Entrevista com Padre Gisberto Antonio Pugliesi.
Ora et labora: O Senhor é um padre
e cônego meio diferente. Para nós é padre pouco clerical
e cônego pouco canônico. Explique isso para nós.
Padre Gisberto: Lembro-me que o Direto
Canônico foi feito não para atrapalhar, mas para ajudar. Direito
"Pro Bono Animarum" para o bem das almas das pessoas. A maior lei,
a lei das leis está no Evangelho: Amor. Deus é amor. Se a lei
que está diante de meus olhos veio para atrapalhar, venha de onde vier,
não importa, prefiro ficar com o Evangelho. Seremos julgados por Deus,
pelo amor maior ou menor, que tivermos exercido e praticado com irmão
no dia a dia. Amor vai de encontro do outro, do irmão. Não apenas
falar sobre o amor, mas fazer atos concretos de amor, de solidariedade. Não
adianta falar ao irmão: Vá em paz, alimente-se bem e se aqueça.
De que modo? Se eu não lhe der alimento, nem cobertor?
O evangelho tem que ser prático. Jesus primeiro fazia, depois falava.
Tinha razão São João quando dizia: "Aquele que fala
que ama a Deus que ele não vê, e não ama o próximo
que vê, é mentiroso".
Ora et labora: O Senhor deixou de ser pároco da Catedral (Ribeirão Preto) para servir os mais pobres da periferia e os encarcerados, Por quê?
Padre Gisberto: Deixei de ser Cura da Catedral
e não aceitei ser Vigário em nenhuma paróquia principalmente
por problemas de saúde. Mesmo estando na Catedral, sempre eu atendia
muitos pobres e ia visitá-los na periferia. Saindo definitivamente da
Catedral, senti-me mais livre para atender os pobres no dia e na hora que eu
quisesse, sem estar ligado a horários rígidos das Paróquias.
Fiquei também livre para colaborar com os padres, substituindo-os quando
quisessem sair de férias. Substituição também nos
dias da semana e durante o ano, assumindo algumas missas com horários
fixos, missas dos deficientes às 15 horas, durante vários anos,
batizados, atendimento aos doentes em suas casas e hospitais.
Trabalhei também vários anos com presos tanto nas cadeias de Ribeirão
Preto, como nas cidades vizinhas, cadeia de homens e de mulheres. Trabalho com
as famílias dos presos. Construímos algumas casas para ex-presidiários.
Sempre fiz tudo com muita naturalidade, baseado no Evangelho: "Estive preso
e você foi me visitar".
Ora et labora: O Senhor deixou a casa paroquial e vive junto a uma família constituída por um casal e dois filhos. Por quê isso?
Padre Gisberto: Tenho 44 anos de padre
e 72 anos de idade. Trabalhei 10 anos em Jardinópolis e 34 anos em Ribeirão
Preto. Nunca morei sozinho, sou o décimo terceiro filho. Uma de minhas
irmãs quando solteira, morou alguns meses comigo. Depois ela se casou
e uma família amiga morou comigo na casa Paroquial da Catedral. Um casal
e dois filhos. Quando sai da Catedral essa família me acolheu em sua
casa. São na verdade, meus parentes de fato, meus sobrinhos. São
tudo para mim e eu sou tudo para eles.
Vivo numa verdadeira família e não seria capaz de morar sozinho,
devido meu temperamento. O casal quando veio morar comigo não tinham
filhos e seus dois filhos nasceram na Casa Paroquial. Estão sempre presente
em minha vida. Eles me amparam tanto na saúde como na doença.
Levamos uma vida de verdadeira comunidade familiar.
Ora et labora: Alguns dizem que o Senhor exerce o papel de verdadeiro Bispo, pois quando há um padre em crise, dificuldade, doente o Senhor é o único a socorrer. O que move a fazer isso?
