Peixes não vivem fora da água
O diálogo católico- ortodoxo
À vista dos seguidos insucessos desses eventos oficiais e solenes, [que mais se assemelham a negociatas profanas que a preocupações espirituais e pastorais de dirigentes da Igreja de Jesus Cristo], realizados entre autoridades representativas da Santa Sé e da Igreja Ortodoxa, passo a entender melhor a extensão das aflições que levam gente do MPC a peregrinar por portas estranhas, rogando por exercício de ministérios, mesmo sob autoridade ou jurisdição de bispos de procedências duvidosas ou de comprovações frágeis.
Embora eu não aceite como de alta qualificação evangélica e pastoral a espiritualidade do "programa missionário" do arcebispo Emanuel Milingo, admito que seus resultados possam tornar-se positivos, com vistas à possíveis [embora não previsíveis] alterações nos procedimentos da Igreja Latina quanto à obrigatoriedade do celibato para os bispos e presbíteros.
Há urgência de posicionamentos firmes e bem definidos também para a indispensável superação dos "procedimentos irregulares e nefastos" decorrentes das atitudes que se multiplicam, com velocidade incrível, envolvendo sacerdotes que, de fato, são celibatários apenas oficialmente.
Sob pressão, a Santa Sé costuma negociar
A bem da verdade, parece-me que tudo pode acontecer,oficialmente na Igreja, desde a negociação da Santa Sé com a Fraternidade São Pio X, instituição fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre. Após esses acertos, celebrados quase que à socapa, aconteceram e acontecem distribuição de chancelas de direito pontifício a instituições católicas laicais e religiosas recém fundadas, até mesmo às que funcionam usando expressões de teologias neo-pentecostais.
Após a reintegração da comunidade de Lefebvre “cuja finalidade é o sacerdócio e tudo que se relaciona a ele, e só o que lhe concerne, tal como quis Nosso Senhor Jesus Cristo quando disse “fazei isso em memória de Mim” talvez fique menos difícil a reintegração dos sacerdotes casados no ministério.
Com a atribuição aos dirigentes da Fraternidade do status de Prelatura Pessoal e independente das jurisdições ou das autoridades diocesanas, querendo ou não, a Santa Sé, abriu caminho para algumas atitudes para acolhimento de grupos católicos até agora considerados separados, excluídos ou até mesmo heréticos.
Então, qual é a natureza dos "escrúpulos" ou dos “cuidados” que levam a Santa Sé a ignorar ou a recrudescer suas resistências contra pedidos e reivindicações dos sacerdotes católicos que se casaram? O que o casamento de clérigos e a legislação que mantém o celibato como obrigatório têm a ver com a natureza da Igreja?
A Santa Sé agiu segundo interesses discutíveis?
Para solucionar os problemas decorrentes de caprichos que todos bem conhecemos, basta a disposição pontifícia, como a do Papa João Paulo II que aos 18 de janeiro de 2001, através do Decreto “Animarum Bonum” criou a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, afirmando que “O bem das almas é a suprema lei e o fim da Igreja, a qual, pela vontade de Deus, deve salvar os homens na unidade de uma aliança de um novo povo constituído em seu sangue; pois o Cristo Jesus deu a sua vida para reunir todos os homens numa só família (cf Jo 11,52) da qual a Igreja é “para todos e cada um, sinal visível dessa unidade de salvação ( Lúmen Gentium,9)”
No mesmo documento encontram-se as seguintes afirmações que comprovam a necessidade da vontade política da Igreja para solucionar os problemas eclesiais, sem prejuízos da doutrina e da salvação:
“Para receber na plena comunhão da Igreja Católica os membros da União “São João Maria Vianney” de Campos, no Brasil, o Sumo Pontífice João Paulo II, por sua Carta “Ecclesiæ Unitas”, 25 de Dezembro, quis reconhecer de direito a peculiaridade da União “São João Maria Vianney”, reconduzindo-a numa devida forma jurídica mediante a constituição de uma Administração Apostólica, de natureza pessoal, cujos fins serão os mesmos da Diocese de Campos, no Brasil, para que, seus membros devidamente inseridos no corpo da Igreja, possam cooperar, em comunhão com o Sucessor de Pedro, para a difusão do Evangelho.
I – Por mandato especial do Sumo Pontífice, por Decreto da Congregação para os Bispos, é constituida a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, que abrange exclusivamente a Diocese de Campos, no Brasil, equiparada pelo direito às Dioceses imediatamente sujeitas à Santa Sé.
II – Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, rege-se pelas normas do direito comum e por este Decreto e está sujeita à Congregação para os Bispos e aos demais dicastérios da Cúria Romana, segundo as atribuições de cada um.” (...)
(cf. Portal da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney)
O que é a Igreja, segundo o Vaticano II
As duas características são essenciais
Inexistem cristãos sem Igreja
Análise fria dos documentos preparatórios que funcionaram como subsídios para reflexões e como parâmetros para as discussões das proposições teológicas [ às vezes contraditórias]dos padres conciliares, demonstra, com nitidez, que as "modulações" foram mínimas quando das considerações a respeito da integralidade da tradição e da diversificação no que era acidental no ensinamento cristão de vinte séculos. A essência do contexto evangélico ficou intocada, pois ela é a realidade que garante que tanto em seu íntimo pessoal como no contexto comunitário de cada indivíduo há a certeza de que é impossível a existência de cristãos sem Igreja. Nascemos, crescemos e participamos do cristianismo em uma comunidade que - com evidência maior ou menor - nos insere no encontro com Cristo tanto no nível histórico como no místico ou espiritual.
A comunidade eclesial, considerada em suas diferentes famílias e formas de expressões de fé, esperança e caridade cristãs, multiplica as maneiras de entendimento da própria vida humana em todas as suas dimensões culturais. Esta realidade incontestável, se bem que incômoda para os que não entendem os sinais dos tempos, em nada diminui a realidade essencial das revelações do Cristo Palavra e do Cristo Sacramento.
Também nas diferenças de formas das expressões humanas, é na Igreja que se faz a transmissão da fé, já a partir do nascimento da criança em família cristã que determina seu direcionamento e o tipo de desenvolvimento da qualidade da própria fé pessoal.
Orientações seguras e básicas
Queiramos ou não, na uniformidade ou na pluralidade de expressões eclesiais, todos os cristãos somos irmãos de Jesus Cristo e filhos de uma tradição, de uma família, de uma comunidade que nos situam e nos convidam a procedermos segundo os fundamentos evangélicos, colocados à nossa disposição, com um elenco de orientações seguras e básicas a respeito de valores e de normas de conduta.
As diferenciações das circunstâncias eclesiais que - queiramos ou não - envolvem conversão e compromisso com o Evangelho, duas bênçãos decisivas por suas influências dogmáticas e morais na formação e consolidação de nossas formas pessoais e livres de compreendermos a vida e de testemunharmos nossa missão cristã nas múltiplas e diferentes Igrejas marcadas pela autenticidade essencial e pela tradição apostólica.