From: Prof. José Vicente
To: Mario Palumbo

 

 

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE DOM MILINGO

 

       Ontem, dia 7 de dezembro, por algumas horas, dom Emanuel Milingo     honrou minha família com sua visita, na residência de meu filho, também jornalista, em São Paulo. O evento, informal e inesperado, foi importante como testemunho de fraternidade, que ensejou um rosário de informações [gravadas durante cerca de três horas] a respeito de temas e fatos até agora conhecidos de poucos e abertos a análises.

Farei uso minucioso das informações coletadas e com algumas complementações em matérias jornalísticas a serem programadas, oportunamente. Dia 11 deste mês de dezembro dom Milingo viaja a Coréia e eu também estou em viagem, mas, para informação fraterna dos colegas e como satisfação ao arcebispo, tão afetuoso para com o MPC do Brasil, alinhavo este relato de minhas impressões pessoais, decorrentes de nossa conversa.

 

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1- Sinal de contradição

Dom Milingo é forte sinal de contradição na Igreja e para a Igreja. Por seus procedimentos francos, advoga a necessidade premente de se efetuarem, na Igreja de Roma, reformas profundas que ultrapassem as exterioridades, os ritos, as vestes e as linguagens. Todos os valores naturais das diferentes culturas cabem na Igreja que, por sua natureza redentora, é católica e apostólica, pois Jesus Cristo integra em si, para toda a humanidade, todas as riquezas culturais de todos os povos.

Do relato de suas alegrias e amarguras, por estar excluído do colégio episcopal, em virtude da excomunhão “late sententiae”, ele nada repudia da doutrina. Porém, lamenta, com lágrimas, que, apesar da evidência dos sinais dos tempos e das próprias manifestações formais da Igreja para alguma abertura a alguns tipos de diálogo, a Santa Sé não abraça, com clarividência e misericórdia evangélicas, a verdade dos fatos que envolvem a vida e o ministério de seus bispos e presbíteros.

 

2- Apóstolo, não simples sacramentalizador

Na conversa sem preconceitos nem interferências de interesses outros que a fraterna amizade e a busca de caminhos para solucionar os problemas, morreu para mim  e para todos minha os não ritualistas do MPC a seguinte preocupação: Dom MIlingo  não faz missão de transmissão de Ordens Maiores nem aqui, no Brasil, nem em qualquer outro lugar do mundo. Ele não criou e lhe repugna criar instituição ou instituto que perpetue a transmissão sacramental da Ordem, visando a novas vertentes ou comunidades católicas e apostólicas. Acolheu por missão dedicar-se à assistência aos Padres Casados, a fim de que estes tenham disposição e subsídios para um melhor exercício pastoral junto às famílias.

Apesar de certa euforia que se espalhou em meios eclesiásticos nos últimos meses, provocada pela proximidade do Encontro de Recife, ele não pretende semear bispos. Há bispos demais burocratizando a Igreja no mundo todo e, infelizmente, sem demonstrar em capacidade de aproveitar os sacerdotes disponíveis, nem formar presbitério maduro e consistente.

Ele não formou nenhum colégio de doze bispos para participarem de qualquer cúpula. Ele ordenou quatro bispos nos Estados Unidos, para atender comunidades que executam bons projetos pastorais e, em sua estada em Brasília, em evento do MPC, ordenou um presbítero. O mais é fruto de imaginação e de slogans fortes!

Sua preocupação é o apostolado como pastoreio misericordioso. Portanto, em dom Milingo não cabe o rótulo de “misseiro”, termos que padres de Minas Gerais usam para designar bispos e padres de pastoral fraca e os que celebram atos litúrgicos mais para aparecerem do que para atender a necessidades reais das comunidades.

 

3- Nenhuma heresia, mas um lindo sonho

Pareceu-me que ele acelera o desenvolvimento de seu programa de afervoramento sacerdotal e familiar. Porém o faz com cautela. Maduro e sofrido, principalmente por listagens e relatos inventados de excessos que lhe foram atribuídos anos a fio, ele rejeita qualquer  insinuação de concessão à heresia ou a cisma. Ele não nega a impressão que transmite: espera ser acolhido pela Igreja de Roma, à imitação do ocorrido com a comunidade de dom Marcel Lefebvre.

Por suas reações às perguntas, pareceu-me que dom Milingo ainda não aceitou o retorno “festivo” da comunidade de dom Lefbvre à Igreja Católica Romana como evento isolado e estratégico, com a finalidade única de reforçar o conservadorismo “light”, ritual e linguístico. Até hoje, os finados dom Marcel Lefbvre e dom Antônio de Castro Mayer permanecem excomungados, pois ordenaram bispos à revelia da Santa Sé. Como o fez dom Milingo nos Estados Unidos.

Inteligente, dom MIlingo sofre, cada dia mais, com as dificuldades que são colocadas em seu caminho. Mesmo assim espera contra toda a esperança que a Igreja de Roma o ame mesmo sabendo ela que o programa dele é de “rebeldia legal” que, em seu bojo, leva torpedos de efeito retardado, com alto poder destrutivo.

