Bede Griffiths*
A
função da religião comparada é discernir esta Verdade
essencial: o divino Mistério que está além de palavras
e pensamentos, nas formas verbais e crenças de cada tradição
religiosa, desde as mais primitivas até as religiões universais
mais complexas. Em cada tradição esta Realidade divina una, a
Verdade eterna, se acha presente, mas oculta em símbolos de palavras
e gestos, rituais de dança e canto, poesia e música, arte e arquitetura,
costumes e convenções, lei e moralidade, filosofia e teologia.
O divino Mistério está sempre oculto por um véu, mas cada
revelação (literalmente, tirar o véu) descobre algum aspecto
da verdade uma, ou, se preferem, o véu se torna mais transparente num
certo ponto. Assim, as religiões semitas, Judaísmo e Islame, revelam
o aspecto transcendente do Ministério divino com poder incomparável.
As religiões orientais (Índia e China) revelam a Imanência
divina com imensa profundidade. Mas em cada uma também está presente
o aspecto oposto, embora de um modo mais oculto. Temos de tentar descobrir as
relações interiores entre os diferentes aspectos da Realidade
e uni-las em nós próprios. Portanto, além de ser cristão,
eu preciso ser um hindu, um budista, jainista, zoroastrista, Sikn, muçulmano
e judeu. Só assim poderei conhecer a Verdade e encontrar o ponto de reconciliação
em todas as religiões.
Enquanto continua viva, toda religião se acha num estado de evolução.
Cada tradição recebe a Verdade divina por um molde ou prisma especial
e permanece fiel a ele através de sua evolução.
Precisamos distinguir em cada religião o caráter desse molde primitivo.
Às vezes pode ser resumido numa só palavra. Para o hinduísmo
é Brahman - "O uno sem segundo",o Infinito, Eterno, Saccidananda
(ser-consciência-alegria extática). No budismo é o Nirvana,
a cessação ou pagamento dos desejos, o vazio que contém
toda a plenitude do ser; é o aspecto negativo do Mistério divino.
No Islame é o próprio sentido da palavra - submissão ou
entrega a Allah, o benéfico, o misericordioso, a Realidade em sua transcendência
absoluta. No judaísmo, é Yahweh (Iavé), o Santo ou Kadosh
de Israel, o Eterno que se manifesta na história, oculto nas nuvens e
trevas, mas sempre próximo do coração do homem. Que dizer
agora do cristianismo? É a revelação do Mistério
divino na pessoa de Cristo.
A Verdade eterna, que não pode ser pronunciada nem conhecida, está
simbolizada na vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré.
Neste ponto da história penetra-se o véu. Na ressurreição
de Jesus a natureza humana foi elevada à divina, o tempo integrado na
eternidade. Mas tudo isto não passa de frases para expressar o inexprimível.
Só podemos penetrar o véu por meditação sobre o
Mistério, não por palavras ou pensamentos. É aí
que falha toda razão humana. Nenhum destes termos - Brahman, Nirvana,
Allah, Yahweh, Cristo - tem sentido para aqueles que não conseguem ir
além da razão, permitindo que o Mistério divino brilhe
e se revele através de seu símbolo. Isto só é possível
pela fé, e fé é a abertura da mente à Realidade
transcendente, o despertar para a Verdade eterna.
O cristianismo teve sua evolução, como qualquer outra religião.
A linguagem do Novo Testamento é a forma mais antiga de sua expressão
que possuímos e é a mais próxima do original, mas a Verdade
está sempre além do que as palavras podem expressar. É
o Verbo de deus, a eterna Verdade que se manifesta, o ministério da salvação,
"oculto desde os séculos em Deus." (Ef. 3,9)
Este é o objeto da fé, expresso em palavras mas sempre transcendendo
a elas, que fala ao coração, despertando as profundezas da alma
e trazendo iluminação, paz e alegria. E este Ministério,
quando conhecido em seu substrato último, une-se ao ministério
de Brahman, Nirvana, tão, Yahweh, Allah. É a Verdade uma, o Verbo
uno, a eterna Saccidananda. Em suma, a meia de toda religião é
a mesma. É o absoluto, o estado transcendental, a eterna verdade, que
não pode ser expressa nem concebida. É a meia não só
de toda religião, mas de toda a existência humana: todos os homens
são atraídos continuamente por esta Verdade transcendente, quer
o reconheçam, aceitem ou não. O intelecto sempre busca o Absoluto,
em todas as fórmulas pelas quais procura expressar seu pensamento, e
além delas. Ele foi feito para a Verdade, a Realidade,e nunca pode satisfazer-se
com uma verdade parcial ou construção da mente humana; está
sempre sendo levado além de si, para o Absoluto. A vontade também
é sempre movida pelo amor do Infinito. Em todo amor humano há
um anseio profundo do Infinito, um desejo de transcender-se, de entregar totalmente
o eu. Esta tendência se acha presente tanto nos ateus e agnósticos
como nos ignorantes, insensatos e nos sábios, e é isto que dá
um valor infinito à pessoa humana.
GRIFFITHS,
Bede: " Retorno ao centro. O conhecimento da Verdade - O ponto de reconciliação
com todas as religiões". Trad. De Vamberto de Morais, IBRASA,
SP, 1992.