CELEBRET
Mario Palumbo
Também
nós somos Igreja e, como ela, só mudamos muito depois que o mundo
muda. Estamos amarrados aos nossos pequenos esquemas e mesmo quando a gaiola
se abre para os espaços do céu da liberdade continuamos a nos
questionar, mas ressuscitou mesmo? Será que posso desistir de circuncidar-me?
Já falei isso até para a revista "Hoc Facite" que tem
muitos mérito, mas
não deixa de implorar a autorização do Vaticano para que
nós, padres
casados, possamos celebrar ou administrar sacramentos. Depois de tantos
pedidos está na hora de deixar em paz o Vaticano e aguardar quando ele
quiser acordar!
O Espírito de Deus já escancarou as portas, primeiro com o nosso
Batismo
e, para quem tem consciência mais flexível, com o cânon 1335.
Na família, no trabalho,
com
os nossos amigos temos um campo imenso de trabalho. Se formos autênticos
espontaneamente,
sem precisar de investiduras e vestes especiais ,com certeza seremos procurados
pois tendo conosco
a paz de Deus, o pedido de receber o mesmo Deus será automático,
mesmo quando não expresso verbalmente.
Há muitos padres casados que visitam doentes, encarcerados, eu mesmo
até o ano retrasado, toda semana,
estava nas escolas e me encontrava com mais de 1500 alunos por semana. Não
sou nenhum santo,
mas os alunos me rodeavam procurando algo mais e este algo mais, é Deus,
que tentava transmitir.
O exemplo do Pe. Paulo de Vitória com o qual concelebrei está
ai. Já me pediram missa e quando achar
que a turma estiver mais preparada celebraremos a Palavra com o Pão e
Vinho sem incomodar a autoridade eclesiástica. Pedir licenças,
nestes casos, se o bispo não for bem evangélico, seria criar para
ele um
problema de consciência inutilmente.
Acredito que a nossa situação é até mais propicia
para a evangelização
do que para os celibatários e por isso dou graças a Deus. Nossos
colegas clérigos,
muitas vezes, não passam de meros funcionários de uma instituição
com o peso de 2000 anos
e quando procuram ser autênticos, entram em um forte dilema de como salvar
a simplicidade evangélica e as complicações eclesiásticas.
O diálogo com os bispos é necessário, mas mais a nível
de caridade do
que de disciplina clerical. Você, João, está de parabéns
pela procura do
diálogo!
Caro João e santa Sofia, se eu estiver errado me corrijam. Se acharem
que tem
algo certo passem para frente esta mensagem, quem sabe possa ajudar a
alguém. Há muita gente, padres casados e suas famílias,
de braços
cruzados esperando ou suspirando decretos papais, e assim se deixa
apagar o fogo que o Espírito acendeu em nós, através do
Batismo e da
Ordenação!
Há muita gente esperando que passemos Cristo para eles, a maneira não
interessa. Lembrem-se do Batismo e cânon 1335! Deixemos a epiqueia com
os
canonistas! Este cânon poderá ser eliminado e interditado pois
a
perfídia humana desconhece lugares sagrados e é sem limite. A
história
relata até que ponto podemos ser ridículos quando um papa, com
toda sua
pompa, chega a mandar exumar seu predecessor e solenemente excomungá-lo!
Apesar disso sabemos professar nossa fé: "Tu es Petrus..."
quando o galo
não estiver cantando e quando a "disciplina" eclesiástica
não estiver
"extinguindo" o Espírito! A obediência? Vários
santos usaram a
perspicácia, inteligência e até o confronto para poder obedecer
ao
Espírito (Consciência bem esclarecida), obedecer mais ao evangelho
do que às leis
eclesiásticas. São João Gualberto, quando percebeu que
não havia outro
recurso para mostrar a verdade ao Papa, não duvidou de transgredir a
lei
eclesiástica e apelou à prova do fogo. Já Francisco de
Assis, alheio a
qualquer honorificência, para poder continuar sua pregação
sem ser
perturbado pela leis canônicas, se fez ordenar diácono. O próprio
Cristo
foi o grande Transgressor... Seria interessante que Rumos ajudasse neste
sentido publicando exemplos da própria história da Igreja. Sobretudo
para mostrar, com fatos, que a Igreja somos nós todos e que cruzar os
braços, esperando mudanças, não passa de um comodismo covarde.
Será que esta excessiva preocupação com a celebração,
em nós, não se
confunde com a vontade de voltar a comer as cebolas das vantagens do
estado clerical?
Permita-me outra pequena reflexão: Não sou teólogo, nem
exegeta, mas me
parece que estamos voltando ao sacerdócio levítico e dando uma
importância exagerada à celebração ritual que, na
verdade, rende status
e dinheiro. Não é isto que ocupou o maior tempo de Cristo. Aliás,
me
parece que Ele passou a vida inteira preparando o momento mais
especifico da celebração com o serviço.
A celebração (que, para nós, culmina com a Missa) é
uma só: iniciou no
silêncio do Seio de Maria, teve momentos especiais na Ceia, Morte e
Ressurreição e continua no Seio do Pai.
Mesmo nos momentos mais específicos, como da Ceia, todo o ritual
revestiu-se de grande simplicidade: Não consta que Cristo vestiu roupas
especiais, nem efod, nem mantos, nem peitoral, com urim, tumim e
tampouco turbante...(veja Levítico 8,7 s). A única vestimenta
foi o
avental para frisar que para celebrar é preciso antes servir, e a
própria celebração é a oferta do Amor, a doação
efetiva da vida
para os irmãos. Não sou contra o ritual, mas contra o ritualismo.
Esta
reflexão é válida antes de mais nada para mim.
Se o desejo for puro, arregacemos as mangas e vamos à luta com o
exemplo de vida, o amor ao próximo no dia a dia. A pregação
verbal e a
celebração serão uma conseqüência e exigência
à qual deveremos atender.
Um abraço. Mario Palumbo.
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