ENTREVISTA DE RUTH ESPOSA DO SAUDOSO PADRE JOSÉ DIAS
1) O que o Padre José Dias foi e é na sua vida?
José
foi e é a presença de Deus encarnado na minha vida
2)
Como vocês se conheceram?
José, morando no Seminário
Sacramentino em Monte Santo, veio a São Sebastião do Paraíso, minha cidade natal,
e, vizinha de Monte Santo. Ele estava coordenando um movimento de catequese
infantil, com o objetivo de suscitar vocações sacerdotais. Esteve no Grupo Escolar
(nome antigo da hoje escola fundamental ), para combinar com a diretora da escola
como trabalhar a catequese. A diretora mandou me chamar achando que eu seria
a pessoa indicada para encabeçar o que estava sendo proposto. Assim nos conhecemos.
3)
Como vocês chegaram à decisão do Casamento?
Trabalhamos 8 anos
juntos e juntos crescemos na fé, acompanhando o caminhar e as conclusões do
Concílio Vaticano II. Fomos nos apaixonando cada vez mais pela Igreja que o
Concílio pregava.
Terminado o Concílio
José assumiu o trabalho da Pastoral de Juventude que veio substituir a JEC.
Agora não só para descobrir vocações sacerdotais, mas, para acompanhar a educação
para a fé entre os jovens. Sem dúvidas foi nossa paixão por uma Igreja nova
e não vivida, que nos conduziu ao casamento.
4)
O que mudou na vida de vocês?
Em termos cristão de fé, amor, e esperança nada mudou. Pelo contrário
incentivou-nos mais a viver o amor incomensurável de Deus por nós.
Em termos de estilo
de vida tudo mudou, mais para ele, porque agora
não apenas eu tinha que trabalhava para garantir o pão nosso de cada
dia e a sua partilha com os empobrecidos e com os filhos que foram chegando.
5)
O que representava e o que representou o ser padre para o José antes e depois
do casamento?
Antes do casamento só José poderia responder. Porém como
companheira amada e amante que fui, tentarei responder. Antes do casamento o
sacerdócio para José era uma missão de serviço a qualquer necessitado, questão
de justiça.Porém assessorado por um poder hierárquico que ele como simples professor
e servidor público jamais logrou ter. Diga-se de passagem para sua maior felicidade.
Depois do casamento viveu para servir seus irmãos organizando a categoria a
que pertencíamos, trabalhando para que a justiça do trabalho fosse respeitada
por patrões e empregados através de Sindicatos.
6)
Como ele vivia o sacerdócio
antes e depois do casamento?
Antes do casamento vivia o sacerdócio com inteireza.
Era solidário e muito fraterno. Jamais tive tempo para si. Doava-se inteiramente.
Isso me fez aceitá-lo como esposo, pois, como era um excelente padre poderia
ser um excelente marido e não errei na minha percepção.
7)
Que significou para o José ser padre e esposo, ser padre e pai?
Ser padre um serviço
de amor ao próximo. Ser esposo um serviço de amor mais completo. Ser pai maior
identidade com Deus Pai nosso. José após se decidir para o casamento jamais
se preocupou em ser padre. Sempre quis ser um leigo autentico. Ser serviço,
ser amigo, ser fraterno, ser bondoso, querer repartir, desprendido , um esposo
amante um pai amantíssimo.
8)
Na vida eclesiástica
o José tinha alguma especialidade
pastoral?
Tinha. Tornou-se coordenador da comunidade do Bairro
9)
Isso terminou com o casamento?
Não. Pelo contrário,
fez da nossa casa ponto de encontro de jovens, hoje velhos e fiéis amigos. Realmente
criamos uma Igreja doméstica.
A Comunidade não agüentou a idéia de justiça que ele tinha.
A Comunidade queria construir e ele queria repartir.
10)
Qual a visão do Cristo para o José na sua vida eclesiástica
e depois na sua vida matrimonial?
