Tenho acompanhado com muito interesse as menssagens e opiniões do João
Tavares, Eduardo Hoorneart, José Vicente e muitos outros. Como a panela é
nossa resolvi meter também a minha colher de pau. Minha intenção é somar.
Qualquer abordagem ou discussão sobre o tema MPC nos situa de frente com
duas realidades: a primeira, o "ninho" (o clero católico) de onde, um dia,
tivemos a coragem de sair. Para muitos, o primeiro vôo foi inseguro e
desajeitado, mas não era para menos, para quem foi "enclausurado à força"
dentro de um seminário, quando tinha apenas 12 ou 13 anos, só saindo com 25
ou 27 anos, onde foi submetido a regulamentos e práticas, ditas espirituais,
absurdas, cuja finalidade únida era sufocar no espírito do jovem tudo o que
era humano, para prepará-lo para o sacerdócio, e agora, ter que dar um
pulo no escuro ou no desconhecido, não poderia ser diferente. Nós que o
fizemos sabemos quanto nos custou, mas era preciso, por uma questão de
coerência. Era viver ou morrerd! Optamos por não ficar porque o ninho já não
nos oferecia toda ou nenhuma segurança de que precisávamos. Em segundo
lugar, voando e, às vezes, caindo, percebemos que o ar disponível que
tínhamos para respirar era o mesmo, mas por sorte, podíamos buscá-lo em
outras paragens, longe da falsa segurança e mordomias do antigo ninho. Por
sorte, passamos também a enxergar o mundo sob outros ângulos, mas tínhamos
de beber da mesma água poluída e respirar o mesmo ar viciado a que todo
mundo tem acesso.Aí surgem as contradições e desafios: no ninho, apesar de
tudo, aprendemos coisas boas que, agora, com as devidas reciclagens,
poderiam ser usadas para o bem de todos, inclusive dos que ficaram no ninho,
mas não são. Enxergamos com outros olhos o mundo, não só o nosso, mas
sobretudo o daqueles com quem passamos a voar, nossas esposas e filhos. A
complexidade do mundo só pode ser vista e entendida por quem nele vive.
Neste contexto, não que sejamos donos da verdade, mas enxergamos coisas que
continuam as mesmas depois de 10, 20, 30 ou mais anos, as quais achamos que
precisam ser mudadas. O MPC não vai reformar nada e nem salvar o mundo, mas
com certeza, pode contribuir.
Quem não se defrontou ainda com crises existenciais? Muitas vezes a vontade
que se tem é de romper uma vez por todas com o sitema que está falido. O
caminho, com certeza, não é o que alguns sugerem: abrindo dissidências.
Muitos de nós já nem vão mais à missa, não porque nela não acreditam, mas
porque vêem e sentem que, como são ditas não atendem mais à sua finalidade
que é oferecer o alimento da palavra e da Eucaristia para o povo. É comum
ouvir as pessoas dizerem: não aguento a missa de fulano ou sicrano. Mas lá
continuam eles celebrando suas missinhas enfadonhas e chatas! E o povo
sumindo das igrejas!. Não quero ensinar Pai Nosso para o vigário, mas em vez
de tantos conselhos: ...vamos buscar isso.... é preciso que... peçamos com
muita fé... etc, etc., se pregassem de verdade o Evangelho e ensinassem o
povo a ver a Bíblia como verdadeiro livro de oração, seria muito melhor.
Frei Boaventura Klopenburg, bispo emérito de Novo Amburgo - RS, em
entrevista ao Jornal Ciência e Cultura em 2005, confessou: "As vezes, quando
recebo notícias de saídas de padres e religiosas, fico triste, a ponto de
chorar. É um dos pontos mais negros da Igreja depois do Concílio. Não sei
bem o que Deus quer, permitindo tudo isso. Sei, é certo, que tudo isso está
a dizer que há urgente necessidade de reforma." Isto é mais uma prova de que
as coisas não vão bem. E continua S. Exa.: "A Igreja é tão difícil quando
deve reconhecer defeitos e, conseqüentemente reformas. É um certo farisaísmo
que está nela profundamente arraigado" (Jornal Ciência e Cultura, nº 273-
p.5- 05/2005). Em Aparecida, os Bispos parece que acordaram do sono milenar
e declararam: " a Igreja é chamada a repensar profundamente e relançar com
fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e
mundiais" (V CELAN- Ed. CNBB - Paulinas - Introd. n.11- 2076).
