Marcelo Barros OSB em corajosa carta aberta ao "Caro irmão João Paulo II".
O
monge Beneditino questiona o Papa a respeito da interpretação
da Eucaristia.
O amor e união dos cristãos, diz ele é presusposto e consequencia da Eucaristia.
A igreja vive do amor solidário ao povo e o sacramento é um sinal deste amor.
Parece que o ritual se sobrepuja ao verdadeiro significado da Eucaristia.
Em seguida a íntegra da carta reproduzida do Boletim Rede de Cristãos das Classes Média. Edição 125
Eucaristia:
Comunhão ou ato de exclusão?
Perguntas de um monge para o Papa
O
mundo inteiro noticiou que no dia l7 de abril, quinta-feira santa, o senhor
divulgou a sua 14 carta encíclica: Ecclesia de Eucharistía.
Nos últimos anos, o Vaticano publica tantos documentos que um a mais
não faria muita diferença. Mas, esta carta sobre a eucaristia
em sua relação com a Igreja está provocando muitos questionamentos
e sofrimentos em grupos ecumênicos e pessoalmente senti que represento
muitos cristãos ao procurar compreendê-la e conversar com o senhor
sobre isso. Por isso, tomo a liberdade de tecer sobre 9la alguns comentários
e lhe fazer algumas perguntas. Em primeiro lugar, quero agradecer e valorizar
o seu testemunho de fé e de amor ao ministério. E bom saber
como senhor interpreta a fé e a missão da Igreja. E baseado
neste mesmo amor que tentarei resumir alguns pontos sobre os quais gostaria
de conversar como senhor:
1-A
Igreja vive da Eucaristia ou do amor solidário ao povo?
'A Eucaristia é o próprio núcleo do mistério da
Igreja" (n. 1). Isso é verdade no plano dos sinais. Os sacramentos
são sinais eficazes que contêm aquilo que eles sinalizam, mas
não deixam de ser sinais. Será que esta carta não confunde
o sinal com a realidade? Dizer que a eucaristia é o núcleo do
mistério da Igreja não é como afirmar que eixo do amor
entre duas pessoas é o carinho corporal? O núcleo do ministério
da Igreja é a eucaristia ou é a solidariedade, tradução
do termo grego ágape? Não é mais correto dizer que a
Igreja vive do amor solidário, serviço e testemunho ao Reino
de Deus e isso se expressa como sinal na eucaristia e nos outros sacramentos?
carta dedica um número (o 20) à relação entre
a eucaristia e a responsabilidade pela terra presente"i Diz que, no EvangeIho,
o relato do lava-pés ilustra o profundo significado do sacramento lembra
que Paulo chama de indigna"a comunhão de uma comunidade que participe
da Ceia em contexto de discórdia e de diferença pelos pobres
(Cf. 1 Cor 11). Entretanto, só toca nesta relação entre
eucaristia e justiça no final do capitulo 1, como se fosse conseqüência
da eucaristia e não o seu pressuposto fundamental. O que isso denota
como visão de Igreja e da fé?
2-A
Missa, sacrifício a que Deus?
Na carta, o senhor cita várias vezes o Concílio Vaticano II
e alguns documentos do magistério romano recente, mas a doutrina ali
expressa sobre a eucaristia é a do Concílio de Trento no século
XVI, que o senhor julga ser atual e propõe como referência dogmática
para Igreja toda (n. 9). Como o senhor está a par de todo o trabalho
teológico que, nos últimos séculos, tem sido elaborado
sobre a eucaristia, deduzo que o senhor, simplesmente, não acha importante
'sta evolução. Ao contrário, até na linguagem,
recua em relação ao vaticano II. Fala em "santo sacrifício
da Missa" e não na Ceia do Senhor, como chama os ministros de
sacerdotes e não de presbíteros.
teologia é clara: "A missão torna presente o sacrifício
da cruz. Não repete, nem o multiplica. O que se repete é a celebração
memorial"
(n 12). Se é assim, será que, hoje, a linguagem sacrificial
ainda é a mais adequada para expressara verdade do memorial? Não
está presa a uma cultura, presente no Novo Testamento, ligada ao judaísmo
da
época e a outras religiões? Como, hoje, falar de Deus Amor se
trata de um Pai
ri que precisa que o Filho morra para reconciliar-se com a humanidade? Será
que a fé não é mais ampla do que a explicação
da fé em conceitos teológicos, sempre ligados a uma cultura
determinada? Porque impor a todos uma interpretação da fé
como se fosse a própria fé, principalmente quando esta forma
de falar da eucaristia já não diz nada a muitos católicos
e nos divide dos irmãos de outras Igrejas que, no passado, já
foram por isso condenados Não seria mais de acordo com a fé
na eucaristia, seguir o conselho do papa João XXIII e afirmara fé
de um modo que una os irmãos não nos dívida?
