O MPC E O PRINCÍPIO ASSOCIATIVO
(extrato do texto preparado para o XIV Encontro Nacional do MPC
São Luís, MA, 11-14/07/02).
Eduardo Hoornaert, Salvador, BA.
1. A liberdade que o MPC conquistou.
O MPC é um dos movimentos eclesiais capazes de praticar as propostas fundamentais do Concílio Vaticano II acerca do supremo valor da liberdade. Voltar a discutir questões ligadas ao ministério hierárquico significa voltar às panelas de carne do Egito. É preciso continuar no deserto à procura da terra prometida. O MPC tem de afirmar com clareza que a convivência com uma mulher, no caso do padre casado, é um ato de liberdade. Só será possível articular e organizar um MPC aberto aos anseios da sociedade a partir de uma interpretação consensual do ato de liberdade que está na base de nossa vida de padre casado. Uma interpretação consensual e positiva. Senão ficamos numa história de altos e baixos, sem originalidade[1]. É preciso, antes de tudo, avaliar positivamente nossa rebeldia, não ficar no meio-termo. Ou seja, o MPC não pode relegar ao silêncio e, por conseguinte, ao subconsciente, nossa história existencial de rebeldia contra a lei do celibato. Precisamos nos pronunciar no que nos é próprio.
Só assim seremos capazes de formar em torno de nós um campo energético em prol dos valores da liberdade num sentido mais amplo do que o eclesial. Pois a liberdade é um anseio universalmente humano, embora raramente conquistado, o que eleva de vez o MPC acima do eclesial ‘ad intra’. Nossa opção deve ser vista em termos de cidadania. Somos cidadãos que fizemos uma escolha definida dentro de um sistema que deixa pouco espaço para escolhas propriamente ditas. Enxergando as coisas assim, o MPC não é mais apenas um grupo de amizade, de apoio mútuo, de diálogo com a hierarquia ou de articulação de teses teológicas, para tornar-se uma associação civil em prol da liberdade em geral, o que o coloca num novo patamar. Sem deixar de acompanhar movimentos como a ‘Igreja Nova’ em Recife, ou ‘Nós somos Igreja’ em Belo Horizonte, ou ainda, de fazer parte da plataforma internacional que se articula em torno do bispo Jacques Gaillot da França e de outros grupos eclesiais dissidentes, o MPC tem condições de ir mais além e participar do universo diversificado das associações que hoje militam contra a hegemonia neo-liberal sobre o mundo. Pois, afinal, a liberdade é um princípio que vale para toda a humanidade, e sua domesticação pelo ‘horror econômico’ é hoje um desastre mundial. Porque então o MPC não mandaria a Porto Alegre uma delegação para participar do terceiro Fórum Social que será organizado nessa cidade dentro de alguns meses? É uma sugestão.
