UM DIA DE VISITAS

São seis horas da manhã de domingo, avisa o despertador. Levanto-me rapidamente da cama, ajoelho-me ao lado e faço uma breve oração, agradeço à Deus pela oportunidade de haver acordado por mais um dia.

Dirijo-me ao banheiro, faço minha higiene pessoal e logo em seguida procuro na cozinha um golinho de café do dia anterior, não quero sair de casa em jejum.

Olho novamente o relógio e apresso-me, o lugar onde irei tem horários rígidos, confiro se está tudo em ordem na sacola que levarei comigo: sabonete, creme dental, aparelho de barbear, objetos escolares, canetas, caderno, envelopes e também selos para carta. Alimentos, biscoitos, tubinhos de mortadela temperados com limão, goiabada... verifico toda a minha documentação... tranco a porta da sala.

Mais alguns minutos e estou no ponto de ônibus urbano, que me levará à estação rodoviária, de onde sairá o coletivo que me conduzirá ao meu destino.

Na rodoviária, enquanto aguardo a chegada do ônibus intermunicipal, observo a chegada de outras mulheres conhecidas, que também partilham do meu destino.

Todas, eu e elas trazemos no semblante um misto de alegria  e dor, que só as mães conseguem sentir. Alegria de poder rever alguém muito querido. Dor por compartilhar de seu sofrimento.

Nove e trinta e já deixamos para traz a cidade, sento-me na janelinha do ônibus e fico em silêncio, absorta em meus pensamentos, olho sem atenção, à monótona paisagem de canaviais, algumas árvores na linha do horizonte...

Onze horas da manhã e acabei de chegar, corro para a primeira das filas para pegar a senha. Alguns minutos mais, e recebo o número 636 pirogravado dois lados das duas plaquetas de madeira, que trazem uma alcinha de barbante, uma para eu usar como identificação pessoal, outra para a sacola que trouxe de casa.

Outra fila, desta feita, preencho uma ficha com meus dados pessoais, e posso passar para outra fila onde a sacola será revistada, e daí para a fila da revista pessoal. Ah! A revista pessoal...Entramos em uma saleta, quatro mulheres e duas agentes policiais trancam a porta, e humilhada me dispo completamente.Minha companheiras de agruras também, ema a uma temos que, nuas, agacharmos de frente e de costa três vezes diante da agentes...Elas revistam nossos cabelos, nossas roupas...Somos impedidas de usar brincos, anéis, alianças ou qualquer adorno. Nos vestimos e somos liberadas para outra sala, onde em uma enorme fila minha sacola me aguarda com a plaqueta 636.

Ansiedade. Angústia por saber que será tão breve esse encontro.

Resignada, caminho em fila indiana, e recebo um carimbo com tinta vermelha no antebraço, que deverei apresentar na saída.

Por quantas fila já passei? Quatro? Cinco?

À minha frente esta escrito "muralha", e aí deixei para traz duas grades e um portão enorme, cujas chaves devem pesar quase meio quilo, e dou conta que estou em um corredor longo e sombrio, com paredes cinzas, com muitas manchas de bolor, fico com medo...essa cor cinza...Será que foi pintada assim, ou o tempo é que impôs essa coloração? E se fosse rosa? Chego a ver essas paredes pintadas de rosa bem clarinho. Sou daltônica? Não, é meu subconsciente tentando minimizar minha tristeza.

Finalmente estou diante das grades à espera de algum agente para abri-la, e eu possa finalmente abraçar meu amado filho, ora detido nessa penitenciária do Estado.

O tão esperado momento, ainda com a sacola na mão, nos perdemos num longo e apertado abraço. Nossas lágrimas se misturam, e assim permanecemos não sei por quanto tempo. Voltamos à realidade. Conto-lhe as novidades, o que está acontecendo em nossa família, pergunto sobre sua saúde, se a incômoda rouquidão, que o acometera na semana passada, melhorou? Num xadrez onde até dezessete pessoas se amontoam, a saúde é sempre muito precária.

O xadrez mede sete por quatro metros e tem doze camas de cimento, umas sobre as outra, tipo beliche - seis de cada lado e um estreito corredor no meio. Ao fundo um banheiro escuro e úmido, porém limpo, pelos próprios reeducandos. Nele encontro dois chuveiros de água fria naturalmente, também um tanque enorme com quatro torneiras, usado para lavar roupas e dois sanitários. Esse banheiro é fechado por dois lençóis coloridos, para manter a privacidade, principalmente das visitas, algumas esposa têm ali seus encontros íntimos com seus maridos, outra ficam o tempo todo de visita sobre as camas de seus parceiros, que estão cercadas também por cortinas de lençóis.

