Igreja na Política
ROGÉRIO I. A. CUNHA - OUT/2003

Sempre houve padres investidos em cargos políticos, ou engajados na militância política. O número de padres e de religiosos ou religiosas na política nos últimos anos talvez tenha aumentado, e certamente se tornou mais visível. Não apenas pelo papel da Imprensa, que às vezes vê nisto um fenômeno novo, mas também por uma novidade de outro tipo. Participando na política institucional, tão intensamente como antes, muitos Padres Católicos e muitos agentes de outras Denominações Religiosas Cristãs têm tomado uma nova posição no quadro institucional.
Com a chegada dos navegadores às nossas costas continentais, já vieram os frades que plantaram a Cruz em nossas costas e realizaram a primeira celebração católica. A aliança entre a Igreja Católica e a Monarquia era o modo de ser de ambas, e quem se manifestasse contra ela, como Fr. Caneca e alguns outros, foi estigmatizado como rebelde e louco. Mesmo quando o Imperador, que tinha o poder de dar ou negar o beneplácito às ordens do Vaticano, se distanciava do Papa, o clero local se mantinha mais fiel ao poder local que a Roma. D. Frei Vital é que enfrentou o império, agarrando-se ao Vaticano.
A República herdou esta aliança da estrutura eclesiástica com a máquina do poder. Por algum tempo, apenas os Padres que aceitavam a Maçonaria conseguiam manter cargos políticos, e, aos poucos, os Protestantes de várias confissões, nomeadamente Luteranos, e, desde os anos 60, representantes de Igrejas Metodista, Presbiteriana, e Batista assim como de várias denominações Pentecostais têm feito companhia e por vezes concorrência aos Padres Católicos. A fundação da Ação Católica nos anos 30, e o surgimento dos Partidos Democratas Cristãos em vários países marcou uma virada. É papel e dever da Igreja tomar consciência do peso que ela tem na Política nacional e local. Ela já participa da Política, com ou sem explicitação consentida. O que o Evangelho exige é a definição das alianças que esta participação implica. Do lado de quais grupos sociais e políticos a Igreja se coloca, quando participa, quando combate, quando critica, quando estimula, quando proíbe, quando ordena?
Com isto o quadro se define melhor: o problema das presença ou não de religiosos na Política, como candidatos e administradores eleitos, não depende nem do Evangelho como mensagem universal, nem propriamente da posição que estes religiosos representam ou encarnam na militância e no exercício do poder. A linha divisória se dá por outros motivos. Getúlio Vargas não gostava da Igreja, por causa de sua mentalidade anticlerical e machista. "gente de saia não presta". O clero ainda era monarquista e rural, ou aliado de lideranças locais desinteressadas do poder central.
A Hierarquia Católica apoiou o golpe de '64, mas aos poucos a perseguição a lideranças católicas a levou a perceber a utilização de tortura, e, ao longo do processo, a posição nazista do regime então instalado. A emergência de grupos populares amadureceu a Teologia da Libertação e, com ela, a aliança de setores da Hierarquia com estes grupos e sua luta, não apenas contra um regime, militar ou não, mas em busca de uma política de autonomia nacional, de promoção dos Direitos Humanos, de afirmação da Dignidade do Trabalhador, de melhor distribuição de bens, terra e cultura, de respeito à ecologia. Como tudo isto contradiz fundamentalmente o capitalismo, especialmente em sua fase neo-liberal, esta aliança foi chamada de "esquerdização" da Igreja, ou das Igrejas Cristãs.
As dificuldades eclesiásticas frente à candidatura ou eleição de Padres e Religiosos ou Religiosas, se exprimem por vezes em termos eclesiásticos. O número de padres diminuiu, e esta 'saída' de padres para a Política causa mais problemas ainda. Outros dizem que ela corre o risco de reaproximar a Igreja de grupos poderosos locais, de quem ela não quer se afastar - porque são amigos e fazem doações -, mas que não pode apoiar, porque são clientelistas, corruptos, e despóticos exploradores da boa fé popular. Muitos bispos ainda têm receio de reconhecer ou apoiar a aliança com o povo emergente. Têm receio de que isto rompa a comunhão com Roma. O Papa é um Chefe de Estado com intensa atividade política mundial, mas isto cabe exclusivamente a ele. O poder, também político, só pode ser assumido ou exercido por quem já tem dentro da Igreja uma posição de Poder.
Assim, há, entre possíveis eclesiásticos candidatos, os que intentam restabelecer antigas alianças, há os que agem dentro da aliança com o povo emergente, há os que apenas ouvem a voz do povo que procura representantes que sejam diferentes dos chefes paternalistas que tem experimentado até agora. Cada qual encontra sua oposição.

