From: Roldano Giuntoli
To: Mario Palumbo  

Leitura da Semana de 9 de Dezembro, 2007

“Caríssimos Amigos"

Laurence Freeman OSB, WCCM International Newsletter, Dezembro de 2007.

Tradução de Roldano Giuntoli

 

Em tempos de estresse e ansiedade, como os nossos, o tempo exerce pesada carga sobre nós.  Sem o significado, o peso intolerável do tempo e, paradoxalmente, seu fugaz desaparecimento, tornam-se uma crucificação, sem uma ressurreição.  O elevado crescimento na incidência de doenças mentais na sociedade moderna, pode ser atribuído a isso.  A meditação transforma nosso constructo mental do passado e do futuro, pelo aprofundamento da experiência do momento presente, o núcleo do significado da contemplação como “simples desfrutar da verdade”.

A morte, que concentra a mente maravilhosamente, nos conduz a uma exaltada experimentação da realidade.  Cada momento precioso é saboreado e compartilhado com alegria e admiração.  Os amantes que encaram a morte, desfrutam cada momento que lhes resta juntos, mas, eles não contam os segundos.  O momento presente não pode ser medido.  Isto também é liberdade sem limites.  A garçonete que te deseja “bom apetite”, quando você inicia sua refeição, compreendeu bem a questão.  Como podemos descrever o momento presente, exceto por referência ao tempo?  Não podemos, assim como não podemos falar da Palavra, sem usarmos palavras.  Porém, o momento presente não está separado daquilo que imaginamos como passado e futuro.  Ele contém o tempo.  Poderíamos dizer que experimentamos o momento presente, quando paramos de contar ou de olhar para o tique-taque dos segundos que se vão.  O alvorecer se dá quando realmente entendemos que o momento presente é literalmente todos os momentos, sucessivos a ponto de serem ininterruptos, sem que qualquer momento corresponda a um piscar de olhos, ou seja desperdiçado, esquecido ou ignorado.  Trata-se de estarmos completamente acordados para tudo.  Aqui e agora.

Este é o último paradoxo. . . .Como podem coexistir o tempo e a eternidade?  No entanto, a meditação. . .nos mostra que podemos viver no agora eterno, enquanto escrevemos relatórios sobre as reuniões de ontem e, planejamos nossas reuniões de amanhã.  A cura pode se dar por ocasião de nossa morte.  Podemos entender por que a tradição védica dramatiza tanto tudo isso, quando diz que este mundo é uma ilusão, apenas um mundo de sonho, do qual acordaremos, tal como acontece quando assistimos um filme na tela e, então acendem-se as luzes e apaga-se o projetor.  Dom John e a tradição cristã, não gostam de dizer isso, pois isso diminui o paradoxo da encarnação, bem como a experimentação do amor humano, no dia-a-dia e, ao longo dos anos da peregrinação de nossa vida.  Ainda assim, à luz do momento presente, tantos de nossos pensamentos e pressuposições mostram-se ilusórios, tantas ansiedades se evaporam, tantas crises desaparecem e, tantas de nossas pendências parecem ser liberadas.  No entanto, Dom John não minimiza a purificação da mente, que precisa ser feita primeiro:

Mas, isso também precisamos compreender, Eu confundiria seriamente o leitor, caso não procurasse colocá-lo tão claramente quanto possa: a purificação que conduz a essa pureza de coração, que conduz à presença em nosso interior, é um fogo que consome.  E, a meditação é a entrada nesse fogo.  O fogo que calcina tudo que não seja real, que calcina tudo que não seja verdadeiro, que não ame.  Não devemos temer o fogo.  Devemos ter absoluta confiança no fogo, pois o fogo é o fogo do amor.  O fogo é ainda mais, este é o grande mistério de nossa fé, é o fogo que é amor.

Repita seu mantra.  Se realmente o repetirmos, não poderemos estar em outro lugar, a não ser aqui e agora.