XVI Encontro das Famílias dos Padres Casados. 14/01/2006.
JESUS DOIS MIL ANOS DEPOIS
O cristianismo não falhou,
ainda não foi experimentado.
(Chesterton).
Eduardo Hoornaert
1. Teologia não, filologia sim.
Compreender hoje palavras usadas dois mil anos atrás não é tarefa da teologia, mas da filologia, ou seja, da análise cuidadosa de termos. Procedemos como os arqueólogos que cavam diversos níveis para estudar história antiga de uma cidade. Em Jericó, por exemplo, há sete níveis sucessivos, que alcançam até seis mil anos antes de Cristo. O arqueólogo tem de ser cuidadoso. Além da pá e da enxada, ele tem de usar a peneira, pois uma pedra minúscula pode conter preciosas informações. Assim, o filólogo que está em busca do sentido original de palavras usadas dois mil anos atrás, como ‘cristo’, ‘apóstolo’, ‘evangelho’, também precisa ser cauteloso. Essas palavras gregas nunca foram traduzidas, ainda estão sendo usadas hoje. Os termos ficaram inalterados durante dois mil anos. Mas fica a pergunta: alterou-se o sentido deles? Ao longo dos tempos, palavras mudam de sentido. São âncoras precárias. No caso do cristianismo, é preciso mergulhar no universo judaico para adquirir clareza acerca das palavras.
Então, convido meus(minhas) amigos(as) a fazer um exercício em filologia no sentido de analisar dois termos muito usado no seio do cristianismo: ‘cristo’ e ‘vocação’. Repito: não estamos aqui fazendo um exercício em teologia. mas em filologia. Estudamos termos com o máximo cuidado possível.
2. Cristo.
Desde os primeiros tempos Jesus é chamado ‘cristo’. As cartas do apóstolo Paulo, que escreve vinte anos após a morte de Jesus, mencionam o termo ‘cristo’ (que escrevo aqui intencionalmente com minúscula). O que significa esse termo? Paulo segue a tradução grega da bíblia hebraica realizada dois séculos antes pela famosa ‘Setenta’ (setenta sábios de Alexandria teriam traduzido a bíblia hebraica em grego). Segundo essa tradução, o termo hebraico ‘masiah’ ou ‘messias’ se torna o termo ‘cristo’. Como Paulo é judeu, entende perfeitamente o que esse termo significa. O problema é que nós nem somos judeus nem entendemos a cultura judaica do tempo de Jesus. Os autores cristãos depois de Paulo vão simplesmente ‘escaneando’ o termo, através dos séculos. Eles fazem o trabalho do scanner ligado ao meu computador, que transforma sinais gráficos de diversas origens em sinais próprios a serem usados no Outlook, ou Word, ou PowerPoint, ou Excel, ou FrontPage, conforme os comandos. Os autores não traduzem mais, simplesmente repetem o termo. Quem traduz procura adaptar a linguagem à cultura do outro. Para que um interlocutor que desconheça o português possa me entender, eu vou traduzir o termo brasileiro ‘absolutamente’, por exemplo, por ‘de modo nenhum’, embora o termo pareça indicar exatamente o contrário. Isso se chama tradução. O escaneamento não raciocina, simplesmente transpõe. Quando hoje usamos termos como ‘evangelho, apóstolo, cristo’, estamos usando termos escaneados de um vocabulário judaico não traduzido.
É preciso mergulhar no universo judaico para entender o termo ‘cristo’. O que ‘cristo’ significa, para os ouvintes do evangelho e das palavras de Paulo? ‘Cristo’ significa ‘ungido’. O termo refere-se à antiga tradição das caravanas semitas pelo deserto. Os viajantes mais importantes da caravana usam um lubrificante no corpo antes de subir no camelo, para se proteger contra o duro vento do deserto que corta a pele. Os servidores não usam esse óleo, ele é caro e raro (vejam as alusões a ‘perfume precioso’ nos evangelhos). Eles andam a pé descalço na areia e seus rostos são profundamente sulcados pelo sol e pela areia. Entre nós também o protetor solar é uma necessidade, mas nem todos têm condições de adquiri-lo. A imagem do ungido é a de uma pessoa mais elevada, que enfrenta um perigo mas está preparada para tal. Aparece aí a imagem de um líder corajoso e preparado para enfrentar situações perigosas. Eis o que passa, de maneira nem sempre precisa, na cabeça de pessoas quando chamam Jesus de ‘cristo’. O termo sugere força, evoca confiança (fé), segurança na luta e perseverança diante dos perigos.