A extinção da obrigatoriedade do celibato, além de alterar o tipo da disciplina organizacional vigente, provocará um rombo na economia da Igreja no mundo todo.

 

4- Direitos de cristão e deveres de bispo

Após seu casamento, assediado por autoridades da Santa Sé e, contraditoriamente também agredido por elas, dom Milingo se demonstrou disposto a permanecer em risco perante a Igreja. Acentuo seus objetivos de salvaguardar seus direitos cristãos; de valorizar a natureza intrínseca de seus deveres episcopais; de manter e de desenvolver a alegria de sua liberdade de amar e ser amado, inserido na realidade do desenvolvimento familiar!

Da explanação de suas perspectivas, fico pensando que se ele conseguir atravessar mais algum tempo sem novos conflitos com o pessoal do Vaticano, talvez viva em paz, sem ser incomodado em sua opção matrimonial. A Santa Sé não o teme, pois conhece sua mentalidade, sua espiritualidade e seu coração. Porém, por sua dificuldade em dialogar com o mundo todo, ela teme a força reconhecida e mundial do Reverendo Moon e de suas comunidades..

 

5- Homem hábil e estratégico

Dom Milingo não criou qualquer conselho episcopal, nem se afiliou a qualquer outro grupo normativo. Considera e deseja permanecer sacramentalmente autônomo e pessoalmente responsável pelo que faz como bispo. Afirma que jamais ordenará alguém sem a segurança da fé ou em desrespeito aos princípios éticos ou morais.

A tolerância e a convivência pacífica entre dom Milingo e a Santa Sé são realidades em banho-maria, pois, por tradição, a autonomia episcopal exige cautela e boa convivência.

Dom Milingo é bispo, pensa e fala como tal e, segundo conclui da conversa, o bom clima não acontece por milagre, mas porque ele é hábil em assimilar valores díspares, sem se enredar em paixões e sem atrair sobre si a inveja ou  ódio. Pelo que já fez e suportou, é inegável sua perspicácia em sintetizar posições contrárias, sem sacrificar a objetividade delas nem alimentar conflitos ou acirrar ânimos.

Ele caminha devagar, mas pisa com firmeza, pois, na situação em que parece encontrar-se, convém-lhe ser prudente na união das baínhas das extremidades das piedosas devoções justificadas pela Teologia Tradicional, com os “suspeitos” parâmetros da Teologia da Libertação e as promessas radicais da Teologia da Prosperidade.

Dom Milingo vence as divergências, à clássica maneira episcopal que, se não resolve, também não machuca. Seguindo o que aprendeu e ensina, entrega tudo à Misericórdia do Coração de Jesus. Assim, supera a contento as contrariedades pessoais e as contradições dogmáticas e morais que angustiam e dividem bispos, padres e famílias cristãs.

 

6- Simples, carinhoso e educado

Dom Milingo, que é maneiro, simples, gentil, carinhoso e educado, parece agigantar-se quando, ao referir-se a seus ideais, acentua que sua artilharia permanecerá voltada às “descabidas formas de intransigência por parte do Magistério Eclesiástico, com referência à doutrina e aos costumes”.

De modo especial, ele acentua o respeito à educação integral das pessoas; o respeito à moral sexual, ao desenvolvimento afetivo e à vida conjugal.

Ele não se esqueceu de colocar, com total ênfase, nesta cesta, os  múltiplos transtornos causados à sociedade e à Igreja, pelo desastrado estabelecimento da obrigatoriedade do celibato clerical e pela teimosia em mantê-la, apesar dos sinais inegáveis de sua falência.

 

7- A Igreja existe para a humanidade toda

 A teologia pastoral característica de dom Milingo é sábia, simples e evangélica. Convence a Igreja ao acolhimento de todos os homens. Convida à reflexão, ao arrependimento e ao pedido de perdão todos os homens e mulheres que, no desenvolvimento de suas ações, se surpreendem em erros. É teologia vivenciada, verdadeiramente voltada para Deus e não para teorias. É fruto da vida sofrida de um bispo virtuoso que, embora desde o nascer profundamente colonizado, mantém-se em busca de liberdade eterna.

 

8- Da tribalidade à universalidade

Quando dom MIlingo nasceu - segundo seus mestres - o que provinha da cultura africana não passava de banalidade tribal! Evidentemente, ele superou os traumas mais profundos; porém, ainda carrega o peso de ter sido um “autóctone”, desrespeitado na delicadeza e na propriedade de sua cultura; de sacerdote católico que teve de aceitar verdades, [para ele sem parâmetros explicáveis], simplesmente porque aprendera que era obrigado a obedecer. Adolescente, a europeização lhe pareceu o melhor negócio do mundo.

Jovem seminarista, sua ordenação sacerdotal valeu-lhe como galardão pessoal jamais conquistado por seus amigos. Quando nomeado bispo, talvez lhe tenha passado pela cabeça que a bula pontifícia valesse como carta de alforria que o liberava do impedimento de dar seu apoio a ritos culturais e mítico-religiosos afro, sem ter que falar com outros bispos!

