é a criação, que fora regenerada por esse começo no amor e que agora desperta para o amor. Mas é  a partir do Espírito que ela ama. É o Espírito que opera a transformação, a intimidade e a abertura. Falamos aqui na terra do “interior” da alma, da sensibilidade, do coração, e do “exterior” das coisas, dos acontecimentos, do espaço do mundo. Esta diferença será reabsorvida numa nova unidade. O corpo não será simplesmente exterior e alma interior, mas a alma manifestar-se-á no exterior e o corpo tornar-se-á interior. Por isso, as coisas, as árvores, os animais, as estrelas, o mundo, não se apresentarão apenas no exterior mas num espaço do coração que, sem confundir Deus e a criatura, tudo unificará, de um modo que nos é ainda velado. Podemos um dia pensar esta unidade com a “Razão de Cristo”, da qual participaremos segundo a palavra do apóstolo. O coração do homem-Deus será o espaço para que tudo refluirá. Essa interioridade, que outrora viveu numa grande solidão, que foi repelida por todos, a “abandonada” mesmo pelo Pai – então ela vencerá. Tudo o que é será nela. Mas esta interioridade penetrará tudo e manifestar-se-á. Tudo será aberto. Luz. Não haverá mais interior e exterior, e apenas actualidade. Isso, a actualidade do amor, o amor como o estado da Criação, a identidade da interioridade e da abertura: é isso o Céu.

                        Cristo opera tudo isso. A última forma pela qual Se revela no Apocalipse é esta: Aquele a quem tudo é noiva. D’Ele irrompe para cada um  começo. D’Ele provém o Espírito de Renovo. D’Ele acontece a transmutação. Para Ele se dirige o movimento de amor da Criação, ornada como a noiva que vai ao encontro do esposo.

                        Quando a série das faces de Cristo terminou, quando Ele Se manifestou como Aquele que anda entre os candeeiros; como Aquele que está sentado no trono; como o Cordeiro na montanha, rodeado pela multidão; como o grande Sinal no céu e o Cavaleiro do corcel branco – depois de toda esta superabundância de imagens, retorna então à simples interioridade daquele nome que uma vez Lhe foi dado na terra:

“Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos atestar coisas a favor das igrejas...”

                        “O que atesta estas coisas diz: “Certamente que venho depressa!”

                        “Ámen, vem, Senhor Jesus!”

MA - RA - NA - THA