Doravante estamos preparados para entender três termos com um mesmo significado: ‘messias’ (o termo hebraico), ‘cristo’ (o termo grego) e ‘ungido’ (o termo português). Fica claro, para nós, que o termo ‘cristo’ não é um nome próprio, mas um atributo. Quando Paulo escreve ‘evangelho do cristo’ (Rm 15, 19), ele quer dizer: ‘a boa nova da vinda do messias’. Quando o evangelho de São João escreve ‘Jesus é o cristo’ (Jo 20, 31), essa frase se torna incompreensível quando se entende o termo ‘cristo’ como sobrenome. Aqui ‘cristo’ é claramente atributivo. Não dizemos ‘Maria é Pereira’, dizemos ‘Maria Pereira’. Quando dizemos ‘Maria é simpática’, atribuímos a Maria a simpatia. ‘Simpática’ não é sobrenome, é atributo. No mesmo sentido, Paulo nunca escreve ‘senhor cristo’, mas sempre ‘senhor Jesus cristo’ (Jesus é o cristo), ‘senhor Jesus’, ‘nosso senhor’. Repito: ‘cristo’ não é sobrenome, é um adjetivo qualificativo. Há algo especial em Jesus, e esse algo especial se chama ‘cristo’.
3. Vocação.
Onde está a originalidade de Jesus? Temos de mergulhar no termo ‘klésis’ (grego: vocação) no contexto judaico para saber qual é o significado dessa originalidade. Como todos os judeus de seu tempo, Jesus acredita que a história da humanidade está dividida em dois ‘tempos’ (kronos: tempo. Daí cronologia etc.): (1) o tempo da paciência de Deus, que vai de Adão até o tempo presente; (2) o tempo apocalíptico, ou seja, o tempo da ira de Deus. A originalidade de Jesus (e a razão pela qual é chamado ‘cristo’ pelos contemporâneos) consiste no fato que ele insere na história um terceiro tempo, que se chama o tempo messiânico. É um tempo beneficiado, de oportunidades excepcionais, de graça. Não é propriamente um ‘tempo’ (kronos), é antes uma ‘oportunidade’ (kairos). Somos chamados a mergulhar no tempo do messias (do cristo). Jesus é diferente de muitos de seus contemporâneos (e mesmo de seus apóstolos), pois não se impressiona com a idéia terrível de um tempo apocalíptico da ira de Deus e com as imagens de destruição e desastre que tanto impressionam as pessoas. Toda a sua atenção se concentra no tempo messiânico presente. O tempo messiânico não é um tempo utópico, nem escatológico, nem apocalíptico nem tão pouco ‘providencialista’ (eis o erro posterior da teologia medieval: querer tranqüilizar as pessoas e interpretar o tempo cristão como sendo um tempo governado pela divina providência). É um tempo de pura alegria, com excepcionais ocasiões de graça e oportunidades de ação criadas pela nossa própria personalidade. Jesus não se impressiona com as histórias que falam de uma violenta intervenção de Deus diante dos males do mundo. Ele permanece sereno e alegre. Ele ri. O tempo messiânico é um tempo de riso. Não aprofundo aqui esse tema.