2. Urgência de se criar núcleos associativos na sociedade brasileira.
O Brasil carece de associações. Uma das maiores fraquezas do país consiste na falta de interlocutores autorizados por associações de bairros, de igrejas, de profissões e de interesses comuns, capazes de dialogar e pressionar as autoridades políticas do país. Aparece logo um vereador a se aproveitar das dinâmicas populares, por falta de genuína representação. O MPC representa em tese um universo de mais de três mil homens e igual número de mulheres, ou seja, de seis mil pessoas, na sua maioria de excelente formação intelectual e cultural. Podemos incrementar nossa contribuição para a construção de uma nação bem articulada e de uma igreja mais adaptada ao mundo de hoje. É nesse sentido que, no meu texto publicado no n. 176 do jornal Rumos, convido os colegas e suas esposas a ler e estudar o cânone 215 do Direito Canônico, que reza: Os fiéis têm o direito de fundar e dirigir livremente associações para fins de caridade e piedade, ou para favorecer a vocação cristã no mundo. Esse cânone nos basta. Dá suficiente espaço e mostra por onde vai nosso caminho. Não é um caminho triunfal coberto de flores. É o caminho dos que não aparecem mas agem, dos que não falam em ‘ministério’ (o que nos remeteria à época anterior ao Vaticano II), mas atuam em ‘associações’ (sem distinções ministeriais). Seguir o MPC é ter a ousadia de remar contra a corrente, pois é mais fácil concordar com o mais forte e aderir ao mais organizado, e o mais organizado hoje sem dúvida é o clero. O cânone 215, na sua linguagem seca, afirma algo de genuíno ao movimento original de Jesus: a igualdade de todos diante de Deus. Jesus quase suplica, no capítulo 23 do evangelho de Mateus: Mas vocês, recusem ser chamados ‘rabi’, não digam a ninguém ‘padre’, recusem o título de ‘guia’ (v. 8-10). É a luta quase desesperada contra o patriarcalismo vigente na alma humana, o desejo de mandar e de ser mandado, o medo da liberdade, o culto da obediência. Para Jesus não existe nada à frente do homem senão Deus: não há ‘rabi, padre, guia’, só Deus. Assim, somos todos ‘fiéis’ (termo usado no Direito Canônico), não ‘fiéis à igreja’ mas fiéis a nós mesmos, o que vem a ser ‘fiéis a Deus’, ou seja, gente que acredita que Deus é confiável, que Ele é pai, e que, por conseguinte, a vocação do mundo é uma vocação para a confiança, a eliminação do medo e de tudo o que diminui o ser humano.
[1] Uma análise feita pelo atual coordenador nacional, João Tavares, num e-mail datado 19 de junho de 2002, constata que há um enorme esforço em torno dos 13 encontros e depois de cada encontro queda e repouso. Menciona 15 interessados. Textualmente: ‘Palumbo, Lauro Motta de Fortaleza (com seu afinado grupo), Félix Galvão de Recife, Jorge Ponciano, Fernando Spagnolo, Raimundo Nonato da Silva e Luís Guerreiro de Brasília, Antônio Tavares de Aracaju, Almir Simões de Salvador, Anselmo Zorthea de Ilhéus (pela sua atuação silenciosa, mas muito eficiente e concreta com os padres casados do sul da Bahia), o Florisval Lúcio de João Pessoa, Paulo Lúcio de Vitória, Antônio Bonifácio do Rio e a Turma de Rumos de S. Paulo são, de há uns tempos para cá, quem, a nível nacional, pensa e se exprime, com artigos, e-mails cartas, sobre o MPC/Associação Rumos e o Jornal Rumos. Sei que há um grupo muito rico em BH, mas, tirando o Rogério, agora ocupado com o válido movimento/proposta ‘Nós somos igreja’, alguma manifestação de José Vicente e Romeu, após o XIII Encontro, recolheram-se ao silêncio absoluto. É, ao que parece, a sina de um Movimento sem objetivos específicos concretos e agregadores: depois do ingente esforço de um grande Encontro Nacional ou Regional, o silêncio e a aparente ou real queda. Não tem sido assim, quase que sistematicamente, em Curitiba, BHZ, Natal, Recife e, um pouco, Brasília? Cultivar-se, estar juntos, é ótimo, mas cultivar objetivos externos comuns, ainda é melhor. E não me digam que não há o que fazer juntos, ou em pequenos grupos, tanto na Igreja, como na sociedade civil.Só idéias e só ideais, são um cimento muito fraco. Há que ter um mínimo de objetivos e atividades comuns externos ao grupo, senão, cai-se na rotina desagregadora. Os outrora fortes grupos de Natal, Recife, João Pessoa, Maceió, Paraná, Porto Alegre, Manaus e Goiânia, estão calados. E tenho a certeza de que são de grande potencial. Rio, Natal, Maceió, Recife e Aracaju, estão dando sinais de vida e possível renascimento. Brasília e Fortaleza estão muito vivos. Dos outros grupos, ainda não temos notícia. Sabemos também, genericamente e por vagas notícias, que há bonitos trabalhos de Padres casados, individualmente ou em grupo, na pastoral, na ação política, social e educativa, mas não estão sendo divulgados. esperamos que na Tribuna livre da tarde de sexta-feira, dia 13, tenhamos boas surpresas nesse sentido’. Até aqui João Tavares.