de: José Vicente de Andrade
para: Mario Palumbo

A Igreja é una, santa, universal e indivisa

José Vicente de Andrade*

     Pediram-me alguns colegas que eu tente resumir o que se discute, em termos de nosso grupo, sobre as possibilidades do surgimento de novas Igrejas, das adesões de padres casados como presbíteros ou bispos em  novas Igrejas e algo mais do gênero.

Minha cabeça fervilhou e minha fé cresceu

     Muita coisa rolou em minha cabeça, inclusive o risco provável de que qualquer que sejam minhas análises, sofrerei uma tonelada de críticas negativas, principalmente agora, a exatos dois meses da Abertura do Encontro de Recife. Este evento tanto poderá gerar posições institucionalmente esperadas, como, da mesma forma que em encontros anteriores, mais uma vez ser ocasião de frustrações de expectativas. A presença do arcebispo Emanuel Milingo excitou bastante quem busca acessar seus objetivos através de um irmão que, como os demais padres casados da Igreja Latina, encontra-se sem uso de ordens e, sem dúvida, machucado pela exclusão.    Confesso que minha fé me leva a testemunhar que - apesar de todos os percalços de seus dois mil anos - a Igreja de Jesus Cristo é una, santa, universal e indivisa. Não existe sem Povo e sofre as conseqüências dos males causados pela vaidade pessoal e corporativa e pela carência de manifestações do amor misericordioso de Jesus, por parte de seus pastores, habituados a considerar a instituição católica e romana, sem voltar-se às necessidades do Povo de Deus, nas diferentes comunidades eclesiais.

Peixes não vivem fora da água

     As sugestões, propostas e hipóteses lançadas, com seriedade, visando à migrações de padres casados do ministério eclesial católico romano para ministérios de outras vertentes cujas águas escoam a partir da própria doutrina católica romana pode levar-nos a algumas reflexões talvez ingênuas, mas procedentes. Na realidade as procuras que padres casados fazem por ministérios em alguma Igreja de cepa cristã  não devem causar estranhezas, pois peixes não vivem fora da água.

O diálogo católico- ortodoxo

     Mesmo que haja reivindicações que traduzam estados de ânimos mais exaltados em virtude da frustração da espera ou do esgotamento causado pelo cansaço por árduas caminhadas sem encontrarem acolhidas, os padres casados reconhecem e respeitam e lamentam até mesmo a complicada  "saia justa" em que se encontra, ainda hoje, o "decantado" diálogo oficial católico-ortodoxo [as duas maiores e mais antigas Igrejas] em níveis públicos e elevados de comunhão eclesial. No entanto -  segundo revela Dom Eleutério F. Fortino, subsecretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, em artigo no L’Osservatore Romano [edição oficial, de 7 de novembro de 2007], os resultados da 10ª Assembléia Plenária cujo tema central foi «As conseqüências eclesiológicas e canônicas da natureza sacramental da Igreja: comunhão eclesial, conciliaridade e sinodalidade na Igreja» parece interessar, de imediato, a todas as vertentes eclesiais que se derramam pelo mundo, inclusive entre nós, no Brasil. Deste evento que católicos e ortodoxos julgam de grande importância para o diálogo entre as Igrejas, participaram 27 delegados católicos (dos trinta da Comissão), e quase todos os delegados das Igrejas Ortodoxas. Apesar dos pronunciamentos solenes, não houve entendimento quanto aos seguintes temas que abordaram a teologia da koinonia, ou seja, a comunhão eclesial na unidade de fé, de vida sacramental e de ministério:

     1º) O Mistério da Igreja e da Eucaristia à luz do mistério da Santa Trindade, desde o Encontro de Munique, na Alemanha, em 1982; 

     2º) A Fé, os Sacramentos e a Unidade da Igreja, desde  1987, no Encontro de Bari, na Itália; 

     3º) O sacramento da ordem na estrutura sacramental da Igreja. Em especial, a importância da sucessão apostólica para a santificação e a unidade do povo de Deus, desde o Encontro de (New Valamo, na Finlândia em 1988); 

     4º) O uniatismo, método de união do passado, e a busca atual da plena unidade, desde o Encontro de Balamand, no Líbano, em 1993.