3-Celebração
eucarística dominical e celíbato
O senhor insiste em que a eucaristia é essencial e depende do sacerdote
ordenado que a celebra. Repete que as comunidades não podem celebrá-la
sem o padre e que os cultos domniicais sem padre não substituem a eucaristia.
No Brasil, são milhares de comunidades católicas que, cada domingo,
não têm padre e fazem o culto da Palavra. O senhor sabe por que
todas estas comunidades não têm
um padre e por algumas recebem visitas duas vezes por ano. É por que
o senhor não abre mão do celibato obrigatório e ordenar
presbíteros casados, dignos e preparado para ministério. E não
reconhece a validade do ministério de padres que casaram e, com alegria,
aceitariam exercer o ministério. Sem falar que, na América Latina,
a Igreja Católica é única das Igrejas ocidentais históricas
que não aceita ordenar mulheres. O que para o senhor é mais
importante: a eucaristia dominical, como o senhor ensina na encíclica,
ou manter como Ie obrigatória o costume latino do celibato obrigatório?
4-Ceia
de inclusão e de amor
O senhor liga a eucaristia à pessoa de Jesus para afirmar o seu
"sacrificio" mas não faz referência à sua vida
concreta. Não lembra como ele comeu com pecadores e com gente de má
vida. Lembra como norma que só pode aproximar-se da Eucaristia quem
estive
"livre" de pecado grave e nós sabemos o que a Igreja tem
considerado pecado grave. O senhor mesmo tem dado este exemplo em suas muitas
viagens pelo mundo. Em plena vigência da ditadura chilena, celebrou
a eucaristia no palácio presidencial e deu a comunhão ao General
Pinochet que, apesar do sangue derramado dos oponentes que ele pôde
trucidar, é casado na Igreja e é contra divórcio. O senhor
ensina que para comungar é preciso confessa e isso supõe a confissão
individual feita a um sacerdote ordenado Gostaria que o senhor me ajudasse
a descobrir esta exigência no Evangelhos ou mesmo nos costumes da Igreja
primitiva. O que eu leio é que Jesus diz: "eu vim para os pecadores
e não para os justos" Ele fez de suas refeições,
sinais de inclusão e de profecia d Reino de Deus que acolhe a todos,
especialmente os mais excluídos e deserdados. Por causa da noção
de sacerdócio que a nossa lgreja desenvolveu, o senhor repete o que
já aparecia na declaração
Dominus Jesus e distingue os cristãos uns dos outros. Só reconhece
como 'igrejas" as ortodoxas e chama as Igrejas evangélicas de
"comunidades eclesiais".E proíbe que católicos comunguem
em celebrações eucarístícas destas igrejas "para
não dar aval a
ambigüidades sobre algumas verdades da fé"(n. 44). O que
esta noção de Igreja tem a ver com a eclesiologia do Concílio
Vaticano 11 Como continuar o caminho ecumênico com mais este recuo?
Por que desconhecer e claramente desprezar os acordos ecumênicos feitos
entre algumas Igrejas? O Documento de Lima sobre batismo, eucaristia e ministério
(1983) é ignorado. O acordo com a Igreja Luterana sobre a justificação
é praticamente passado para trás. Por que? O que é mais
importante a clareza intelectual ou a caridade e c testemunho do amor? Será
que "a clareza sobre algumas verdades da fé"é mais
importante do que a acolhida mútua e a unidade real vivida por cristãos
que pensam diferente mas celebram com grande respeito e carinho o memorial
do Senhor, neste contexto de um mundo dividido e no qual as religiões
representam forças de oposição e não de unidade?
