ENTREVISTA
DE LEONARDO BOFF
PARA REVISTA ÉPOCA.
Há quinze anos, o frei franciscano Leonardo Boff era um dos mais ativos teólogos brasileiros. Principal formulador da Teologia da Libertação, que empolgou rincões latino-americanos nas décadas de 70 e 80, pregava o engajamento de religiosos em movimentos sociais. Dizia que a Igreja era obra dos homens, não de Deus, e defendia o ecumenismo. Foi tachado de marxista. O Vaticano também reagiu a suas teses. O livro Igreja, Carisma e Poder, escrito por Boff em 1984, foi censurado num traumático processo movido pela Congregação para a Defesa da Fé, o antigo Santo Ofício. O franciscano foi condenado a se calar. Deprimido, abandonou o sacerdócio. Hoje, aos 61 anos, barba e cabelos grisalhos, o catarinense de Concórdia adaptou-se à vida de homem casado. Fora do alcance do Vaticano, continua defendendo as mesmas idéias que o condenaram ao silêncio obsequioso. Não se acha um apartado do rebanho. Informa que mantém a audiência de outrora no clero e não poupa a hierarquia da Igreja de críticas contundentes. Divide o tempo entre a casa em Petrópolis, onde preserva uma biblioteca de 20 mil volumes, e as conferências no Brasil e no Exterior. Autor de 67 livros, acrescentou novas idéias à Teologia da Libertação. Defende o respeito ao meio ambiente como forma de alcançar a harmonia com Deus. Na semana passada, Boff recebeu ÉPOCA para a entrevista a seguir:
ÉPOCA:Quinze anos depois do castigo, o senhor guarda mágoa
da Igreja?
Boff:Nunca guardei mágoa, Deus me poupou desse sentimento.
Guardo decepções. A Igreja, em sua estrutura e mentalidade
feudais, não quer mudar e ser contemporânea.
ÉPOCA: Sua fé foi abalada?
Boff: Meu irmão, o teólogo Clodovis, leu meu livro
Igreja, Carisma e Poder e disse: Se Roma não te condenar, é
sinal de que está decrépita ou morta. Roma me condenou de
acordo com a lógica de um sistema que não tolera críticas
nem aceita alternativas. Nunca me angustiei. Fui coerente comigo e com o que
acho do Evangelho. Roma foi coerente com sua ideologia totalitária.
ÉPOCA:
O senhor tem amigos em Roma?
Boff: Continuo sendo um teólogo ativo, e não um subdiretor
da Coca-Cola em algum subúrbio, como o Vaticano gostaria que fosse.Falo,
prego, celebro e escrevo. Acompanho, na maioria das vezes com indignação,
o que ocorre em Roma. Tenho bons amigos lá dentro que me apóiam.
Fazem isso com discrição. Têm medo de ser punidos.Quando
o Vaticano diz algum absurdo, meus amigos cardeais e arcebispos, brasileiros
inclusive, me ligam e dizem: Boff, nós não podemos
falar, então, fale você!
ÉPOCA: O senhor pretende publicar um relato pessoal da briga com
o Vaticano? O que falta contar?
Boff: Quero fazer, sim, um relato pormenorizado, porque o caso é
pitoresco e picaresco. Não são muitos os que tiveram a honra
de sentar-se na cadeira de Giordano Bruno e sobreviver à fogueira. Quando
vou a Roma, sempre presto homenagem a Giordano Bruno.
ÉPOCA: O senhor diz que o tempo provou que sua tese sobre o ecumenismo
era a correta. A Igreja, por meio do cardeal Joseph Ratzinger, reafirma o postulado
de que o catolicismo é a única religião legítima.
As divergências continuam?
Boff:
O cardeal Joseph Ratzinger deveria ser afastado do cargo que ocupa. Ele escandalizou
os cristãos e ofendeu os pobres ao condenar o ecumenismo e vetar a maior
participação das mulheres nas decisões da Igreja. O problema
é que o Vaticano não sabe para onde mandá-lo. A Igreja
alemã não o quer na Alemanha. O melhor lugar para o cardeal seria
uma abadia trapista, daquelas bem rigorosas, com muitos jejuns e penitências,
preparando-o para o Grande Encontro. Que os pobres, nossos juízes, o
tenham em sua misericórdia.
ÉPOCA: Que perfil terá, em sua opinião, o sucessor
de João Paulo II?
Boff: Espero que o futuro papa rompa com a tradição de
João Paulo II. Do ponto de vista da teologia, o papa tem sido um flagelo.
Ele deveria ter se empenhado em tornar as pessoas mais compassivas, solidárias,
ternas, fraternas, mesmo as que professam outras religiões. Até
para que elas tenham mais cuidado com a única casa comum, o planeta Terra.