Aflições e necessidades precisam de soluções reais

     À vista dos seguidos insucessos desses eventos oficiais e solenes, [que mais se assemelham a negociatas profanas que a preocupações espirituais e pastorais de dirigentes da Igreja de Jesus Cristo], realizados entre autoridades representativas da Santa Sé e da Igreja Ortodoxa, passo a entender melhor a extensão das aflições que levam gente do MPC a peregrinar por portas estranhas, rogando por exercício de ministérios, mesmo sob autoridade ou jurisdição de bispos de procedências duvidosas ou de comprovações frágeis.

     Embora eu não aceite como de alta qualificação evangélica e pastoral a espiritualidade do "programa missionário" do arcebispo Emanuel Milingo, admito que seus resultados possam tornar-se positivos, com vistas à possíveis [embora não previsíveis] alterações nos procedimentos da Igreja Latina quanto à obrigatoriedade do celibato para os bispos e presbíteros.

     Há urgência de posicionamentos firmes e bem definidos também para a indispensável superação dos "procedimentos irregulares e nefastos" decorrentes das atitudes que se multiplicam, com velocidade incrível, envolvendo sacerdotes que, de fato, são celibatários apenas oficialmente.

 

Sob pressão, a Santa Sé costuma negociar

 

     A bem da verdade, parece-me que tudo pode acontecer,oficialmente na Igreja, desde a negociação da Santa Sé com a  Fraternidade São Pio X, instituição fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre. Após esses acertos, celebrados quase que à socapa, aconteceram e acontecem distribuição de chancelas de direito pontifício a instituições católicas laicais e religiosas recém fundadas, até mesmo às que funcionam usando expressões de teologias neo-pentecostais.

     Após a reintegração da comunidade de Lefebvre  “cuja finalidade é o sacerdócio e tudo que se relaciona a ele, e só o que lhe concerne, tal como quis Nosso Senhor Jesus Cristo quando disse “fazei isso em memória de Mim” talvez fique menos difícil a reintegração dos sacerdotes casados no ministério.

     Com a atribuição aos dirigentes da Fraternidade do status de Prelatura Pessoal e independente das jurisdições ou das autoridades diocesanas, querendo ou não, a Santa Sé, abriu caminho para algumas atitudes para acolhimento de grupos católicos até agora considerados separados, excluídos ou até mesmo heréticos.

     Então, qual é a natureza dos "escrúpulos" ou dos “cuidados” que levam a Santa Sé a ignorar ou a recrudescer suas resistências contra pedidos e reivindicações dos sacerdotes católicos que se casaram? O que o casamento de clérigos e a legislação que mantém o celibato como obrigatório têm a ver com a natureza da Igreja? 

 

A Santa Sé agiu segundo interesses discutíveis?

 

     Para solucionar os problemas decorrentes de caprichos que todos bem conhecemos, basta a disposição pontifícia, como a do Papa João Paulo II que aos 18 de janeiro de 2001, através do Decreto “Animarum Bonum” criou a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, afirmando que “O bem das almas é a suprema lei e o fim da Igreja, a qual, pela vontade de Deus, deve salvar os homens na unidade de uma aliança de um novo povo constituído em seu sangue; pois o Cristo Jesus deu a sua vida para reunir todos os homens numa só família (cf Jo 11,52) da qual a Igreja é “para todos e cada um, sinal visível dessa unidade de salvação ( Lúmen Gentium,9)”

     No mesmo documento encontram-se as seguintes afirmações que comprovam a necessidade da vontade política da Igreja para solucionar os problemas eclesiais, sem prejuízos da doutrina e da salvação:

     “Para receber na plena comunhão da Igreja Católica os membros da União “São João Maria Vianney” de Campos, no Brasil, o Sumo Pontífice João Paulo II, por sua CartaEcclesiæ Unitas”, 25 de Dezembro, quis reconhecer de direito a peculiaridade da União “São João Maria Vianney”, reconduzindo-a numa devida forma jurídica mediante a constituição de uma Administração Apostólica, de natureza pessoal, cujos fins serão os mesmos da Diocese de Campos, no Brasil, para que, seus membros devidamente inseridos no corpo da Igreja, possam cooperar, em comunhão com o Sucessor de Pedro, para a difusão do Evangelho.

      I – Por mandato especial do Sumo Pontífice, por Decreto da Congregação para os Bispos, é constituida a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, que abrange exclusivamente a Diocese de Campos, no Brasil, equiparada pelo direito às Dioceses imediatamente sujeitas à Santa Sé.