Para José, Cristo,
tanto na Igreja como na família foi
é e será o filho de Deus feito Homem, origem do amor de Deus por nós,
Aquele que santifica a humanidade.
11)
Como foi o seu relacionamento com Cristo na família?
O melhor possível,
fraterno amoroso e misericordioso.
12)
O que você representou na vida
do José?
Em certa ocasião ele me disse que eu era a aproximação de Deus na sua vida.
13)
A Ruth modificou algo na personalidade do José?
Penso que não modifiquei. Apenas incentivei a bondade e a sensibilidade na sua
vida.
14)
A união de vocês valeu? Por que?
Valeu muito! Juntos
vivemos a misericórdia, o perdão o amor na sua plenitude. É por isso que hoje
a saudade dói demais.
15)
Qual a herança o José deixou para vocês
e para outros?
José foi um profeta. Abria caminhos novos , viveu e morreu pela justiça. Viver pela justiça é a nossa herança.
ENTREVISTA DE TELMA SPAGNOLO
Apresentação.
Meu nome é Telma Spagnolo. Sou carioca, casada com Fernando Spagnolo e temos 2 filhos, Victor de 22 anos e Thiago de 20 anos. Trabalho como médica pediatra e homeopata há 18 anos. Atualmente no serviço público em uma cidade satélite do Distrito Federal.
2)
Como e quando conheceu seu marido?
Conheci o Fernando há 27 anos, quando ele veio do Maranhão para fazer um Mestrado no Rio de Janeiro. Ele é Italiano e era amigo do padre da paróquia que eu freqüentava. Nos casamos em 1980 e viemos morar em Brasília.
3)
Na vida familiar, ser casada com um padre muda algo em comparação a outras
famílias?
Acho que quando nos conhecemos talvez o fato de ele ser padre possa ter influenciado no sentido de achá-lo mais maduro, mais culto, que outros homens que conhecia. Tive alguns problemas de consciência no início e também tivemos dificuldades ao lidar com algumas pessoas muito críticas, dentro da comunidade. A maioria das pessoas, no entanto, achava, e ainda acha, natural que os padres se casem.
Após o casamento creio que as dificuldades foram e são as mesmas de todo casal, que tenha uma perspectiva cristã, com altos e baixos decorrentes do próprio relacionamento a dois.
Nossos filhos cresceram sabendo que o pai tinha sido padre e encararam isto com naturalidade, sem traumas ou problemas de convivência. Não escondemos de ninguém este fato, pelo contrário, às vezes fazemos questão de dize-lo.
4)
O fato de ter se casado com um padre mudou ou influenciou a sua vida?
Acho que a vida religiosa ajudou os padres a serem um pouco menos machistas do que era a maioria dos homens há 30 anos atrás. Acho que isto foi um fator positivo para que nossa relação fosse melhor, pois sempre me senti livre e apoiada para realizar meus planos e seguir meu caminho, tanto pessoal quanto profissionalmente.
5)
Como esposa de padre e mãe
de filhos de padre, você acha ter uma vocação especial no Reino de
Deus? Qual?
Após ter me apaixonado por um padre e depois ter casado com ele, muitos foram os questionamentos e as reflexões sobre a Igreja – suas leis, o celibato, a vida sacerdotal, a vocação, etc. Em relação à religião sou bastante crítica, embora não tenha me afastado das práticas religiosas. Procuro também outras formas de cultivar minha espiritualidade e os valores cristãos e do evangelho em meu dia a dia, buscando dar meu testemunho nos relacionamentos em nível pessoal e profissional.
Por muitos anos tenho participado do Movimento dos Padres Casados (MPC) por acreditar que temos uma contribuição a dar para a renovação da nossa amada Igreja.
6)
Celebrando o Dia Internacional da Mulher – Quais as conquistas da mulher
na Igreja Católica hoje?
Nas últimas décadas a mulher conseguiu grandes avanços na sua participação dentro da sociedade. Infelizmente este avanço foi muito pouco expressivo na Igreja, que continua a tratar a mulher como “auxiliar de segunda categoria”.
