Jorge Ponciano, presidente do MPC, no último número do Jornal
Rumos (184) nos convida a realizar “Mudanças no Reino” e
humildemente pergunta a si mesmo “Eu tenho sido cristão profeta?”
Como excelente psicólogo que é, analisa a situação
da Associação Rumos e do Movimento dos Padres Casados. “Ambos,
diz, se encontram fragilizados à procura da identidade”.
Não encontrando respostas, ou apenas para provocar nossa reflexão, pergunta:
“Quem somos? Qual o nosso trabalho? O que o mundo espera de nós? Qual nossa missão na Igreja”?
Após descrever os Padres Casados como um grupo privilegiado de alta qualificação e dotadas da mais alta consciência de seu papel social e cristão, termina sua análise identificando-nos “a um bando de ovelhas desgarradas à procura de um pastor”.
De maneira inteligente pergunta-nos se nós temos a resposta a respeito da identidade e estimula-nos a procurá-la e para isso dá ao próximo congresso a incumbencia de descobrir a identidade do Padre Casado.
Aqui e acolá grupos de intelectuais, especialistas no saber filosófico,
teológico, psicológico e outros tantos, passam décadas
procurando a pedra filosofal da identidade.
O pragmatismo divino do Evangelho parece desconhecer bizantinismos. O Que é ser padre? Padre casado? O que fazer? Nada além de ser cristão.
O que é ser cristão? “É alguém que nunca viu Cristo, mesmo assim acredita Nele e O ama”. (1 Pedro 1.8-9) Padre celibatário ou não, que dá na mesma, é alguém que deveria crer e amar mais do que os outros.
É por isso que é escolhido pelos irmãos na fé para ajudar os demais na ligação com Cristo. Como fazer isso?
No deserto da oração (meditação) Deus o ama e o
impulsiona à pregação do Cristo Palavra e Pão descido
do Céu.
Para deixar os apóstolos (bispos, presbíteros) livres para se
dedicarem à oração e à pregação da
Boa Nova, foram escolhidos os diáconos.
Teoricamente
tudo isso é fácil. Difícil, ou até impossível
para os humanos, é a prática.
O Evangelho é radical. O sermão da montanha é impraticável sem ajuda divina.
Ao tempo de João Batista era difícil possuir duas túnicas.
Quem as tivesse, uma serviria para vestir, outra para reserva, higienização.
À pergunta do povo “o que fazer?” João é incisivo:
“Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não a tem;
o mesmo faça quem tiver comida” (Lc. 3.11)
Se é difícil ou até impossível a prática,
o que é impossível para a natureza humana não é
impossível para Deus.
Cada impulso para o bem e a verdade é do Espírito que nos habita
e nos impulsiona.
È Ele que realiza em nós o querer e o fazer.
A nós pertence anuir, dar o nosso sim e iniciar dando pequenos passos para que o Divino Mestre realize em nós seu trabalho de amor.
Muitas vezes, a nossa queixa é que o Vaticano finge que não existimos,
não responde aos vários pedidos com milhares de assinaturas, etc,
etc...
Mas nós, como nos comportamos? Sabemos ter boa educação com os colegas; dar retorno a um telefonema, dar um elogio ou sugestão a quem empreende uma caminhada diferente?
Sabemos ser democráticos? E mais: sabemos passar por cima de uma pequena ofensa? Muitas vezes o Vaticano, que tanto lastimamos, e que não é o inferno, existe dentro de cada um de nós.
Talvez, sem muito filosofar, iniciando a nos comportar civilmente, estamos abrindo a porta ao Cristo para que Ele possa realizar em nós a radicalidade da Boa Nova e realizar com o nosso corpo e a nossa vida o Memorial do Senhor: "Este é o meu tempo, o meu trabalho, o meu corpo e o meu sangue derramado em benefício dos irmãos".
No que diz respeito ao tradicional exercício sacramental, celebrar ou
não celebrar, com este ou aquele ritual, tudo isso depende das circunstâncias,
se o ato ajuda o irmão a encontrar Deus será nossa obrigação
celebrar e nisso o direito Canônico (Can.1335) nos dá o aval.
Nossa identidade não é sacerdócio levítico- clerical,
romano ou ortodoxo, celibatário ou não. A esse respeito o OraetLabora
tem várias matérias em sua página.
O exemplo do Pe. Paulo Jorge de Vitória, do Leonardo Boff, também
citado nesta página, na entrevista à revista Época e tantos
outros exemplos podem ajudar as consciências mais delicadas, formados
que somos dentro de um contexto legalista.
Outro
grande exemplo que não podemos deixar de citar é do bispo exonerado
de Partenia, Don Jacques Gaillot. Atraves desta página pedimos que fosse
convidado para nosso Congresso.
O importante é edificar e não escandalizar. Nossa identidade é
o próprio Cristo.
Só
a adesão a Ele poderá delinear, fazer luz, fazer ressuscitar,
surgir do fundo do nosso ser a nossa verdadeira identidade, que poderá
ser latente, jamais perdida, pois somos semelhança do Criador e, melhor,
outros cristos.
No
mais profundo do nosso ser existe o Ser Maior que é a alma da nossa identidade.
O que o mundo espera de nós? Se nossa identidade é ser outro Cristo, qual o papel do MPC? O movimento na atual conjuntura eclesiástica é de máxima importância, pois como somos da diáspora precisamos de maior ajuda recíproca para viver nossa vocação.
Juntos podemos encontrar caminhos para coordenar nosso movimento formando uma
Associação respeitável e eficiente. Já o teologo
Eduardo Hoonaert manifestou-se longamente a este respeito.
É importante que o mundo, os fiéis e a instituição
eclesiástica vejam as nossas boas obras e glorifiquem a Deus.
A responsabilidade do MPC e da diretoria
nesse sentido é demasiadamente importante.
O mundo, visto o capital imenso que
temos, espera não somente atitudes singulares de vida cristã de
cada um de nós, mas espera que atuemos como grupo, por isso precisamos
de dinamismo como de incentivo para a união na pluralidade:
1) fomentar o relacionamento e amizade entre os colegas que não visam nenhuma atividade religiosa;
2) incentivar e ajudar aos que desejam qualquer tipo de trabalho religioso;
3) fomentar a realização de uma pastoral do presbítero
casado seja para quem atua na evangelização ou nos sacramentos,
como à quem trabalha na promoção humana ou no trabalho
intelectual da reflexão.
O importante, ao meu ver, é atuar na liberdade dos filhos de Deus que nos impulsiona para a abertura com o mundo dos homens e de toda criação.
Rituais, sacramentos, vestes, tudo isso pode ser importante ou não, conforme
o momento e a circunstância.
O MPC do Brasil, menos ligado ao clericalismo como os colegas europeus, tem
uma imensa responsabilidade também com estes colegas mais afetos à
tradição legalista e ritualista que chamaria de levítica,
sem desconhecer seus méritos.
O que fazer?
Não
é o Cristo a luz do mundo? Logo “vós sois a luz do mundo”.
Com Diagneto concluímos: o cristão é,
para o mundo, o que a alma é para o corpo.
O avental do amor (serviço) ao mundo será a pedra filosofal da
identidade dos presbíteros. Casados, ou não,somos irmãos
mais velhos e facilitadores da prática do serviço-amor
ao homem moderno.