ESCUTA ECUMÊNICA E INTER-RELIGIOSA           A igreja nada rejeita

A VERDADE ULTIMA*                                                    do que há de verdadeiro e santo

                                                                                              em outras religiões      

                                                                       Declaração Nostra Aetate, Concilio Vaticano II

 

Bede Griffiths**

 

Qual então a necessidade essencial de nossa época? Recuperar este sentido de uma realidade transcendente, de uma verdade última. Ciência e tecnologia não vão nos ajudar muito nisso. Quanto mais exploramos o universo físico e estendemos nosso controle sobre ele, tanto mais nos afastamos do Centro em que se conhece essa verdade.

            As ciências sociais também não ajudam: só estudam também os fenômenos externos e nunca chegam à raiz da personalidade humana, nunca respondem à pergunta – o que é o homem? Assim, o caminho da Verdade não é de progresso constante no conhecimento da verdade, mas só um movimento continuo de retorno, de metanóia (transformação espiritual). Só pode haver um esforço constante de volta à Fronte e à Origem, do que os chineses chamam de “bloco não esculpido”.

            “Se não mudardes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus.” (Mt, 18,3)

            Humildade, simplicidade, pureza de coração constituem as virtudes que levam ao caminho da Verdade, ao Centro do Uno. E quando esse conhecimento é alcançado, todos os demais o acompanham. Ciência e tecnologia, filosofia e sociologia, todas provêm dessa fonte, mas quando esquecem sua fonte perdem o sentido e levam ao desastre.

            Esta é causa mais profunda do fracasso da civilização moderna. Ela perdeu o contato com o Centro, o Substrato da realidade e, portanto, está fadada à destruição.

            O avanço da Ciência e da tecnologia não é errado em si, nem todo o desenvolvimento econômico e políticos recentes.

            Pelo contrário, todo elemento positivo que integra a civilização moderna tem um valor próprio. A ciência, com seu estudo racional do Universo físico, incluindo o corpo humano e a tecnologia – a aplicação desse conhecimento ao controle das forças da natureza em nosso benefício, são intrinsecamente boas.

            O mesmo se pode dizer do humanismo, no sentido de respeito pela pessoa humana, de reconhecimento dos direitos do homem – de liberdade, igualdade, fraternidade – este valores são bons em si. Mas foram viciados desde o início pela rejeição da eterna  Sabedoria, que é a base última da verdade e da moralidade. O que é intrinsecamente mau é pretender que este mundo – o mundo físico apresentado por nossos sentidos e objeto da ciência – seja a única realidade.

            O que é incorreto é acreditar que o homem é independente de qualquer realidade transcendente, e pode controlar o Universo  -ou pelo menos a parte que pode dominar – para seus próprios fins. Este é o mundo que é julgado e condenado nos Evangelhos, o mundo que se arvora em independência de Deus e tenta divinizar o homem. Esta é a ilusão ou maya, produto da avidya ou ignorância, da cegueira espiritual que perdeu o contato com a realidade. Como diz o Katha Upanishad:

            “Vivendo no meio da ignorância, julgando-se  sábios e instruídos, os insensatos vagam sem propósito por aqui e ali, como cegos guiados por cegos. O que jaz além desta vida nunca brilha para os que são infantis, descuidados ou iludidos pelo falso encanto d riqueza. Dizem: - este é o único mundo, não há outro. E assim vão de um morte a outra.” (II, 5-6)

            A grande ilusão é julgar que o mundo dos sentidos seja o mundo real, pois é evidente que não passa de uma abstração da realidade total. A parte da realidade que se reflete por nossos sentidos é apenas uma fração do conjunto total. Por mais que se amplie o raio do alcance sensorial, mediante instrumentos como o telescópio ou o microscópio, nunca pode tocar mais que um aspecto da realidade.

            Nem é menos ilusório julgar que o mundo da razão seja o real. Todas as construções da razão matemática, todos os grandiosos sistemas de filosofia baseados nos sentidos e na razão são apenas a reflexão da mente humana sobre uma Realidade que sempre transcende. É só quando chegamos as às visões ou intuições dos grandes profetas e videntes, inspiradores da religião, é que entramos em contato com a própria Realidade; e mesmo desta Realidade una ainda se reflete através de um meio humano. O Rig-Veda (o mais antigo dos Vedas indianos), juntamente com os Upanishard e o Bhagavad Gita, as escrituras ou Sutras budistas, o Zend-Avesta do zoroastrismo, o Corão, o Velho e o Novo Testamento – todos refletem essa Verdade una em diferentes termos humanos. Todos estão condicionados pela história e pelas circunstâncias em que foram compostos, mas todos derivam dessa Fonte única e apontam para a mesma Realidade.

 

 

            * Transcrição do nono capítulo do livro Retorno ao Centro – o conhecimento da verdade, ponto de reconciliação de todas as religiões. Traduzido do inglês por Vamberto Morais. São Paulo: Ibrasa, 1992

 

            ** Monge beneditino inglês que, a partir de 1955, viveu na Índia o desafio de um ecumenismo genuinamente religioso. Lá faleceu em 1993