Se isso vier a acontecer, com certeza, terá de partir, caminhar e terminar
no Evangelho: Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele disse e assim
agiu. Deus prefere a misericórdia ao sacrifício. A linguagem da força e o
argumento do poder nada constróem. Quando os discípulos lhe aconselharam que
mandasse embora as multidões para que buscassem alimento nas aldeias e
sítios da vizinhança, lhes disse: "Dai-lhes vós mesmos de comer".
O que mais se percebe hoje são multidõers famintas e sem pastor. Há,
contudo, muitos que se autoproclamam "pastores", "bispos" e "bispas", e
estão se dando bem! E nós??? Devemos rezar pelas vocações sacerdotais:
"Enviai, Senhor, operários para a vossa messe"... Mas a esperança e os
operários só virão se novos modos de pensar, sentir e agir forem adotados.
Qualquer mudança ou reforma, onde quer que seja, exige posturas novas e
corajossas, rupturas radicais com sistemas anacrônicos e ultrapassados. No
entanto, a prática tem demonstrado que é muito mais fácil e cômodo "deixar
como está para ver como fica". Acho que o mais correto é o que o Bispo de
Novo Hamburgo disse: "Existe na Igreja um farisaísmo que está profundamente
arraigado". Ora, contra farisaísmo a receita é a que Cristo deu, e todos nós
sabemos (cf. Lc. 11, 38).
O MPC, sempre, tem tentado fazer a lição de casa. A tônica de todos os
Encontros tem sido a mesma. Em 2005, a Diretoria do MPC sugeria para um
diálogo como o Episcopado: "Vivemos num mundo globalizado e de mudanças de
todas as ordens e ao mesmo tempo, estamos parados no tempo por leis e
costumes medievais, que causam não poucos sofrimentos, conflitos e por
desconhecimento da verdade plena, impedem a ação do Espírito na renovação do
mundo. O ninistério do padre casado enriqueceria grandemente a Igreja porque
integra o matrimônio e os valores familiares ao sacramento da ordem e da
Eucaristia, os três sacramentos construtores da Igreja e da vida divina na
dimensão da comunidade."
No entanto, parece que até agora, nada foi feito. Nossas comunidades
católicas continuam patinando sem sair do lugar. Há, por vezes, uma falsa
impressão de crecimento e revitalização da Igreja. São ilhas esparsas de
prosperidade representadas por algumas paróquias onde se reza melhor e se
canta com mais entusiasmo. Isto, contudo, são fatos isolados, o grosso
continua como antes.
É triste ver o pouco que se faz pela juventude e pelas populações das
periferias. Em Belo Horizonte, por baixo, existem mais de dez colégios
católicos grandes, destinados às classes A e B da população. A preferência
pelos pobres, aqui, vai p'ro espaço. São notórios o mutismo e indiferença da
Igreja para a crise do clero. Boa parte já não aceita, mas tem de viver sob
um jugo pesado, a tal ponto que o celibado de "santo", que nunca foi, se
tornou "safado". Longe de mim afirmar que o celibato foi, é e será o único
responsável pela desistência dos padres. Para mim, por exemplo, não foi.
Contudo, as notícias de pedofilia e homossexualismo dentro do clero
continuam a pipocar e a manchar a Igreja. Até quando? É inexplicável a falta
de candidatos ao sacerdóicio. Minha turma, p.e., éramos 85: só dois foram
ordenados. Destes, um saiu, que sou eu. Há muito tempo, em uma de nossas
reuniões do MPC, aqui em Belo Horizonte, Dom José Pires, Bispo emérito de
João Pessoa - PB., nos pedia para rezar pelas vocações sacerdotais. Bacana,
não acham???. Aí, Beatriz, minha esposa, disse: O senhor me desculpe, mas
vocações existem e muitas, porque Deus já as mandou. O que está faltando é a
Igreja descobrir onde elas estão.
Para terminar, eu pergunto: Que temos nós a ver com isso? Muito, com
certeza, porque não saímos do mundo e a Igreja a que pertencemos está no
mundo. Temos consciência de que, querendo ou não, o MPC é uma força viva,
por enquanto, com um potencial rico e variado, e por isso, por fidelidade ao
Evangelho, não devemos nos omitir. Vamos colegas do MPC, vamos todos, se
possível, a Recife em janeiro de 2008. Mais uma vez, elevemos nossa voz
nesse deserto, mesmo sem ser um "Batista". A Boa Nova deve ser anunciada no
mundo, dentro e fora de nossa famílias. Para isso fomos enviados. Não nos
conformemos em ser operários da undécima hora! Desculpem-me, acho que me
estendi demais.
Abraços para todos vocês.
B.Hte. 25/11/2007 - Lino e Beatriz