From: e.hoornaert@yahoo.com.br
To: padrescasados@grupos.com.br
 

 ANIMAÇÃO

 

Caros colegas, prezadas colegas,

Vejo que a conversa entre nós está ficando animada, com as colocações de Miro, Rogério, Bismarck e Brown, livres e originais. A proximidade do encontro de Recife certamente colabora para isso. Estamos nos comunicando pela internet, um espaço de liberdade, como deve ser. Então quero também escrever algo sobre o que acho ser o mais importante num encontro entre padres casados.

Penso que o mais importante consiste em realçar entre nós a auto-estima. Pertencemos àquela parte da humanidade que chega a tomar decisões pessoais na vida. Muitos passam a vida sem nunca tomar uma decisão realmente pessoal de grande importância, que muda o rumo da vida. Afinal, fizemos dois passos importantes que nos distinguem da maioria das pessoas: primeiramente decidimos nos ordenar, por encontrar nisso um espaço para a realização de nossa missão; em segundo lugar, fomos capazes de perceber a falácia da lei do celibato e por isso tivemos a coragem de deixar o clero, sem contudo romper com nossa missão. Uns tomaram essa decisão após dez anos de ordenação, outros (como eu) após 28 anos. Afinal, optamos por ser desobedientes e isso faz nossa originalidade dentro de uma igreja que sempre nos ensinou a obedecer. Fomos capazes de distinguir entre obediência no sentido certo e no sentido errado, o que não é fácil. Nossa opção deliberada de não obedecer continua sendo o núcleo incompreendido ou pelo menos frequentemente mal compreendido, mesmo entre alguns de nossos amigos. Compreendemos que a obediência 'sem comentário' é a base do poder autoritário e que o poder se assenta sobre a docilidade (o silêncio, a conformidade) das pessoas. Maquiavelli dizia: 'O homem é um ser disponível', uma grande verdade. Tanto a TV Globo como a revista Veja sabem disso. Os bispos também. Há no ser humano uma certa 'disponibilidade' em aceitar sem reclamar o que outros pensam. É mais facil aceitar sem pensar do que assumir as consequências do pensar. Pensando, rompemos com a formação no seminário que é uma grande escola de obediência 'cega' (sicut cadaver). Sei de um superior de seminário que dizia: 'quem obedece nunca erra' e percebi na geração dos padres antes de mim (ordenei-me em 1955) uma obediência ainda mais cega. Afinal, o processo de desmantelo da idéia autoritária na igreja começou depois da segunda guerra mundial e foi vivamente ativado pelo Vaticano II. Sempre admirei Dom Helder, com quem trabalhei 18 anos, mas sempre estranhei sua visão da obediência. Ele ficava doente quando chegava uma crítica de Roma, mas não reagia. Mas temos de compreender que Dom Helder se ordenou em 1930, em tempos de entre-guerra (retomada do espírito restaurador católico). Dom Helder praticou uma obediência usque ad mortem, não podemos criticá-lo por isso mas, de outro lado, temos de compreender que os tempos evoluíram.  Temos de compreender que, antigamente, muitos entravam no seminário numa idade muito jovem (alguns em idade infantil), antes do despertar da sexualidade e da personalidade propriamente dita. Hoje percebemos que, em todos os setores da vida (economia do mercado, comunicação em massa),  a docilidade é a base do poder e que a humanidade vai enfrentar tempos duros se o espírito de desobediência e de crítica não ficar avivado. Daí a importância dos padres casados: eles têm de mostrar como e por que desobedecer. Senão, o povo ficará sempre passivo e deixará Bush enviar suas tropas ao Iraque, desmoralizar Chavez e Morales e qualquer liderança que surgir na América latina, capaz de ajudar o povo a pensar. Pois o ser humano, além de ser inteligente (e por vezes brutal), tem também algo de cordeiro. Gosta de ser comandado, sente dificuldade em tomar decisões. É mais fácil assim. Gosta de admirar os 'grandes', os que mandam. Falta-lhe respeito por si mesmo. Nós não fizemos assim. Tomamos uma decisão em idade madura, preferimos a liberdade e assim conhecemos melhor a Jesus. Reavivar essa consciência é a tarefa principal de um encontro de padres casados, no meu entender. 

Nossa opção pela desobediência foi uma opção madura, fruto de uma profunda mutação interior. Para muitos de nós, o casamento decorreu no espaço de liberdade que nós nos permitimos (por vezes muito tempo antes de pensar em casamento). O casamento teria sido impossível sem a opção anterior pela liberdade e um sadio amor próprio. Pois abandonamos o masoquismo embutido na explicação da regra evangélica: ‘amar os outros’, que nos foi incutida no seminário. Era 'amar os outros' sem ‘amar a si mesmo’, enquanto a bíblia diz: 'amar os outros como se ama a si mesmo'. Sem amar a si mesmo é impossível de verdade amar a outro(a). Um padre paraibano, em tempos de concílio, me disse: 'Por tanto tempo amei aos outros, agora vou amar a mim mesmo'. Isso me fez refletir. Transgredir a disciplina da igreja, enfrentar um multissecular tabu sexual, descobrir a sexualidade como fonte de felicidade é um passo de grande importância, não só no nível pessoal, mas também no nível da consciência humana em geral. Nesse sentido o movimento dos padres casados constitui um passo para frente na consciência humana como tal (independentemente da igreja), pois ajuda a perceber que as instituições são falhas e que as doutrinas mais insistentemente afirmadas resultam ser as mais duvidosas. Abandonar o clero não significa renunciar à missão, mas quebrar quadros institucionais baseados em autoritarismo e corporativismo. A missão se torna mais universal, atinge mais a sociedade como um todo, deixa para trás o cheiro de sacristia. O padre casado tem a força moral de resistir a insinuações maldosas de que ele estaria 'errado'. O bispo de minha terra natal, sabendo que eu ia casar com uma viuva, disse-me: 'É provado que casamento de padre com viúva não dá certo'. Eu não sofri, senti pena desse homem tão talentoso e ao mesmo tempo tão pequeno. Senti minha liberdade ante a prisão do bispo. Por isso nunca senti mágoa nem pensei em quebrar o elo com a igreja. Cada vez que visito minha terra natal, vou visitar o bispo e sinto como isso atua positivamente (por vezes estranhamente) sobre secretários e padres que andam pelos corredores. Eles sentem acanhamento diante de nossa liberdade e demonstram como a vida nas cúrias diocesanas é frágil e enganosa.

Afinal, penso que nossos encontros servem para reavivar a convicção de que pertencemos a uma grande tradição cristã, que começou exatamente com a clericalização da igreja e atravessou os séculos criando mil iniciativas de resgate de liberdade e dignidade humanas.

Eduardo Hoornaert.

PS Por gentileza, correspondam comigo pelo yahoo, não mais pelo ig. Vejam acima. Obrigado.