Acredito que temos a missão de trazer o “feminino” cada vez mais para este mundo e, de modo particular para dentro da Igreja, pois continua sendo uma das instituições mais masculinas e machistas que conhecemos. Não se trata de competir com os homens ou tentar substitui-los, mas de reconhecer as qualidades que são próprias da mulher e valorizar mais o lugar que ela pode ter na Igreja, assim como está tendo na sociedade.
ENTREVISTA DA SÔNIA ESPOSA DO PADRE PAULO LÚCIO JORGE
DE VITÓRIA:
1) Meu nome é Sônia Heitor Lúcio, tenho 44 anos, sou casada há 21 anos com o Pe. Paulo Lúcio e temos duas filhas: Paula, com 20 anos, e Renata, com 15. Conheci meu marido padre quando ele foi designado pelo bispo para ser vigário da paróquia em que eu morava. Quando o vi pela primeira vez não acreditei que ele era padre. Embora nunca tivéssemos nos visto antes, sentimos um amor tão grande pelo outro que dava a impressão de já nos conhecermos há tempos. Foi paixão e amor que aconteceu conosco a um só tempo. Meu marido era profundamente admirado pelo trabalho que fazia. Todos o amavam muito. Até hoje, 21 anos passados, quando vamos a antiga paróquia dele, o povo não sabe o que faz. O povo ainda o ama e admira, pelo que ele foi e pelo que ainda é. Mas o meu amor por ele foi diferente. Também o amor dele por mim foi diferente. Sempre, desde o início, tivemos certeza de que era Deus quem nos unia. Sem aquela de pecado, tentação etc. Como o clero costuma ver o relacionamento de um padre com uma mulher. Nosso sentimento era nobre, forte, profundo, mais forte que a morte, por isso só podia ser de Deus. Por essa razão o Paulo conseguiu superar todas as barreiras e dificuldades, inclusive de doença. Se o nosso amor não fosse muito forte acho que ele não teria vivido. Somos felizes e se fosse o caso faríamos tudo de novo, sem nenhum remorso, pois o nosso amor é de Deus.
2)
O
fato de ser casada com um Padre, tem um significado diferente ?
Posso
dizer que Paulo é tudo o que sempre sonhei para marido: honesto, fiel, sincero,
amigo, companheiro. Ele é diferente ... Peço a Deus todos os dias para que minhas
filhas encontrem um “Paulo” na vida delas.
3)
Na
vida familiar, muda algo em comparação de outras famílias?
Sim.
O Paulo não é marido nem pai ditador, mas homem do diálogo. Em nosso lar conversamos
muito. O diálogo entre marido e esposa e entre pais e filhas tem dupla mão.
Deve
pesar com certeza o fato de sermos uma família sacerdotal, o diálogo com Deus
pela oração é muito intenso. A reflexão bíblica e a oração está na base de todas
as nossas conversas e ações.
4)
Após
o casamento, a ligação com Cristo do seu marido-padre continuou?
Sim,
prova disso é o ministério que ele continua exercendo com a mesma fé, ou até
maior, que antes. Nós estamos com ele nesse agitado barco da Igreja. A luta
dele por uma igreja renovada é a nossa luta. Esposa e filhas comungamos do mesmo
ideal do marido e do pai. É Jesus que nos dá esta força.
5)
O
que você como esposa representa na vida do seu marido?
O
Genesis narra que quando Adão despertou do sono e viu a mulher ao lado dele,
exclamou: “Eis aqui agora o osso dos meus ossos e a carne da minha carne ...
“. Esta mesma alegria eu e meu marido experimentamos a cada manhã quando despertamos
e nos olhamos. Eu, como Eva foi para Adão, sou a companheira que Deus deu a
ele, e vice-versa. “ Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá
à mulher, e serão dois numa só carne” (Gn 2,23-25). É um mistério muito grande
que só Deus sabe explicar. Só sei dizer que sinto exatamente como está escrito:
apesar de sermos duas pessoas, eu e o Paulo somos uma vida só.