 

PRESBÍTEROS NA POLÍTICA
"sempre estou esperando a profecia dos Presbíteros,
sem os quais nós bispos não teríamos asas para voar"

                                                 D. Antônio Fragoso


Na América Latina, especialmente no Brasil, a Igreja Católica tem uma tradição forte de sólida presença na sociedade, encarnada na vida e nos momentos históricos decisivos, mesmo quando isto custa incompreensões e dificuldades. Esta presença se torna visível e atuante nos seus agentes mais sensivelmente expostos à incompreensão e às dificuldades: OS PADRES. Um grau especial de incompreensão e dificuldade é experimentado quando se trata da presença política, seja nos processos políticos de luta pelo poder e seu exercício, seja nas lutas de procura de liberdade e de condições de dignidade.

POLÍTICA E CARIDADE


Desde o Concílio Vaticano II, reforçado por documentos posteriores, especialmente a carta "Evangelii Nuntiandi" de Paulo VI e muitos aspectos das encíclicas e alocuções de cunho social de João Paulo II, já é convicção comum e animadora que "a política, para os cristãos, é uma das formas mais nobres de fazer caridade".
Do ponto de vista construtivo, segundo o Concílio, trata-se de criar: "o conjunto daquelas condições que permitam aos homens, às famílias e às sociedades, conseguir mais fácil e desembaraçadamente a própria perfeição". (GS 74). Por isto, continua o mesmo documento, é "digno de louvor e considerações o trabalho daqueles que se dedicam ao bem da coisa pública a serviço dos homens e assumem os trabalhos deste cargo" (GS 75a)
Do ponto de vista corretivo, o Concílio adverte que, desde que "é desumano que a autoridade política incorra em formas totalitárias ou ditatoriais, que lesem os direitos da pessoa ou dos grupos sociais" (GS 75c), é necessário que "todos os cristãos, cônscios de seu papel próprio e especial na comunidade política" (GS 75e), "lutem contra a injustiça e a opressão, ou o absolutismo e a intolerância, seja dum homem ou dum partido político" (GS 75 f).
São portanto três os fundamentos que tornam justificada e obrigatória a participação de um católico na política: a própria "difícil e nobilíssima arte política", a necessidade de se opor a "formas totalitárias ou ditatoriais" e a "injustiça e a opressão", contra as quais se deve lutar.


PARTICIPAÇÃO POLÍTICA


O Concílio entende por participação política o esforço de estabelecer aquelas "estruturas jurídico-políticas que ofereçam sempre melhor e sem nenhuma discriminação a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente tanto no estabelecimento dos fundamentos jurídicos da comunidade política como na gestão dos negócios públicos, na determinação do campo de ação e dos fins de várias instituições, como na eleição dos governantes" (GS 75a ).
No que diz respeito a formas "totalitárias", lesivas dos direitos pessoais ou coletivos, o concílio adverte: "Os governantes acautelem-se de entravar as associações familiares, sociais ou culturais, as corporações ou organismos intermediários, nem os privem de sua ação legítima e eficaz" (GS 75b).
Quanto à opressão, o Concílio parece sutil, mas é claro: "Onde são oprimidos pela autoridade pública, que excede a sua competência, os Cidadãos não se recusem aquela colaboração objetivamente exigida pelo bem comum; contudo, realmente lhes é lícito defender os seus direitos e os dos seus concidadãos contra o abuso da autoridade guardados os limites traçados pela lei natural e evangélica" (GS 74 e).


