From: Rogério de Almeida Cunha
To: Mario Plumbo

 

 

O Cala Boca do Rei!                  

 

                    Todo menino passou por isso ao menos uma vez: ter de encarar um valentão na escola. Todo mundo foi para o recreio passando por uma odisséia mental, temendo o moleque mais velho e mais forte, espancador de menores e  ladrão de merenda. Todos conhecem o tipo. E todos evitavam cruzar com ele, claro. Quanto maior a distância, menor o problema. Mas alguns usavam uma tática oposta: viviam puxando o saco do sádico mirim. Eram os baba-ovos de plantão, que compravam a simpatia dele com as adulações. Quando o valentão escolhia um deles pra extravasar sua violência natural, a saída do puxa-saco agredido era fingir que tudo não passava de uma brincadeirinha do amigão. Diminuía o tempo de surra e salvava as aparências. Assim o puxa-saco continuava amiguinho do covardão e tentava fazer com que os outros acreditassem que era apenas uma travessura. E afinal, quase nem tinha doído, gente. Semana passada Lulla riu de Hugo Chávez quando foi chamado de sheick da Amazônia e de magnata do petróleo, entre outras graves ofensas. Tudo televisionado. O riso nervoso, forçado, demonstrava claramente que Lulla tinha medo. Lulla morre de medo de Chávez, o valentão boquirroto. Lulla fez o papel de amiguinho para apanhar menos. Lulla foi ironizado, espezinhado, humilhado por Hugo Chávez , na Cúpula Ibero-Americana, ocorrida no Chile. Riu nervoso, quase histérico, para disfarçar a humilhação mundial que passava. Não ele, mas, aos olhos do mundo, todo o Brasil foi, de novo, agredido verbalmente pelo venezuelano. O mesmo que chamou nosso Congresso de papagaio dos americanos. O rei da Espanha não comunga desses pensamentos. Não agiu como Lulla, fingindo que era tudo brincadeirinha do amigão do peito. Não foi fraco, não foi pusilânime. Quando Chavez falou mal da Espanha e do ex-primeiro-ministro José Maria Aznar, chamando-o de fascista, ouviu o merecido cala-boca. O rei Juan Carlos, um homem educado, piloto aposentando da Força Aérea espanhola, fidalgo que bem representa seu país, deu seu recado ao ditador. E ao mundo: chega desse imbecil. Algo que não ouviu do presidente brasileiro! Lulla perdeu uma excelente chance de mostrar que não somos idiotas e que ele não é covarde. Estamos mal. Lulla riu (riu!) ao ouvir as ofensas ironicamente dirigidas ao Brasil e à sua triste figura, como se fosse um nobre cavaleiro Dom Quixote; digo, Sancho Pança. Moinhos que o digam. Cervantes foi honrado pelo seu rei. E nós fomos humilhados pelo nosso presidente, mais ainda que pelo falastrão venezuelano. É de chorar! Justamente quem deveria, pela força de seu cargo, defender o Brasil de Chávez, preferiu fingir que a pancada não doeu. Achou melhor assim. Lulla mostra as garras com os menores, como o jornalista americano Larry Rother, que relatou as paixões etílicas do presidente e quase foi deportado pelo "crime".   Com os mais parrudos, age diferente. Chegou a ficar amicíssimo de Fernando Collor, José Sarney e Orestes Quércia, a quem antigamente chamava de ladrões. Com Evo Morales não foi diferente. O boliviano espoliou e humilhou o Brasil invadindo militarmente a Petrobrás, com transmissão ao vivo pela TV mundial. Lulla fez que não era com ele. Como se a pedrada não tivesse atingido suas costas. O rei espanhol mostrou que tudo tem limite. Fez com Chávez o que Churchill fez com Hitler em 1938: avisou ao mundo o perigo que representa um tirano demente e armado até os dentes. Parece que Juan Carlos teve mais sucesso que o inglês em sua empreitada. O alerta foi ouvido. Europa cansou de Chávez. O rei disse o que muitos pensam, mas não falam. O venezuelano odeia a Espanha, um país que enriqueceu à custa de muito trabalho duro. Muito diferente da Venezuela, que empobrece a olhos vistos, não obstante as fortunas arrecadadas com a exportação de petróleo, cujos lucros vão diretamente para o ralo do populismo e da corrida armamentista. Na escola em que o rei Juan Carlos ministra aulas, Lulla ainda está no primário. E Chávez o espera no recreio, para roubar nossa merenda.             Fernando Montes Lopes   Advogado

Li este artigo, que recebi de várias pessoas, pensei, e não gostei. Não entro no mérito das poucas afirmações objetivas do texto, mas o estilo é marcantemente sintomático. É Um estilo inteligente e atraente, como denúncia, e que, por isto mesmo, esconde o objetivo real.

Em primeiro lugar, a grafia "Lulla" tem como objetivo identificar o Lula com a corrupção do Collor.

Em segundo lugar as atitudes escolhidas e a maneira depreciativa de descrevê-las reforçam a tese do FHC, de que é necessário fazer o povo desprezar ao máximo o Lula, como ignorantão, abestalhado, débil mental, covarde. É o jeito que têm de atingir o mais profundamente possível, ideologicamente, o projeto em andamento, no Brasil e na América Latina, de um governo controlado por grupos que têm mais proximidade e prestam mais atenção à qualidade de vida dos mais pobres

Por isto também, a insistência em criar clima de desprezo pelo Evo Morales e Chávez, explorando tanto quanto se pode o lado apresentado como negativo, e aproximando do Lula estas caricaturas fedorentas. É o instrumento ideológico eficaz, usado por Hitler e Goebbels para demonizar os judeus perante a "opinião pública" alemã da década de trinta do século passado. O avesso deste quadro apresenta o que este tipo de denúncias realmente deseja.

Finalmente, o Rei não tinha nada que mandar ninguém na América latina calar a boca. Quem não se cala é o sangue de milhões e milhões de índios que os antepassados dele mandaram massacrar. O que não se cala são as gerações genocidadas. Há mais de cem anos que as nações latinoamericanas se tornaram politicamente independentes da Espanha, e ele não tem nem autoridade moral nem institucional, menos ainda política para, numa reunião política de presidentes, vir mandar calar quem quer que seja. Sua reação infantil e pretensiosa indica que ainda não conseguiram compreender o que é o mundo novo criado, não pelos descobridores que vieram com bacamartes e soldados que estupraram milhares de índias, em nome da " cristã", mas pelas gerações cuja memória não se calará. Porque é que a casa real e a "elite" européia ainda não se calaram? A atitude que incomodou o Monarca foi justamente a denúncia do comportamento fascista de seus súbditos, auxiliares submissos. O rei percebeu que o atingido era ele, e toda a História de opressão que os países Hibéricos exerceram sobre nós, nos séculos passados, e ainda num presente que tenta não acabar de se calar.

Para mim fala mais alto quem diz que, desde o ano 2004, seis milhões de pessoas superam, anualmente, a linha de pobreza, aumentando o número de brasileiros inseridos no cenário ativo político, cultural e econômico. O que não se cala é o aumento acelerado de trabalhadores com carteira assinada e regularizada e um salário mínimo assegurado – com as garantias ainda não destruídas pelo mercadoque duplicou o poder de compra dos assalariados mais pobres. Prefiro prestar atenção às políticas sociais, cuja eficácia irrita quem prefere que o Brasil continue sendo Brasil dos Estados Unidos, brandindo a "Mídia" como metralhadora aniquiladora do pensamento, estupradora da inteligência e cultura. Estas informações, sim, vou pesquisar atentamente, e refletir.

Rogério - Teólogo