A SIMPLICIDADE DA MEDITAÇÃO E O MANTRA

 

Para John Main a simplicidade da Meditação está resumida de uma maneira suprema e condensada no ensinamento do mantra que  encontrou nos Padres e Freiras do Deserto e em Cassiano, o grande transmissor da tradição deles. Cassiano fala do mantra como sendo a nossa “salvação nos maus tempos e a nossa proteção contra o orgulho nos bons tempos”. Assim como a Nuvem do Não Saber, mil anos depois, ele ensina que a recitação continua do mantra na “prosperidade e na adversidade” é o caminho para aquela pobreza de espírito (a primeira bem aventurada e pré-condição da verdadeira felicidade) na qual abandonamos qualquer motivação e apego egoísta em nossa peregrinação espiritual. Por isto, somos ensinados a “repetir a palavra sem cessar no coração” como “fórmula de salvação”.

Assim ela nos “protege, purifica e guia” à “contemplação do invisível” e, mais adiante, para a “necessidade celestial e forçosa da oração”.

Se o trabalho da meditação se restringisse somente aos dois períodos diários que se tornaram a marca do ensinamento de John Main, correria o risco de transformar-se em narcisismo espiritual. Nós o estaríamos fazendo meramente como compromisso, como escape. Em vez de uma peregrinação à beatitude, ele seria pouco mais do que uma happy hour espiritual. Entretanto, o poder da recitação fiel está no fato de que ela enraíza o mantra no coração, num nível cada vez mais distante da órbita habitual do nosso egocentrismo.

O s monges oravam e trabalhavam. De preferencia escolhiam trabalhos manual que não prendiam muito a mente. Assim trabalhando confeccionando cestas de vime, podiam continuar com a mente ligada a Deus.

Cassiano recomendou que se continuassem a recitação do mantra o dia inteiro, mesmo ao satisfazer as necessidades da natureza. Ela devia “acompanha-los em todo trabalho e estar a seu lado todo tempo. O mantra deve preceder seus pensamentos e ser uma oração contínua, um refrão interminável."

Ao meditante de nosso tempo, John Main recomenda que inicialmente restrinja o mantra aos dois períodos diários da meditação. Ele diz, porém, que se esses períodos são fielmente praticados, não demora muito para o mantra “cantar no seu coração.”  A musicalidade interior do mantra acompanha o meditante em todas ocasiões do dia a dia:andando na rua, nas filas de espera, no supermercado ou num engarrafamento de trânsito. A repetição contínua do mantra leva a um processo espiritualmente orgânico de enraizamento da palavra no coração. Kallistos Ware descreveu que esta tradição ocidental coincide com a tradição oriental ortodoxa. Em ambas, a oração do coração é uma realização do amor. A superfície da mente une-se às profundezas do coração de uma forma natural. O mantra transforma-se numa continuidade repetida de declaração de amor. A meditação é um relacionamento amoroso como qualquer outro. Torna-se uma peregrinação do eu para o outro. “Outro” aqui significa não somente os indivíduos do nosso drama pessoal de vida, mas o próprio mundo. Nas palavras de Mestre Eckhart, o sinal de que isto está acontecendo é que “tudo terá o gosto de Deus”.

 

Considerações de Laurence Freeman e adaptadas pelo Ora et Labora.

 

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