Manaus, 31 de outubro de 2007
Prezado Sr. Mário Palumbo:
Agradeço de coração a sua gentileza de ter colocado no seu site a resenha do Livro “Enfrentando com Fé a doença de Alzeimer”, feita com carinho pelo amigo Dr. Vitório Cestaro, que pela sua grandeza de coração, se solidariza com a nossa luta. Na oportunidade, aproveito para contar-lhe um pouco sobre nossa vida aqui nesse Amazonas tão distante.
Sou casada com o holandês Petrus Jacobus Schaeken que pertenceu a Congregação dos padres do Espírito Santo, e trabalhou durante 16 anos em paróquias do interior, pertencente à Prelazia de Tefé-Am. São 38 anos de vida conjugal, sempre trabalhando em harmonia, uma família sustentada no amor, união, partilha, responsabilidade, respeito e trabalho. Porém, não faltaram, as dificuldades, tendo que enfrentar as doenças que sempre chegam de surpresa.
Nossos filhos passam muito bem, com saúde, trabalho e, junto com os netos nos dão muitas alegrias, carinho, amor e assistência. Louvado seja Deus por termos tido condições de criar nossos filhos para serem bons cristãos e bons cidadãos, úteis à sociedade: Êmina Maria Gil Schaeken Rosseti, bancária, casada com Delane Leitão Rosseti, comerciante, e têm dois filhos: Dujiane (16 anos) e Delane Vinícius (13 anos); Annie Maria Gil Schaeken, funcionária pública federal, casada com José Benedito de Oliveira Silva, prático, e têm duas filhas, Atália (7 anos) e Alicia (5 anos) e está esperando a 3ªfilha no mês de janeiro; Pierre João Schaeken, auditor, casado com Edneide Freitas Martins Schaeken, funcionária pública federal, e têm três filhos: Petrus Jan (10anos) ,Petrus Iago (6 anos) e Petrus Igor (4anos).
Moramos aqui em Manaus desde o ano de 1994 e, logo tivemos que lutar contra o câncer de mama, sendo necessário fazer a mastectomia total, e insuficiência renal, igualmente necessário fazer a nefrectomia; ambos do lado esquerdo. Venci o câncer e os outros problemas. Graças a Deus estou com boa saúde .
No dia 02 de agosto de 2002 o Petrus teve derrame cerebral (AVC) e ficou três dias no hospital. A conseqüência é que ele ficou com o cérebro muito afetado e pelos tantos exames feitos, foi diagnosticado Alzheimer ou mal de Alzheimer, uma doença que ainda não tem cura
À medida que os dias e meses se passavam, aumentavam as nossas preocupações, uma vez que ele não tinha mais interesse em olhar televisão, ler livros e jornais, fazer suas orações e ir a Igreja. À noite quase não dormia, atrapalhando, também, o meu repouso. Levantava-se várias vezes, abria o guarda-roupa, pegava algumas peças de roupas dizendo que ia para casa, muito embora eu lhes falasse, que ali era nossa casa. Acendia a luz do quarto, abria a janela, mesmo o ar condicionado estando ligado. Porém, a maior preocupação era o fato de estar perdendo o seu peso, e os complementos vitamínicos não estavam agindo, porque ele já apresentara dificuldade para deglutir, e, por algumas vezes, jogava-os fora. Assim, começamos a triturar os comprimidos. Notávamos que ao deglutir, se engasgava e tossia muito. Por mais que tentássemos fazê-lo engolir, ficava sempre mais difícil. Por isso, iniciamos o uso de seringa para facilitar a deglutição de alimentos e medicação. Vez por outra, levamos ao Pronto Socorro para tomar soro. Por duas vezes, caiu. A primeira vez cortou a fronte, que recebeu seis pontos, e, a segunda vez, caiu por cima das cadeiras, arranhando o nariz e o lábio superior.