Padre Gisberto: De fato os padres em geral
são a minha preocupação. Quando um padre fica doente, faço
de tudo para estar sempre a seu lado. Se vai para o hospital e necessita de
uma cirurgia, eu vou ficar com ele durante todo o tempo que ficar internado.
Pode ser diocesano ou religioso, do mesmo modo eu me coloco a sua disposição.
Muitas vezes me faço de enfermeiro, até dando-lhes banho de cada
dia.
Outros padres estavam com crise de vocação: continuar ou não
o exercício do sarcedócio. Mesmo sendo padre de ordem religiosa
vieram morar comigo até se casar. Dou todo apoio e não me escandalizo
com nada. Só a Deus pertence o julgamento. Por que faço isso?
Sempre em meus 44 anos de padre coloquei como primeiro amor a presença
na vida dos padres tanto aqueles que estão no exercício do sacerdócio,
como aqueles que deixaram o ministério.
Ora et labora: O que o Senhor acha da Igreja hoje? Será que está perdendo fieis para os evangélicos?
Padre Gisberto: Hoje a Igreja se esforça
para abrir mais aos fieis, mas ainda está muito devagar. A igreja se
abriu muito com o Papa João XXIII. Com a morte de João XXIII a
Igreja se fechou muito e houve um enorme prejuízo. Então os evangélicos
se aproveitaram da situação e se expandiram muito. Conquistaram
muito terreno e muitos católicos passaram para igreja evangélica.
Culpa nossa, por pensarmos só em "Direito Canônico" e
deixamos de lado o acolhimento, a bondade com as pessoas. Os evangélicos
acreditaram nas palavras de Jesus: " ir de dois a dois pelas casas, evangelizar
os irmãos". Nisto afirmamos com certeza que os evangélicos
nos ultrapassaram nos deixaram para trás.
Nós católicos somos acomodados e fazemos pouco apostolado, de
pessoa para pessoa, de casa em casa e falamos que Deus está com a Igreja
Católica e assim continuamos acomodados.Afinal muitos que deixaram a
Igreja Católica não eram praticantes, e a mudança é
um verdadeiro progresso.
Ora et labora: O que o Senhor acha dos seminários?
Padre Gisberto: Nossos seminários ainda estão muito fechado, muito a gosto do Direito Canônico, falta a presença dos seminaristas nos finais de semana, para trabalharem nas paróquias, indo na periferia, para sentir as necessidades do povo e ver como eles vivem, como trabalham. Os pobres são muito desprezados, colocados sempre em último lugar. Normalmente, não fazem parte de nossos planos e projetos. E eles sempre foram os preferidos de Jesus. Temos tempo para tudo e para todos. Reuniões e mais reuniões. Longas orações. Muitas vezes nós parecemos mais com os fariseus. Para aos pobres de Jesus, não temos tempo. Deixamos sempre, para depois. Notamos que a formação de nossos seminaristas nos últimos anos após João XXIII tornou-se muito acadêmica, muito fora da realidade, muito teórico, muito Direito Canônico. Briga-se e se afasta o povo por causa de um curso. Se perde uma aula do curso de batismo, não se pode batizar a criança. Se a mãe é solteira, há padres que não batizam a criança e assim por diante. Nunca perguntamos se a mãe do Bispo fez cursinho para batizar seu filho.
Ora et labora: O que o senhor acha da ordenação de pessoas casadas e das mulheres?
Padre Gisberto: Acho natural e nada contraditório
ordenar pessoas casadas. Após o Vaticano II, a ordenação
de diáconos casados foi tranqüila e normal. Ninguém nunca
se escandalizou de participar de uma celebração dominical feita
por um diácono casado. Se este diácono tivesse se ordenado padre
participaríamos de sua celebração, sem nenhum escândalo.
Os viúvos ordenados padres, celebram missas e não nos escandalizamos.
foram aceitos pela Igreja e nós também os aceitamos. O mesmo acontece
com os padres Ortodoxos Maronitas e de outras denominações, casados
vão sempre para o altar com mulher e filhos, e nós não
nos escandalizamos e participamos de suas celebrações.
