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     Reflexões Bíblicas - Domingo, 15 de julho 07:                              15º Domingo Ordinário


 

15o. Domingo Comum C. Dt 30,10-14; Sl 68; Cl 1,15-20; Lc 10,25-37
Quem é o meu próximo?
O termo “próximo” refere-se, por si, a espaço: é nosso próximo quem se encontra nas proximidades. Melhor ainda, o que não está distante de nós, ou aquele de quem guardamos distância. Não se trata, assim somente, de espaço, mas de atitude mental. O próprio parentesco não basta: numa família, quer geográfica, quer afetivamente, alguns podem nos ser mais próximos e outros mais afastados. Ao perguntar a Jesus “Quem é o meu próximo?”, o doutor da Lei julgava ser possível estabelecer de antemão quem era o próximo, a partir de determinados critérios tais como origem, nacionalidade, religião, raça ou nível cultural. A parábola nos obriga a reverter esta expectativa: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó...” (Lc 10,30). Certo homem, não importa quem! Um judeu? O texto não o diz, mas, se assim o pensarmos, em razão da geografia  descia de Jerusalém para Jericó - o sacerdote e o levita que, a caminho passam por ele, são seus “compatriotas”, são seus “próximos”. Lembremos que esses dois personagens são especialistas na Lei à qual, precisamente, diz respeito a questão colocada no início do relato. Uma Lei que fica aberta para mais além de si própria, pois não diz quem é o próximo a ser amado como a si mesmo.
Aquele que se aproxima. O próximo, portanto, não é dado de antemão. Quem foi o próximo do homem assaltado na estrada? Quem dele se aproximou! Anteriormente, nenhum dos dois  nem o samaritano nem o que foi por ele socorrido - foi próximo um do outro. Mas, de hoje em diante, o que foi socorrido poderá amar o Samaritano como a si mesmo, pois ele se tornou o seu próximo. Vemos, pois, que ser próximo é tarefa ou missão a ser cumprida. É fruto de um deslocamento que transforma os parceiros. A trama desta parábola é considerável. Com efeito, ao pôr em cena um doutor da Lei que procura saber ao certo qual a condição a ser cumprida para se alcançar a vida eterna e ao enunciar os dois mandamentos  extraídos de Dt 6,5, o primeiro, e de Lv 19,18, o segundo  os quais, resumindo o Decálogo, não são mais que um só, o evangelho nos situa em pleno judaísmo, na religião do reino do Sul (tribo de Judá). Ou seja, numa região estranha, em grande parte, à Samaria, o reino do Norte. Ao escolher um Samaritano como exemplo dos que cumprem o que deve se deve “fazer para receber em herança a vida eterna” (10,25), Jesus nos faz compreender que o acesso a Deus não é uma questão de etiqueta religiosa nem de participação num determinado grupo, não importando ser ele o portador de uma verdade incontestável. Admiremos a audácia de Jesus que ousa prescrever a um doutor da Lei imitar um Samaritano! 
Mais além da parábola. Podemos, é claro, determo-nos na solicitude do Samaritano que cuida do ferido, recomenda-o ao dono da pensão, pagando-lhe a estadia etc. Um detalhe, no entanto, nos chama a atenção: O Samaritano retornará. Ora, quem foi que cuidou de nós, e que haverá de voltar, a fim de completar a sua obra, se não o próprio Cristo?  Esse tipo de reflexão ultrapassa, de certo, a lição diretamente transmitida pela parábola. Mas isso pouco importa! Aquele homem assaltado pelos ladrões e abandonado à margem da estrada... somos nós! Arruinados, sem força, incapazes de nos levantarmos... De certa forma, Cristo é para nós o estrangeiro por excelência. Ele irá mais longe que o Samaritano, ao assumir em seu próprio corpo os nossos males, tornando-os seus s e curando-os. Invertem-se, portanto, os papéis: diante de nós está Jesus despojado, prisioneiro, faminto, morto e discretamente atirado num fosso, ao largo da estrada, de modo a não ser visto pelos desatentos que passam por ali... Tornar-nos-emos ou não os próximos de Jesus? Relembremos Mt 25,34-45: “Tive fome e me destes de comer; tive fome e me destes de beber... era estrangeiro e me recolhestes...“ Como a lei da caridade (cf 1a. Leitura), de tal forma posta ao nosso alcance que é inútil buscá-la mais longe do que em nosso coração, assim também Cristo Jesus não está longe de nós: ele está aí, bem aos nossos olhos, nas fossas que cavamos e nas cruzes que levantamos!
 

Marcel Domergue S.J.                                                                                                                              tradução livre de  José Lara