A PROFECIA DOS PRESBÍTEROS


Dever de participação política, defesa do direito à organização e luta contra a opressão, constituem hoje um forte clamor que vem acordar "a profecia dos Presbíteros". Mais que nas décadas passadas, são hoje chamados a impedir que a inconsciência política ou a omissão os tornem servidores "de alguma ideologia ou facção humana" (PO 1161).
Diante do esforço calculado e patente do neo-liberalismo, se aniquilar as organizações populares e dos trabalhadores, o papel da "colaboração objetivamente exigida pelo bem comum", em defesa dos "organismos intermediários" é definido quando o povo pede a seus padres que o representem e liderem mesmo que subsidiariamente como mandatários políticos eleitos, na reconstrução das associações, corporações e organismos populares e dos trabalhadores, estraçalhados pela fome, pelo desemprego, pelas condições aviltantes de trabalho e habitação, e especialmente pela atividade avassaladora dos meios de comunicação inteligentemente articulados a "serviço de uma ideologia" fascinante, hipnotizadora, e nada sutil.
Não é infundado o temor da hierarquia, de que Padres inscritos nalgum partido se coloquem a serviço de ideologias facciosas. É entretanto sempre mais consistente o chamado a novas formas de exercer um mandato político, como recurso apto e legítimo para "pregar a fé, ensinar a doutrina social, exercer a missão e emitir juízo moral também sobre a ordem política" (GS 76e)
Trata-se, de fato, de pregar a fé num Deus "presente entre nós", que não tolera a ditadura ideológica dos meios de comunicação que instrumentalizam tantos padres. Trata-se de ensinar com o exercício político da autoridade constituída, que todos, sem discriminação nem exclusão, têm direito à participação e a condições de vida digna.


VOCAÇÃO ECLESIAL: CHAMADO À IGREJA


É fator constituinte deste direito o diálogo institucional de fé. Chamado pela parte privilegiada da Igreja que é o povo empobrecido, o Presbítero tem que concretizar sua consciência eclesial. O Espírito não chama simplesmente uma pessoa e lhe dá certas características, mas confia, com este chamado, uma tarefa salvífica a todo o corpo Eclesial. A comunhão interna que perfaz a Igreja se torna concreta quando o Presbítero solicitado pelo povo a assumir uma candidatura em nome da Ética e da dignidade divina dos seres humanos em sociedade, abre com seus superiores e irmãos o coração e o diálogo.
Ele não é chamado a se tornar um daqueles poderosos que dominam e se fazem chamar "benfeitores" (v Lc 22,25 e Prov 22,7), mas a contribuir para a organização histórica de uma sociedade em que todos possam ver o que acontece: "os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem", e, para os pobres a vida se torna uma boa notícia (v Lc 7, 22 e Mt 11,5).
Ele precisa de um tempo certo, determinado e reconhecido, para exercer esta modalidade de seu serviço. O superior e o colégio eclesial têm o direito de ouvir de sua boca um pedido explícito e fundamentado, e de esperar dele o compromisso de cumprir este tempo em fidelidade à sua vocação fundamental de Presbítero.
Terminado o mandato, o reassumir o lugar e o ministério eclesiástico concretiza o ensinamento de Lucas: "somos servos inúteis, fizemos apenas o que era nosso dever" (v Lc 17, 7-10).
Trata-se de refazer o tecido social estilhaçado ideologicamente pela fascinante beleza da invasão e manipulação cultural que escamoteia a exclusão e a fome.
Se os Padres, para sustento e enriquecimento próprio ou familiar, para manutenção digna das Dioceses e Congregações, como para exercício pastoral das próprias qualidades, podem ser fazendeiros, professores, médicos ou enfermeiros, agentes sociais, jornalistas ou advogados, porque não podem responder aos apelos do povo que precisa de líderes políticos cristãmente suculentos, socialmente atentos, pessoalmente solidários e queridos?
Certamente, onde há leigos aptos, as comunidades os chamam e assumem. Se elas preferem os Padres, a sua condição sacerdotal não pode, no mundo em transformação em que vivemos, ser um empecilho insuperável. Não é evangélico que sacerdotes se coloquem a serviço de ideologias e facções, mas é certamente evangélico que eles exerçam como serviço e sacerdócio o poder que vem sendo exercido como dominação pelos que "oprimem e se fazem chamar de benfeitores".

mariopalumbo@netsite.com.br

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