O ano de 2005 foi muito pesado para nós. Petrus ficou no hospital, tratando de pneumonia, por duas vezes. No final de outubro passou muito mal e foi levado para a UTI . Vencemos a primeira batalha e, iniciaram os problemas quanto ao uso de sonda naso-gástrica (sng), depois sonda naso-enteral, que vai até ao duodeno e, porque arrancou quatro vezes, foi colocada a sonda de gastrostomia via endoscópica, no dia 17 de fevereiro do mesmo ano e, com muito êxito. Agora o Petrus é o nosso bebê, depende totalmente de mim; está restrito ao leito, recebendo as alimentações e medicações através de sonda. Os filhos são nota 10 e, tudo fazem pelo pai e, igualmente por mim, e por isso temos 4 pessoas trabalhando em casa; duas diretamente para cuidar do Petrus, pois se não fosse assim eu não estaria de pé. Procuro ocupar o tempo, quando não fico no hospital, com leituras, pesquisas, pensando em próximos livros, anotações, orações e bordando trabalhos bonitos em ponto cruz e em vagonite. O último trabalho literário “Enfrentando com fé a doença de Alzheimer”, foi lançado no dia 05 de agosto de 2006, quando celebraremos os 80 anos do Petrus. O trabalho foi bem aceito e, posteriormente divulgado pelo jornal “Ciência e Cultura da Editora Ser, em Brasília, DF. ; a revista Ultimato da Editora Ultimato, em Viçosa, MG. Muitas pessoas de diversas cidades do Brasil fizeram pedido do livro e gostaram muito.
O que nos fez abordar um assunto sobre uma doença do conhecimento de poucas pessoas, é pelo fato da referida doença ter entrado de súbito em casa, atingindo o nosso patriarca: um bom marido, um pai sempre presente, um avô carinhoso, um cristão católico atuante de muita fé, um amigo atencioso. E por que resolvemos colocar em linhas esse assunto? Simplesmente para passar aos caros leitores, as nossas experiências vivenciadas no decorrer de cinco anos e, algumas orientações, pesquisadas em revistas, livros e na internet, que certamente, ajudarão as pessoas que tiverem que conviver com paciente portador do mal de Alzheimer.
Desde o início do mês de março do ano em curso, ele vinha tendo crise respiratória. No dia 23, orientado pela sua médica, ele foi levado ao hospital. Hora melhorava, hora piorava. No dia 29 de março, foi levado às pressas ao CTI, sendo entubado e ficado em coma induzido. Fomos avisados de que o quadro era muito grave. Fizeram traqueostomia e colocaram-no no respirador, onde foi melhorando aos poucos, surpreendendo os médicos do CTI.
Passados dez dias no CTI, ele foi removido para o apartamento. Entretanto, ficou sempre tendo crises, agora com o problema da cânula da traqueostomia que obstruía.
Dia 15 de abril, apresentou forte crise respiratória, voltando ao CTI. Após quatro dias, retornou ao apartamento, estando ora melhor ora pior, quando fomos informados da notícia de que ele estava com infecção hospitalar, sendo necessários dez dias de tratamento com antibióticos.
Depois de termos passado sessenta e três dias no hospital, voltamos para casa, na tarde do dia 24 de maio, com nosso guerreiro vitorioso de mais uma batalha. Os dois primeiros dias, em casa, ele passou mal, mas foi melhorando aos poucos e, hoje, o quadro dele é estável e temos esperança de que ainda possa sentar na cadeira de rodas. Porém, somos conscientes de que no estado em que se encontra, só Deus poderá decidir o que é melhor para ele. A nossa fé e confiança no Deus Poderoso nos dão forças para cuidarmos dele com amor e carinho como bem merece, nos esforçando sempre para que nada lhe falte.
Este estado acamado de Pedro preocupou-nos um pouco mais, porém, motivou-nos a ter mais confiança em Deus e a obtermos forças e ânimo que superassem a nossa fraqueza física. Assim, os cuidados foram redobrados. Muitas vezes, para nossa alegria (esposa, filhos e netos), conseguimos colocá-lo na cadeira de rodas. Mas isso, agora, não dá mais, pelo menos por enquanto, e nem sabemos se a melhora de suas funções orgânicas chegará com os próximos dias ou se vai ainda demorar.
Ao seu lado está o oxigênio, que é ligado quando necessário, assim como um aparelho para aspirar. Tem à sua disposição duas cuidadoras, que estão sempre ao seu lado. O fisioterapeuta vem visitá-lo diariamente, aplicando-lhe exercícios respiratórios e motor. A sua médica, que é muito atenciosa; qualquer alteração no quadro clínico, orienta-nos pelo telefone. Estamos sempre atentos para que nada lhe falte. São muitas as pessoas amigas que se solidarizam conosco em oração e através de palavras de conforto. Os filhos, amorosos e zelosos pelo restabelecimento da saúde do pai, estão presentes nas emergências, direcionando as providências necessárias, pois, mesmo que ele não fale ou, quem sabe, até não os reconheça, a sua presença deixa-os felizes, com os netos podendo abraçar com carinho o avô.
Mais uma vez , receba os meus cumprimentos e agradecimentos pela sua atenção.
Raimunda Gil Schaeken ( e-mail : rgilschaeken@vivax.com.br