Assunção. Ap 11,19.12,1-6.9; Sl 44; 1Cor 15,20-27; Lc 1,39-36
Onde está Cristo,
está também Maria. O dogma da Assunção não está diretamente fundado na
Escritura. É fruto de uma dedução: se Jesus está vivo na glória do Pai, Maria,
que com Ele é uma só carne, também deve estar. Onde está Cristo, aí deve também
estar a sua mãe. Não se trata, é claro, de uma localização geográfica. A
“glória”, morada de Deus, transcende o universo e perpassa-o “como o relâmpago
que parte do oriente e brilha até o ocidente” (Mt 24,27). Observemos também que
“assunção” não quer dizer que Maria foi levada ao céu em vida, tal como Elias
num carro de fogo, mas que, isto sim, foi totalmente assumida, em corpo e
espírito, por Deus. Por esse motivo lemos hoje o texto de 1Cor que não trata da
morte, mas da ressurreição. O itinerário de Maria não poderia deixar de
conformar-se, incluindo a morte, ao de Jesus! Na Idade Média, em vez de “morte”,
por discutível cautela, falava-se de “sono” ou de “dormição" de Maria. De
todo modo, a assunção de Maria por Deus conclui e recapitula tudo o que ela
viveu. Não se trata de uma crença suplementar nem de um mero detalhe somado aos
demais. Mediante este “dogma”, podemos reencontrar-nos com tudo o que concerne,
não só ao de Maria, mas também ao nosso próprio périplo terrestre.
Uma recapitulação da história de Maria. Maria, com efeito, é a figura
exemplar do itinerário de todo ser humano e de toda a humanidade. Não somos nós,
acaso, o corpo de Cristo, uma só carne com Ele, inseparáveis, portanto, d’Ele,
tanto para o pior quanto para o melhor? Não somos, como Maria, essa morada de
Deus, prefigurada pela Arca da Aliança (cf Js 3,7-10)? Sem sairmos do curso
terrestre de Maria, notemos que, já nas palavras do relato evangélico da
Anunciação - “cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28) - vem revelada
esta comunhão total com Deus significada pela Assunção. É possível reler os
episódios todos da infância de Jesus, tendo por chave a Assunção de sua mãe. Por
outro lado, na vida de qualquer um de nós, o fim é que confere sentido ao que
vem antes. Em Maria, é a nossa humanidade, a humanidade inteira, que chega ao
termo para o qual foi criada. A meta perseguida engendra os gestos e os passos
do percurso. Se hoje lemos o Magnificat, isso se deve a que esse cântico
inicial, anterior ao próprio nascimento de Cristo, assume por fim,
integralmente, o seu sentido. Durante toda a sua vida, teve Maria de reiterar o
seu ato inicial de fé. Pensemos, por exemplo, em Lc 2,50: “Eles (Maria e José)
não compreenderam a palavra que Ele (Jesus) lhes dissera”. Mais tarde,
desconcertada ante o comportamento do filho, Maria tentará falar-lhe... E
receberá uma recusa! A essas provações na fé, sucede agora a claridade da visão.
Nós e Maria, Tudo o que é dito de Maria, a nós também concerne,
esclarecendo a nossa própria história. Foi ela a primeira a seguir o Caminho,
esse Caminho que é Cristo. Nosso percurso, no entanto, não coincide inteiramente
com o dela, pois nossas vidas estão manchadas pelo pecado, ou seja, uma falha na
fé que, de múltiplas formas, resulta em eclipse do amor. Desviar-nos-emos por
isso da rota, deixando ao largo o caminho real da comunhão com Deus? Não mesmo,
pois Maria está conosco. Ela veio ao mundo, a fim de dar à luz Àquele que, toma
sobre si e tira o nosso pecado. Se a invocamos como “Refúgio dos pecadores” é,
que ela, de certa forma, nos representa a todos: Quando volta para nós o seu
olhar, Deus vê Maria, figura da humanidade portadora do Filho! Unidos a ela,
somos assumidos por Deus. A assunção é profecia acerca do nosso futuro. Eis
porque pode haver ambigüidade em apresentá-la como um privilégio, uma realidade
que caberia apenas a ela. Acrescentemos ainda que este mistério, que bem pode
ser denominado a nossa transfiguração, já está presente em nós, em obra ainda,
mas de uma eficácia irreprimível. Bem entendido isso nos leva, como Maria, ao pé
da cruz. É lá que a nossa fé será de fato provada. Mas lá também é que
ouviremos: “Eis aí a tua mãe” (Jo 19,27)!
P. Marcel Domergue S.J. tradução livre de
José J. Lara