6)
O
que mudou ou influenciou na vida dele?
Mudou
absolutamente tudo. Ele sempre teve certeza de sua vocação de servir a Deus.
Lutou e estudou muito para alcançar isto. Em um segundo sua vida tomou rumos
totalmente diferentes, devido à imposição do celibato da Igreja. Quando nos
casamos, os colegas que sempre o adoraram como padre, simplesmente, viraram
as costas e se esqueceram de que ele também era homem, um ser humano. O início
foi muito difícil, mas ele não perdeu a fé e hoje somos muito felizes com nossa
família, porque nos amamos e nos respeitamos.
7)
Ele
ainda se sente padre?
Sim,
com muito realismo e não com saudosismo. Tudo o que ele faz na comunidade em
que vivemos, faz como padre. O importante é que todos sabem disso e os que participam
conosco aceitam-no como Padre Casado.
8)
Você
não sente remorso de ter “tirado” um padre da Igreja?
Responderei
a esta pergunta com uma frase de São Paulo: “Por ventura não temos nós direito
de levar por toda parte uma esposa cristã ...” (1 Cor 9,5).
Não
sinto remorso nenhum, pois sei que não o tirei da Igreja; foi ela própria quem
o excluiu.
9)
Como
você influencia na vida do padre-marido?
Sou
a sua maior incentivadora e o apoio em todas as suas decisões. Para melhor compreensão
devo distinguir dois momentos da vida de meu marido, como padre, dentro da Igreja,
nas celebrações litúrgicas, sou uma fiel porque ele é o sacerdote. Presto toda
a discrição possível pois é assim que entendo que deve ser. Afinal. Ele é o
padre, ouve confissões de todos, ensina e admoesta, prega, instrui ... também
sou fiel. No campo social, nas suas lutas contra a fome e por justiça social,
sou sua companheira, e estou com ele em todos os lugares. O lugar que escolhemos
para trabalhar é dos mais violentos do mundo, segundo a ONU. A periferia de
Vitória é muito violenta, porque é muito abandonada. Estou lá com ele, como
sua companheira de todas as horas.
10)O fato dele ser padre é algo de pouca importância ou essencial na vida dele?
Com
certeza é algo de essencial. Ele nunca duvidou da sua vocação. Por isso nós
todos lutamos com ele, porque isto é a vida dele. Ele só não nasceu para ser
sozinho, sem família. Ser padre é essencial para ele, mas ele só consegue ser
bom padre porque tem o equilíbrio de uma família. Portanto, as duas coisas são
fundamentais para ele.
11)Como esposa de padre e mãe de filhos de padre, você acha ter uma vocação especial no Reino de Deus? Qual?
Veja,
por muitos anos, até o último Concílio, se pensou que a Igreja fosse o Reino.
Confundia-se a Igreja com o Reino. Segundo ouço meu marido ensinar, a Igreja
faz parte do Reino, está no Reino, mas não se confunde com ele. O Reino é mais
amplo, mais dilatado, não tem fronteiras nem limites. Por que digo isto? Muito
simples: a Igreja não reconhece a mulher do padre- como não reconhece muitas
outras coisas que são do Reino – mas sinto que o meu trabalho, como o de muitos
outros anônimos, é que fazem dilatar as fronteiras do Reino. Quando eu e meu
marido vamos levar uma cesta básica para uma família que está passando fome,
o marido foi atropelado e está todo machucado sobre uma cama e o filho mais
velho foi assassinado, as pessoas me dizem assim: “Obrigado, Deus lhe pague!”
Na Igreja quem governa é o Papa. No Reino quem manda é Deus.
12)Você é feliz de ter casado com o padre?
Extremamente
feliz.
13)Se pudesse voltar no tempo, casaria de novo com padre?
Com
toda a certeza. Passamos por muitas dificuldades, mas graças a Deus e o amor
e a vontade de ficarmos juntos são maiores que todos os obstáculos.
Sonia
Maria Heitor Lúcio
Vitória – ES