A presença da mulher na Igreja é de uma importância grande.
Não vejo contratidório uma mulher receber o Sacramento da Ordem.
Não encontro argumentos que exclua totalmente e de um modo claro da ordenação
de mulheres. Se Nossa Senhora tivesse celebrado uma missa, qual seria o problema?
Se uma Tereza D`Ávila, uma irmã Dulce, uma Tereza de Calcutá,
rezasse uma missa qual seria o sacrilégio? Será que no pensamento
de Jesus, quando Ele disse: " Fazei isto em minha memória..."
Ele teria só pensado em homens? E se uma de nossas catequistas celebrasse
uma missa, também ficaríamos escandalizados? E nossas freiras
que fazem cursos e dão cursos de teologia? Por enquanto só se
ordena padres homens, porque é apenas uma tradição na Igreja,
não é problema de fé. A tradição pode ser
mudada. Com o tempo poderemos ter sacerdotiza também.
Ora et labora: O Senhor tem amizade e relacionamento com os padres casados, ou o senhor faz como a Instituição, ou seja, como se não existissem?
Padre Gisberto: Sempre valorizei os Padres
Casados. Tenho um bom relacionamento com eles. Sempre lhes dei apoio. Há
mais de 30 anos já recebia em minha casa em Jardinópolis o Pe
Comarú e sua esposa Julia e seus dois filhos, um menino de 8 anos e outro
6 anos. Moravam no Rio de Janeiro. Vieram a Ribeirão Preto e ficaram
hospedados no Hotel Umuarama Recreio, no Jardim Recreio, perto da USP. Soube
que eles estavam no hotel e fui busca-los e ficaram em minha casa pelo menos
uma semana. Acabei sendo padrinho de uma das crianças, que eu mesmo batizei
na Igreja Matriz.
Sempre apoiei os Padres Casados tanto diocesanos como religiosos. Há
mais de 30 anos também, fui a Santo André no ABC paulista pedir
ajuda ao Bispo daquela cidade na época, D. Marcos de Oliveira, para conseguir
emprego para um Padre casado, Religioso Beneditino. Ele o empregou na Rodhia,
companhia de renome na época.
Acho absurda atitude da Hierarquia Eclesiástica de ignorar os Padres
Casados, como se eles não existissem. Há Pastoral para tudo na
Igreja, para drogados, casais separados, casais em segunda união, presidiários,
prostitutas, etc. E os Padres Casados? Por que são ignorados? Será
que nos incomodam? Não seria mais Evangélico uma acolhida fraterna
a todos Padres Casados, com suas famílias? E São Pedro, primeiro
Papa da Igreja, que era casado, por que nós aceitamos? Até poucos
anos atrás o Padre Casado era ex-comungado. Palavra muito pesada para
aquele que um dia fez opção de constituir uma família e
gostaria de receber o Sacramento do Matrimônio. Esse passado foi tão
recente. Eu via e visitava Padres Casados, que ficavam aguardando, quem sabe
uma doença grave, e pudesse casar na Igreja. Verdadeiro sadismo por parte
de membros de uma Igreja que se diz de Cristo. Será que isso agrada a
Cristo? Já houve com o Papa João XXIII uma abertura, aqueles que
quiseram se casar no civil, também se casaram na Igreja, embora hoje
já se dificultou novamente.
Ora et labora: O que o Senhor acha dos Padres Casados?
Padre Gisberto: Admiro a coragem e autenticidade dos Padres casados, que enfrentaram com coragem sua famílias, suas comunidades e paróquias quando resolveram se casar. Conforme nos diz São Paulo: "Melhor casar do que abrasar". Melhor casar do que levar uma vida dupla. Creio que sua autenticidade agrada mais a Deus, do que se arrastar uma vida inteira, porque não tem outro jeito.