Jesus batizou essa casa como o Reino de Deus. Não a chamou de Igreja
ou religião.
ÉPOCA: O senhor vai à missa?
Boff: Sou um cristão indignado, mas piedoso. Sinto grande saudade
da missa solene que rezava todos os domingos com o coro dos Canarinhos de Petrópolis,
não raro em latim e sempre com muito incenso.
Nas comunidades de base, e entre cristãos emigrados da instituição,
mas não do Evangelho, continuo a celebrar, batizar, casar e enterrar
os mortos. O último amigo que enterrei, a pedido dele próprio,
foi Darcy Ribeiro.
ÉPOCA:
O casamento atrapalha a vida do sacerdote?
Boff:
O celibato atrapalha muito mais que o casamento. O matrimônio faz o padre
mais sensível aos problemas dos outros, porque os vive na própria
pele. Ao celibatário é imposto um modo de ser que o torna distante
do mundo real. Isso só se presta a uma Igreja que não quer dividir
poder com ninguém, nem com mulher, filhos e família.
ÉPOCA: O senhor é favorável à ordenação
de mulheres para o sacerdócio?
Boff: Toda teologia séria, hoje, diz que não há
objeção à ordenação de mulheres. A objeção
é ideológica. O patriarcalismo da hierarquia católica quer
uma sociedade de homens para manter privilégios injustamente acumulados
ao longo da História.
ÉPOCA: Como o senhor reage ao veto da Igreja Católica ao
uso de preservativos?
Boff: Considero uma irresponsabilidade e uma inimizade com a vida. Mas
não me surpreendo. Em fóruns internacionais, o Vaticano sempre
vota questões relacionadas à família e à sexualidade
ao lado das piores companhias: os xiitas, os fundamentalistas, os reacionários.
ÉPOCA: Os templos estão mais cheios em todo o mundo. O
senhor acredita que a espiritualidade esteja em alta?
Boff: Há uma volta do místico e do religioso. Há
também a miséria generalizada, que provoca fuga para o Além.
Se não podemos contar com mais ninguém neste mundo, podemos, pelo
menos, contar com Deus. A religião é o refúgio dos condenados
à impotência social. Mas não é tão-somente
o ópio do povo. Ela se torna um fator de libertação quando
o fiel percebe que Deus não quer a fome e a miséria.
Época: O ecumenismo é o caminho para a paz entre os povos?
Ele pode fazer frente ao fundamentalismo?
Boff: As religiões fazem guerra. As espiritualidades trazem paz.
Vejo uma única saída para a paz religiosa: que as religiões
se auto-superem. Na espiritualidade, todas as religiões se encontram
em harmonia. Quando tentam se expressar nos códigos culturais, surgem
então as guerras religiosas.
ÉPOCA: O senhor tem esperança de ver a paz vigorar no Oriente
Médio? Boff: Nenhuma. Lá estão as três religiões
mais belicosas da História da humanidade: o judaísmo, o cristianismo
e o islamismo. Enquanto não se derem conta de que todos na Terra somos
o povo escolhido de Deus, a guerra continuará. Até o Juízo
Final.
ÉPOCA: Como o senhor vê a expansão dos evangélicos
no Brasil?
Boff: Saúdo a expansão dos evangélicos, porque sou
a favor de todo tipo de diversidade. Diversidade é sinal de riqueza.
Quanto mais animais, plantas, pássaros e culturas, melhor. E ainda há
gente que tem o mau gosto de pensar que todo mundo deveria ser romano-católico.
ÉPOCA: O que o senhor pensa do Movimento de Renovação
Carismática,com seus pastores de multidões?
Boff: Isso significa um novo paradigma religioso. É um movimento
no qual a experiência possui mais centralidade que a doutrina. A espontaneidade
prevalece sobre a rigidez. Dentro da Igreja, os carismáticos representam
a quebra do monopólio que padres e bispos tinham sobre a palavra e os
ritos. Nesse sentido, é bom. Por outro lado, pelo fato de se assentar
mais sobre a emoção, o movimento se presta facilmente a entrar
no mercado do entretenimento para multidões.
ÉPOCA: É o caso do padre Marcelo Rossi?
Boff: É o caso dos padres midiáticos com seus shows-missas.
Devido à lógica da mídia, eles apenas conseguem apresentar
um cristianismo anêmico e superficial, feito de alegria e parcos apelos
à justiça e à transformação social. Vira
um entusiasmo de bobo alegre.
ÉPOCA: O senhor se sente, hoje, mais próximo ou mais distante
de Deus?
Boff: Eu o sinto próximo e dentro de mim. Depois que Deus se fez
homem no judeu Jesus, descobrimos que somos também Deus por participação.
A maioria dos cristãos não tem consciência disso. E a Igreja
quase nunca prega essa verdade.