Tudo o que levamos, eu e as outra mulheres, seja alimento, seja produto de higiene ou qualquer outro mimo, é repartido igualmente entre os moradores do xadrez. assim, aquela mortadela em cubinho, tive a paciência de cortar em 72 cubinhos para que cada morador receba 6.

Sempre que posso, levo essa iguaria que é muito apreciada por todos eles.

Almoçamos, e hoje foi servido arroz, feijão, salada de tomate e frango à passarinho, e como sobremesa, gelatina de morango.

Troco algumas palavras com os outros rapazes, e em seguida meu filho e eu, sempre abraçados, vamos para o pátio e andamos de lá para cá os seus quase cinqüenta metros de comprimento. Conversamos sobre vários assuntos, ele me mostra o artesanato que fez durante a semana. Fico encantada e orgulhosa em saber que Thiago é capaz de aprender a fazer algo tão delicado, tão diferente de sua profissão: mecânico de automóveis.

Tristemente, Thiago relata que fora as cartas que envio a ele, seus dias são terríveis, difíceis de suportar, que as regras impostas aos reeducandos são rígidas, mas necessárias. O que mais o incomoda é o pouco tempo do banho de sol: uma hora e meia pela manhã e outra uma hora e meia pela tarde, e às quinze e trinta impreterivelmente as grades se fecham, para só reabrirem no outro dia às oito e trinta da manhã.

Meu filho está estudando nas salas de aula do presídio, está adquirindo novos conhecimentos e aprendendo a gostar de ler.

Meu coração come~a a se apertar, pois nem preciso olhar para nenhum relógio para saber que a hora de ir embora se aproxima. Meu Deus, como será a semana do meu filho? Como irei encontrá-lo na próxima visita?

Já é hora de pegar meus pertences, a sacola, a vasilha de plástico, onde trouxe os cubinhos de mortadela...

Despeço-me dos companheiros de meu filho, despeço-me de meu filho amado. Ainda no pátio, sei que são 14:30 h quando a sirene toca, e tenho que passar pela grade, e posteriormente pela enorme e pesada porta de ferro, pintada de cinza, que dá acesso ao corredor que nos leva à saída. Essa porta se fecha em um estrondo, que ainda ouço por muito tempo depois. Passo meu braço por um leitor, aquele carimbo com tinta vermelha serve para provar que a pessoa que está saindo é a mesma que entrou. Percorro novamente o úmido corredor, que agora parece ainda mais escuro e úmido. Já em outro compartimento, recebo meus documentos que haviam ficado retidos, e encaminho-me para o ponto de ônibus.

Quinze horas, e dentro do ônibus já com a lotação completa, ouço alguém me chamar:

-Olá Dona Laura, como vai?

Nesse momento consigo relaxar um pouco, e troco algumas palavras com minhas colegas de infortúnio. elas me falam sobre seus filhos e esposos, também lhes falo sobre meu filho. Uma das mulheres, que fez uma de suas primeiras visitas à essa casa de recuperação, se mostra impressionada com o rigor das regras internas, principalmente com a necessidade de se manter baixo o olhar, enquanto conversa com a visita de seu companheiro de xadrez, isso dó se a visita lhe dirigir a palavra, caso contrário o reeducando é proibido de falar com a visita do outro. Essas regras ou outras, como barbear-se pelo menos a cada dois dias, são rigorosamente respeitadas, sob pena de receberem o temido castigo denominado de "amarelo", que consiste em ficar sem banho de sol durante quinze dias. Brigas ou infrações mais sérias são punidas com o "pote", sela diminuta onde o reeducando é colocado sozinho, no escuro, e onde tem apenas um vaso sanitário e um colchonete. Fica ali, sem ver ninguém, sem receber visitas, até se regenerar.

Eu creio que isso não regenere ninguém. Devemos sim dar muito amor, carinho, afeto e compreensão, educar nossas crianças para o bem, para que no futuro, quando adultos não façam parte dessa realidade hostil, e não tenham que viver em cadeias tão lotadas.

A viagem de volta continua, e a conversa também, quando pergunto às minhas companheiras qual o momento mais difícil para elas. Unanimemente elas respondem, quase a uma só voz: as grades que se fecham às nossas costas, o barulho do ferrolho e do cadeado demora a se apagar de nossa memória.

Dentro do ônibus urbano, quase chegando em minha casa, já sinto saudades de meu amado filho.

Chego em casa, agradeço a Deus por mais um dia, e peço-lhe a graça de poder, no próximo domingo, ter mais um dia de visitas.