Li em uma revista italiana que esta carta teria sido especialmente dirigida
a católicos alemães que têm praticado a hospitalidade
eucarística e a intercomunhão. Inclusive, poucos dias antes
da
divulgação da sua carta, eles publicaram um importante documento
mostrando como tem sido válido este caminho deles. Como
só
tem sentido quando expressa a unidade já vivida. É interessante
que, neste campo do ecumenismo, o senhor insiste nesta exigência de
unidade já realizada quando não exige a mesma coisa ao falar
da justiça e do compromisso com a vida no plano social. Mas, mesmo
se este argumento é verdadeiro, porque não compreender este
caminho de alguns grupos como experiências piloto que podem ser úteis
à toda Igreja?
5-
"Recebemos do Senhor o que também ensinamos"
Afinal, com relação à Eucaristia, o que eu me comprometo
com o
senhor em crer e testemunhar? O que Paulo escreveu na carta aos coríntios:
que na noite em que foi traído, Jesus coou com os
discípulos e relacionando esta refeição com a ceia pascal
repartiu pão e vinho com os discípulos significando a entrega
da sua vida, a paixão que dali há poucas horas, iria viver Os
cristãos primitivos chamavam a eucaristia de "repartição
do pão"e certamente isso nã é por acaso. É
bom lembrar isso ao povo brasileiro neste momento em que o governo federal
propõe o Fome Zero.
"Comer é um gesto fundamental da vida. Para o povo bíblico,
as refeições têm um lugar considerável. Um elemento
cultural
fundamental para o israelita é o caráter relacional da refeição.
Isso aparece na bênção dos filhos reunidos em redor da
mesa (Sl128, 3) Na mesa, comendo com os três homens misteriosos que
o visitam, Abraão recebe o anúncio do nascimento de lsaac (Gn
18). Ena
mesa que Elcana reparte seus bens entre as duas mulheres e Ana resolve pedir
a Deus que a liberte da esterilidade (1 Sm 1, 1-8). En~ mesa que o levita
de Efraim procura reequilibrar os laços familiares abalados pela fuga
da sua mulher (Jz 19, 4-8). DavíeAbnerse
reconciliam em torno de uma mesa (2 Sm 3,20). É a partir da realidade
cotidiana do comer juntos que Deus se revela e nos diz o seu projeto'~. Antes
de dara palavra da aliança a
Moísés, Deus lhe dá o alimento e exige que o tomem 4
socialmente por família (Ex 16 e depois Ex 19)2.
Os rabinos ensinam: "Desde a destruição do templo, cada
mesa em cada casa tornou-se um altar" (Talmude, Pesachim 4b).
Mesmo no Novo Testamento, o Amém, a Testemunha fiel propõe-se
a tomar uma refeição com os fieis que escutam
sua
Palavra e abrirem para ele sua porta (Apoc 2, 3 e 14,20). As refeições
têm um lugar importante na vida de Jesus. E na refeição
que ele encontra mais profundamente Levi, o discípulo, Marta e Maria,
o fariseu Simão, Zaqueu, os discípulos de Emaús e outros
personagens do seu dia a dia. Estas refeições tomadas com seu
grupo têm tal importância que quando faltam, duas vezes, o Evangelho
relata a queixa: "Não tinham tempo nem de comer" (Mc 30 e
6, 31). E a primeira acusação que os adversários fizeram
cont Jesus foi: "Ele toma refeições com gente de vida errada"
(Cf. Lc
15,2).
"Nas refeições, Jesus se revela e revela um rosto de Deus"
(Jacques Guíllet3).
O Conselho Mundial de Igrejas e a Comissão Fé e Constituição
trabalharam anos e anos para chegara um consenso entre as lgrejas históricas
sobre Batismo, Eucaristia e Ministério. Conseguiram que as Igrejas
assinassem o 'Documento de Lima" (1983) no qual o capitulo sobre Eucaristia
começa assim: "As refeições que Jesus partilhou
durante o seu ministério terrestre, e das quais temos notícia,
proclamam e representam a proximidade do Reino: a refeição,
a comunhão do Reino foi posta em relação com a perspectiva
dos sofrimentos de Jesus. Depois de sua ressurreição, Senhor
manifestou a sua presença e deu-se a conhecerão seus discípulos
na repartição do pão. A eucaristia encontra-se, assim,
na linha da continuidade das refeições que Jesus tomou com os
seus significa a participação no ato de doar a vida a serviço
de todos como Jesus fez e testemunho do Reino de Deus'.
