Mensagem
ao Encontro de Recife
Contagem, 6 de Janeiro
de 2008
Epifania do Senhor
Queridos irmãos do MPC
Tenho muita alegria em saudar a todos os participantes deste
encontro
em Recife.
Não podendo estar
presente em pessoa, sei que há amigos queridos,
e sei que me
são queridos
todos os que
percorrem este 'caminho',
no espírito das primeiras gerações de cristãos,
que chamavam 'caminho'
à proposta de
espiritualidade
herdada do movimento de Jesus.
Não tenho conseguido participar
de reuniões
regulares
em Belo
Horizonte, mas
o contato por
telefone ou e-mail é freqüente
e intenso. Desejo,
com esta mensagem,
apenas colocar
algumas reflexões,
diretamente
formuladas, sem poder
explicitar todos
os fundamentos, e
principalmente
sem o desejo
ou intenção
de, nesta formulação,
pretender
que sejam afirmações definitivas ou impostas.
Seguindo atentamente as contribuições
veiculadas nos
últimos
meses em
preparação
ao encontro, tive a
atenção
atraída para um
tema, de início
insistente e
único,
nos últimos
tempos relativizado e enriquecido de
outras visões. Há, no
mpc, muita
gente cuja
preocupação
central
é obter o reconhecimento
de Roma, como
Padre
Casado, e fazer
da luta por
este
reconhecimento
o eixo central
do mpc. A
aproximação
à pessoa do Bispo
Milingo e da icc me parece ligada
a esta preocupação e a este objetivo.
Sou Padre porque
recebi a ordenação e sou reconhecido como 'padre' por aquelas comunidades
a que me
entreguei e dediquei como tal. Sou casado
porque há dez
anos eu
me uni em
matrimônio, com
a assistência de uma dúzia de Padres
casados. Meu
casamento não
foi realização de
um
objetivo, mas
conseqüência de
um
passo radical
de laicização. Não abri mão da pertença
ao clero para
me casar, mas me casei por já ter renunciado à condição
de clérigo.
Que os padres
se casem ou não,
que a Igreja
Católica Apostólica
Romana
os aceite ou
re-aceite ou não
em seus
quadros institucionais, não é, para mim, 45 anos depois dos meus
primeiros passos
no estudo da
Teologia
Católica, o
problema
central. Nem
é para mim, desde os primeiros
passos em
companhia e
solidariedade
com os "Padres
Casados", o
motivo
principal de pertença
ou consolidação
de um "movimento"
em que
se encontrem e congreguem as pessoas que vivem esta experiência
espiritual.
A questão central, que já levantei
em encontros
nacionais de
Padres
Casados e da
Associação
de Teólogos, é
que
a mentalidade
católica
falsifica teologicamente a Fé Cristã, quando fez dela uma Religião
de Sacrifícios, re-instituindo – com o título de
'Eucaristia', ou
de 'Santo
Sacrifício
da Missa' – o que
o Senhor aboliu, notadamente na
noite
em que,
antes de padecer,
tomou uma refeição com
os seus. A re-instituição de um sacrifício, a
transformação da refeição de partilha em ato
sacrifical, concretizou a lógica que fez dos 'presbíteros'
a re-edição dos sacerdotes, sacrificadores. A instituição
do 'sacramento da
ordem' instaurou no seio
da Igreja Cristã a lógica
institucional do Império Romano.
A aceitação de Padres Casados pela Igreja de Roma, e a ordenação
de Mulheres, levariam esta Igreja a uma reforma radical.
Isto seria um
passo à frente
– que desejo
certamente que
seja dado. A tentativa
de reforma a partir desta
lógica, re-editaria a experiência
dos reformadores, que
foram transformados em fundadores de novas
Igrejas, as quais
acabaram por re-produzir as mesmas características da Igreja
que teriam pretendido
reformar.
Em vez
de reforma, veio uma multiplicação de Igrejas,
que requerem, todas
elas, uma reforma, uma multiplicação
de reformas.
Não deixei de ser católico por ter aberto
mão
da condição de
clérigo,
não deixo de ser
cristão por
discordar deste ponto central e de muitos
outros, em
que a mentalidade
Católica me
parece equivocar-se. Não considero o meu modo de pensar normativo para quem quer que seja. A Igreja
Católica, na
configuração
histórica a que
chegou, e que parece
consolidar, é a minha
mãe
na Fé cristã, e tem o direito de ser o que ela quer. Uma vez eu disse em palestra a uns trezentos
provinciais
de Congregações Religiosas que 'quem xingar a minha mãe eu mato, mas se me botarem dentro
da barriga dela de novo,
sou eu quem
morre'.
Cada qual tem o
direito de participar
do mpc pelo
motivo que
lhe pareça bem,
mas acredito que
ninguém tem o
direito
de proclamar taxativas ou
normativas as suas
convicções
pessoais ou
grupais. O mpc não pode ser uma instituição que
enquadre sempre
mais
os seus 'quadros',
como um
Partido Político
ou uma nova
Igreja. Eu
o vejo e vivi como
um
'movimento' de
pessoas
que vivem uma
experiência
espiritual, e desejam que ela se torne
sempre mais
fecunda,
frutífera
e benéfica dentro
do Reino de Deus.
Quem participa de quaisquer instituições pode encontrar
dentro dele um
espaço de confraternização, de proposta, de reflexão,
um 'caminho'
em companhia
de pessoas muito
diferentes, que
pensam de maneira
diferente, têm objetivos
diferentes, organizam sua
própria
vida familiar
e religiosa de
maneira
diferente. Seu
eixo é a
solidariedade
entre diferentes,
não a institucionalização de igualdades.
Por isto me pareceu limitativa
e provocadora de distorção a experiência de ter 'um bispo assistente' no
mpc. Conhecemos pessoas
muito
queridas, teológica e espiritualmente respeitáveis,
até veneráveis.
Mas
a presença institucional, 'como
Bispo', ressecou o
movimento
de 'padres
casados'. Houve Bispos,
como
Angelelli, que se desclericalizaram e se
casaram, formando parte essencial do movimento.
No 1º encontro de
que
participei, o de João Pessoa,
ele
o afirmou pessoalmente, em público. nos grupos de trabalho, e em diálogo episcopal com
o colega
celibatário
que prestava
assistência
ao mpc.
Conversei disto com
vários
companheiros, de
Belo
Horizonte e de outras regiões, Católicos
e de outras denominações cristãs. À luz do momento especial que
vivemos como
cristãos
socialmente
solidários
e politicamente ativos no Brasil de hoje, estas preocupações
ganham aspectos
ainda
mais polêmicos e
discutíveis.
A todos vocês, homens e mulheres
deste 'caminho'
um
abraço carinhoso,
a sinceridade de
um
discurso que
sonha fazer 'arder o coração' até que a vivência de uma partilha torne desnecessário o discurso, torne invisível
o interlocutor, abra os olhos, dê coragem ao coração e força aos pés, para re-encetar o caminho
em direção a
Jerusalém.
Que o Senhor nos dê língua de discípulos,
desperte em nós
ouvidos de
discípulos
e nos dê
um coração
puro e espírito
decidido, para
estarmos sempre
prontos
e capacitados a prestas contas da nossa esperança
a todo o mundo
que nos
desafiar, com
amor, com
consciência, com
ousadia.
Rogério Ignácio de Almeida Cunha, cristão, esposo de Zenóbia
Rodrigues Cunha.