Sent: Wednesday, December 05, 2007 12:36 AM
Subject: Re: CARTA DE APOIO A DOM LUÍS CAPPIO
Sr. Secretário da CNBB NE5
Agradeço o envio da Mensagem e reitero que
gostaria de continuar a recebê-las, no futuro.
Quanto a esta de apoio à greve de fome D. Luís
Cappio, respeito, mas não estou de acordo.
Os termos e os conceitos usados são muito
subjetivos, discutíveis e genéricos.
Ainda me não convenceram que a transposição do
rio S. Francisco seja um mal. E de que o povo Nordestino esteja
contra.
Temo que esta intromissão direta de um bispo
nas políticas públicas tenha maus resultados e seja uma tentativa de
engessar a autonomia do governo em programar, promover e gerir o bem
comum do Brasil.
Estamos num país laico, onde um bispo é um
simples cidadão, como qualquer outro. Tem um serviço
especializado, sim, mas para os cristãos da sua diocese. Só. Não
para impor ou impedir políticas públicas.
Chamar a greve de fome de D. Luís de gesto
evangélico, é uma interpretação pelo menos discutível.
Pergunto: a greve de fome é uma maneira
cristã de lutar? Atentar contra a própria vida, pôr-se na
iminência da morte, de propósito, é um ato segundo a moral
cristã? Então, por que não se atear logo fogo na batina ou dar
um tiro na cabeça, ou, como fazem os muçulmanos suicidas, se
explodir em nome de Deus, do rio S. Francisco e do Povo
nordestino?
Acho que a CNBB como um todo, ou pelo menos a
sua Diretoria, precisa tomar uma atitude clara em relação a D. Luís
que, pelo que sei, representa só a ele mesmo, não a igreja católica
do Nordeste ou do Brasil, nem a CNBB.
Há que esclarecer os cristãos perante essa
atitude de brincar com a própria vida e se expor à morte por motivos
discutíveis.
Não se ensina na moral católica e no
catecismo, que suicídio é pecado e que só Deus é o Senhor da vida?
Duvido bastante da validade de um
posicionamento simplório e binário que julga que o que não me parece
certo, está errado e de que o que me não parece bom é,
necessariamente, mau.
Entre o branco e o preto, há milhões de
tonalidades e de cores possíveis.
Sou, sim, a favor da Ecologia, do cuidado com
a nossa CASA, que é a TERRA/GAIA, ser vivo e arquejante, tão
maltratado pela estupidez e pela ganância e das nações e dos
homens cujo Deus é o lucro fácil e rápido.
Mas sou ainda mais a favor de uma ECOLOGIA que
não faça da Terra um Deus, um Absoluto, pois "tudo é vosso". O
homem, a humanidade toda, é o sujeito!
A Terra é nossa, de todos os homens e podemos
e devemos usá-la inteligentemente, retirando dela o necessário para
nossa vida, cultivando-a, melhorando-a para os nossos filhos e netos
e para as gerações vindouras.
E evitando os abusos ditados pela estupidez e
pelo egoísmo de uns poucos que da TERRA se julgam donos exclusivos.
A ciência, a boa política, a justiça e as
religiões têm de se unir para levarem a cabo esta imensa e urgente
tarefa.
Numa busca de diálogo intenso que nem sempre
será pacífico e no respeito às competências de cada uma das partes
interessadas, pois ninguém tem a verdade toda sozinho.
E ninguém está imune ao erro, à cegueira, à
paixão e à vontade de resolver sozinho e de impor suas soluções aos
outros.
João Tavares
padre casado e professor de Ética
Sent: Wednesday, December 05, 2007 12:11 PM
Subject: Re: CARTA DE APOIO A DOM LUÍS CAPPIO
Eduardo,
Obrigado! Um estímulo e uma apreciação
dessas dá-me coragem para continuar usar a cabeça, sem a alugar
aos modismos e ao política ou eclesiasticamente correto da hora,
para, com os dons que Deus me deu, ir ajudando a clarificar
meias idéias e meias verdades.
Um abraço para vocês dois.
Vamos nos ver em Recife...
Sent: Wednesday, December 05, 2007 10:51 AM
Subject: Re: CARTA DE APOIO A DOM LUÍS CAPPIO
Prezado Joâo,
Gostei muito de sua resposta clara e
corajosa. Eis um dos pontos em que uma das correntes da
Teologia da Libertação mostra fraqueza de análise. Jung Mo
Sung, que tem textos excelentes, diz que - por trás de uma
certa TdL - está a idéia da 'terra sem males', do 'paraíso
terrestre' ou (para falar em termos marxistas) da 'sociedade
sem classes'. Quem seguir essa idéia 'fixa', não percebe
mais o delicado tecido (sempre imperfeito) da história
humana, mas só vê a perfeição inalcançável. Aí faz análises
grosseiras e incorretas, como os bispos da CNBB Nordeste V
infelizmente fazem. Um dia, um defensor 'fanático' da TdL me
pegou pelos ombros e me sacudiu fortemente porque eu tinha
escrito um livro intitulado 'O cristianismo moreno do
Brasil'. Moreno não pode, tem de ser negro ou branco, pobre
ou rico, índio ou branco, dominador ou dominado. Para esse
povo, mestiço não pode. Acontece que o Brasil é um país
mestiço, E agora, José? Por trás dessas atitudes
aparentemente evangélicas existe algo muito tradicional na
cultura ocidental, e pouco evangélico: o desejo da
perfeição, que - no fundo - é o desejo de ser o maior, o
melhor, o 'branco perfeito'. Certos defensores da TdL, se
não cuidarem em cultivar seu espírito crítico, correm o
perigo de se tornarem repetidores da ideologia mais elitista
que existe: a teologia da perfeição, da supremacia. Uma
teologia que não sabe dialogar.
João, gostei muito mesmo. A greve de fome
de Dom Cappio revela o que vive no subconsciente de muitos
que - por ingenuidade muitas vezes - se metem em análises
inconsistentes e enfrentamentos desncessários, perdendo a
alegria de uma caminhada simples, despretensiosa, humilde,
como a caminhada do MPC.
Um abraço,
Eduardo.