Talvez o senhor estranhe que eu não me refira ao sacrifício.
Trabalhando contra a pena de morte no mundo de hoje e procurando testemunhar
que Deus é Paz e dom de vida penso que devamos substituir esta categoria
do sacrificio por um equivalente que valori2 a doação de Jesus
aos seus e a fidelidade ao projeto do Pa~ a entregado sua vida a Deus e como
na cruz ele nos revelou uma noi face de Deus. Conforme o 4~Evangelho, quando,
no horto, ele pergunta aos soldados: "- A quem procurais?" e estes
lhe respondei 'L Jesus de Nazaré!' ele lhes responde com o NOME pelo
qual Deus se revela a Moisés na sarça ardente: "SOU EU'
ou "EU SOU"i E conforme o Evangelho, aqueles soldados que não
são especialistas em mística, caem aterrorizados diante do Nome.
Celebrara Ceia é testemunhar um Deus Amor que dá a sua vida
por todos os homens e mulheres, perdoa a todos e não exclui ninguém
da sua vida. Para mim, não existe plenamente Ceia do Senhor se mantemos
privilégios ou exclusões como a das mulheres nos serviços
ministeriais e dos leigos compreendidos como "menos capazes de consagrar"
do que os presbíteros ordenados. O sacrifício de Jesus se pode
ainda falar em sacrificio foi o da entrega de sua vida "pela unidade
de todos os filhos
e filhas de Deus dispersos pelo mundo" (Jo 11, 52). É o seu sacrifício;
que, como ensina Santo Agostinho, acaba com todos os sacrifícios. A
partir dele, não é mais, necessário - nenhum sacrifício.
"A nova aliança anunciada pelos profetas Ezequiel e Jeremias falam
do Espirito de Deus derramando em nossos corações, em tábuas
de carne no lugar de as pedra, mas não falam em sacrifício ou
sangue derramado. Veja isso em Jeremias, 31, 31 em diante e em Ezequiel. Com
muita felicidade, o senhor escreve em sua carta: 'Anuncia morte do Senhor
- " até que Ele venha " (1 Cor 11,26) incIui para os que
participam na Eucaristia, o compromisso de transformarem vida, de tal forma
que esta se torne, de certo modo, toda eucarística " (n. 20).
E mais tarde, cita 5. Agostinho, em uma o suas belas homílias para
os neo-batizados na noite da Páscoa:
apóstolo diz: " vós sois corpo de Cristo e seus membros
" (1 C 27). Se sois o corpo de Cristo e seus membros, é o vosso
sacramento que está colocado sobre a mesa do Senhor; é vosso
sacramento que recebeis " (1) " Cristo Senhor [...] consagrou a
mesa o sacramento da nossa paz e unidade " (n. 40).
6.
Pergunta final
Formado na teologia e espiritualidade do Concílio Vaticano II, reconheço
o senhor como bispo de Roma e primaz da unidade e as Igrejas mas não
como um super-bispo ou definidor da fé das pessoas. Aceito o primado
do papa como ministério querido por Deus, mas isso não incluía
nomeação dos bispos, nem a definição de um direito
universal, ou um catecismo de doutrinas dos católicos do mundo devam
crer. Porque impor a todas as igrejas modelo único de ministérios
e uma única liturgia: a romana? ,Não estaria mais de acordo
com a verdade da eucaristia promover a vida e a liberdade de todos? Seria
o testemunho: cremos que, assim como as muitas espigas formam um só
pão, Deus faz da diversidade das Igrejas e da variedade das celebrações,
a unidade de uma s comunhão.
Deixo ao senhor e aos irmãos que lerem estas linhas estas,perguntas
e fico orando por nossa Igreja para que seja como afirmaram, um dia os bispos
da América Latina: "uma Igreja autenticamente pobre e missionária
e pascal, desligada de todo o poder temporal corajosamente comprometida na
libertação de todo o ser humano de toda a humanidade" (Medellin.
5, 15 a).
O IRMÃO MARCELO BARROS