O tempo messiânico é o tempo de minha vida. Eu estou sendo chamado para andar ao lado do messias[1]. Vivo um intenso ‘aqui e agora’, uma oportunidade única. Sinto-me chamado por Deus. Não que eu sinta a necessidade de passar do mundo profano ao mundo religioso. Não é dentro de um universo referencial espiritualista que se compreende a vocação no tempo messiânico. Tudo permanece profano, mas impulsionado pela vontade de se realizar muito em pouco tempo e de se aproveitar a oportunidade oferecida no curto espaço de tempo (1Cor 7, 29-31). Leiam devagar o texto de Paulo, vale a pena. No tempo messiânico, trata-se de viver ‘como se não’ (em grego: ‘hôs mé’). Viver com a esposa (esposo) como se não vivesse com ela (ele), chorar como se não chorasse, alegrar-se como se não se alegrasse, aproveitar deste mundo como se não se aproveitasse dele, afinal, superar o esquema deste mundo sem deixar de ‘viver’. Usar tudo e não possuir nada, tocar tudo e não segurar nada. A vocação faz com que vivamos ‘como se não’ (não viver segundo a mentalidade reinante). O termo ‘vocação’, tal qual aparece diversas vezes nas cartas de Paulo, não tem nada a ver com o que hoje se chama ‘vocação religiosa’ ou ‘vocação ao sacerdócio’. Paulo é explícito: Que cada um permaneça na vocação em que foi chamado (1Cor 7, 20)[2]. Trata-se de um segundo chamado que não altera o anterior (do nascimento). A vocação não desloca as pessoas da vida que levam. O escravo permanece escravo, o senhor permanece senhor, o profissional permanece profissional, o rico permanece rico e o pobre permanece pobre. Ninguém tem de abandonar sua maneira de viver para acompanhar o movimento de Jesus. As mulheres participam dessa vocação tanto quanto os homens, os pobres tanto quanto os ricos. Mas doravante o rico não vive como rico e o pobre não vive como pobre, o homem não vive como mandão nem a mulher como serva submissa. Os contratos, que formam a base da sociedade, perdem sua razão de ser. Quem tem vocação fica indiferente a leis e regulamentos, não segue o ‘esquema’ (em grego: schéma) deste mundo. Regulamentos sociais perdem sua importância, tanto faz seguí-los ou não. A ordem jurídica que forma a base da ordem social não tem mais sentido para quem é chamado pelo messias. Ele é um desobediente das leis existentes, pois estabelece relações além das leis.
O vocacionado não abandona sua profissão. Pelo contrário, a profissão é a vocação. O profissional que entende sua profissão como uma vocação, não trabalha só para ‘sustentar a família’ ou ‘ganhar dinheiro’, mas encara o trabalho profissional como uma oportunidade dada por Deus para realizar algo de valor na vida, além do dinheiro, do status, da preocupação. Nisso vai um vigoroso apelo ao trabalho mas, ao mesmo tempo, uma crítica fundamental ao conceito ‘trabalho’, tal qual é definido pela modernidade através da troca entre trabalho e salário.
4. A mensagem numa casca de noz.
A palavra ‘universalismo’ resume o núcleo da mensagem de Jesus. Universalismo inclui o cego, o aleijado, o coxo, o doente, o pobre. Mas universalismo inclui também o cobrador de impostos (Mateus) que executa um trabalho detestável mas é vítima de um sistema, a prostituta que leva uma vida sexual miserável mas, na maioria dos casos (na quase totalidade, a não ser a ‘bela da tarde’) é também vítima. O universalismo inclui o oficial romano, que é considerado ‘gentio’ (gente pecaminosa) aos olhos dos judeus, a mulher samaritana (os judeus detestam os samaritanos). Hoje inclui os terroristas, os islamitas fundamentalistas. Paulo resume a mensagem nuclear numa frase: nem homem nem mulher, nem senhor nem escravo, nem judeu nem grego. Abaixar a clausura do sexo, da raça, da classe, da cultura, da posição social ou financeira, viver o universalismo, viver uma nova relacionalidade baseada no simplesmente humano.
Eis uma mensagem que ainda não foi realizada em dois mil anos de cristianismo. Por isso, ela não pode morrer. Até aqui vivemos sob o reino dos particularismos que geram guerras, preconceitos, hostilidades, incompreensões. Penso que Paulo, se vivesse hoje, repetiria o dito de Chesterton:
O cristianismo não falhou,
ainda não foi experimentado.
A globalização e a ecologia vêm hoje postular um pensamento universalista e exige, por uma dinâmica interna, a superação dos particularismos. Estamos caminhando para o momento em que o cristianismo será chamado para mostrar que não tem medo de suas origens e é capaz de revitalizar suas inspirações fundantes. Será que ele terá, na hora, a devida capacidade de desmontar o cenário depois de encerrado o espetáculo (a igreja de hoje) e abrir os braços, sem medo, diante do mundo que se aproxima?
[1] Daí o termo grego ‘parousia’ que significa ‘estar ao lado’. O messias está ao lado do companheiro.