      II – Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, rege-se pelas normas do direito comum e por este Decreto e está sujeita à Congregação para os Bispos e aos demais dicastérios da Cúria Romana, segundo as atribuições de cada um.” (...)

 (cf. Portal da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney)

 

 

 

 

           O que é a Igreja, segundo o Vaticano II

     A Igreja é o recôndito do amor do Coração de Jesus e não a justaposição de pessoas consideradas individualmente. Por isso o cristianismo não é religião individualista que induz mulheres e homens a se relacionarem - singularmente - apenas em linha direta com Deus, sem levar em consideração a comunhão fraterna e sem necessidade de participação comunitária com o Corpo Místico de Cristo.  Evidentemente, as pessoas podem relacionar-se com Deus, sem o reforço de sua comunidade, pois não necessitam de outro intermediário que o Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus e Enviado do Pai. Para não incorrer em  riscos de falhar na expressão fundamental da Igreja como comunidade, foi que o Concílio Vaticano II, na Eclesiologia que Constituição Dogmática Conciliar “Lumen Gentium”,  apresentou a Igreja como realidade divina,  indivisa e em processo de desenvolvimento, de ampliação e de vivência, tanto como Mistério quanto como Sacramento.

As duas características são essenciais

     Estas duas características, assimiladas ou não por representantes de todas as correntes ou tendências católicas no pós-concílio [fase que se arrasta há quatro décadas e meia e externa insegurança por parte da própria Santa Sé, quanto as posições dogmáticas do próprio Concílio, que lhe desagradam], não podem ser cerceadas. A realidade deste desagrado induz à urgência de re-visão filosófica e teológica até mesmo do que se deve entender por comunidades essencialmente cristãs e por comunidades que - por força de circunstâncias históricas - em termos logísticos se estabeleceram como católicas e, em termos estratégicos firmam-se até hoje no esforço da administração centralizada das ações pastorais, a rigor, realidades que são instrumentos de gestão que asseguram o cumprimento do "regimento institucional", a paz convivente e o desenvolvimento comunitário organizado.

Inexistem cristãos sem Igreja

 

     Análise fria dos documentos preparatórios que funcionaram como subsídios para reflexões e como parâmetros para as discussões das proposições teológicas [ às vezes contraditórias]dos padres conciliares, demonstra, com nitidez,  que as "modulações" foram mínimas quando das considerações a respeito da integralidade da tradição e da diversificação no que era acidental no ensinamento cristão de vinte séculos. A essência do contexto evangélico ficou intocada, pois ela é a realidade que garante que tanto em seu íntimo pessoal como no contexto comunitário de cada indivíduo há a certeza de que é impossível a existência de cristãos sem Igreja. Nascemos, crescemos e participamos do cristianismo em uma comunidade que - com evidência maior ou menor - nos insere no encontro com Cristo tanto no nível histórico como no místico ou espiritual.

     A comunidade eclesial, considerada em suas diferentes famílias e formas de expressões de fé, esperança e caridade cristãs, multiplica as maneiras de entendimento  da própria vida humana em todas as suas dimensões culturais. Esta realidade incontestável, se bem que incômoda para os que não entendem os sinais dos tempos, em nada diminui a realidade essencial das revelações do Cristo Palavra e do Cristo Sacramento.

     Também nas diferenças de formas das expressões humanas, é na Igreja que se faz a transmissão da fé, já a partir do nascimento da criança em família cristã que determina seu direcionamento e o tipo de desenvolvimento da qualidade da própria fé pessoal.

 

Orientações seguras e básicas

 

     Queiramos ou não, na uniformidade ou na pluralidade de expressões eclesiais, todos os cristãos somos irmãos de Jesus Cristo e filhos de uma tradição, de uma família, de uma comunidade que nos situam e nos convidam a procedermos segundo os fundamentos evangélicos, colocados à nossa disposição, com um elenco de orientações seguras e básicas a respeito de valores e de normas de conduta.

     As diferenciações das circunstâncias eclesiais que - queiramos ou não - envolvem conversão e compromisso com o Evangelho, duas bênçãos decisivas por suas influências dogmáticas e morais na formação e consolidação de nossas formas pessoais e livres de compreendermos a vida e de testemunharmos nossa missão cristã nas múltiplas e diferentes Igrejas marcadas pela autenticidade essencial e  pela tradição apostólica.