Em pouco tempo perdeu o pastoreio de sua  arquidiocese, acusado de má administração e imprudência no exercício de seu carisma de cura. Recolhido em Roma, ficou “ancorado” na Itália por 20 anos!

 

9- Perigos do ritualismo

Cabeça coberta pela mitra e corpo ereto, segurando cajado que sempre impressiona, mas às vezes também engana, dom Milingo, sucessor dos Apóstolos, embora tenha sido fortemente acusado, jamais aderiu às bruxarias típicas, tradicionais e comuns em seu continente. No entanto, em sua mente, talvez sem o perceber, ele as tenha substituído pelas formas rituais solenes da Igreja Católica. Não só na África, mas no mundo todo, inclusive nas proximidades da Cidade do Vaticano, ainda proliferam batizados [inclusive nas multidões de romeiros] que consideram as solenes celebrações rituais católicas como manifestações da magia mais forte, porque ditadas e garantidas pelo Espírito Santo.

 

10- Católico apostólico romano

 Não sugiro qualquer restrição a dom Milingo e seus procedimentos na construção da Igreja. Ao contrário, seus relatos - que gravei, mas ainda não tive tempo para deter-me o suficiente sobre os significados deles – despertaram em mim simpatia e veneração por seu testemunho. Ele é confessor “emérito” da honestidade no cumprimento dos princípios evangélicos que assimilou e testemunha.

Cada um realiza o chamado que recebeu de Deus, da forma que pessoalmente o entende e como sabe fazê-lo.

Com dom Milingo não acontece de forma diferente. Por mais que haja pessoas que ainda suspeitem dele como participante maior da Igreja da Unificação, criada pelo reverendo coreano Sun Yun Moon, que o protege e financia, dom Milingo se confessa livre dos interesses doutrinais desse seu protetor e de sua Igreja. Sempre foi e continua católico!

Segundo dom Milingo, o reverendo coreano “o respeita e venera como um arcebispo católico a serviço da família...Apenas isso”. Por ter se ter casado com uma fiel da ”religião de Moon”, não significa que ele tenha deixado de ser católico, nem que tenha se tornado dependente do Reverendo Moon.

 

11- Moon e Milingo pouco conhecidos

Nesta manhã de sábado, impulsionado pelo ímpeto jornalístico de pesquisar dados a fim de complementar matéria sobre dom Milingo e sua saga, ouvi 14 pessoas no Shopping Eldorado, na cidade de São Paulo. Nove não conheciam a comunidade religiosa do Reverendo Moon; 14 jamais ouviram referência à missão de dom Milingo.

De retorno em casa, por telefone, entrevistei um sacerdote católico que trabalha em paróquia da zona sul de São Paulo. Assustei-me com a violência de suas palavras, atacando o Reverendo Moon e seus seguidores por causa da posição deles quanto aos homossexuais, aos desavergonhados e aos desrespeitosos às famílias mal constituídas e mal conduzidas.

 

12- Dom Milingo está certo?  E o padre?

Sem mais nem menos, o padre disse-me de sua indiferença quanto à obrigatoriedade do celibato eclesiástico, pois “como homossexual, jamais a Igreja Católica admitirá que eu me case”. Disse que dom  Milingo “está certo em ficar casado com quem quer e em ficar na Igreja de sua escolha... Mas “ele não deve ordenar padres e bispos, para não aumentar possibilidade de decepção e de frustração de muita gente boa”...

No entanto, a seu ver, dom Milingo deve colaborar na linha do Reverendo Moon, pois além de “ patriótica (!), a valorização da colaboração, da afetividade e da sexualidade das mulheres, elas são os dínamos que impulsionam as famílias, sem concessões nem ao feminismo, nem ao machismo, nem ao homossexualismo... Elas funcionam como termômetros que marcam a temperatura mundial”.

 

13- Nostalgia dos ritos e amor

Dom Milingo pareceu-me nostálgico da vida “católica e romana”. Ele viveu mais de meio século na realidade paramentada. Celebrava  festas com oitavas, estimulado pelas leituras do Segundo Noturno do Ofício Divino. Por isso, mesmo desejoso de reformular  seus procedimentos pessoais, talvez pela idade e por condições de saúde, ele se manifesta possuidor de mentalidade ritualista. No entanto, ele deixou bem claro que prefere conviver com as pessoas que “pontificar” para elas.

Ele se diz contrariado quando tem que recusar celebrar ritos, como se fosse azeitona em empadas, pois não é simulado.

Homem normal e exemplar, dom Milingo, ao optar pelo ritual do Reverendo Moon para declarar seu amor a sua esposa, não o fez para desrespeitar o Papa e a Igreja e, menos ainda, por publicidade.

 

14- Casou-se na casa do vizinho

Como centenas de milhares de sacerdotes, dom Milingo também viveu no celibato obrigatório. Respeito-o com generosidade e honestidade, enquanto lhe foi possível. Justas ou não, ele aceitara as normas eclesiásticas! Porém, quando resolveu viver sua disposição de guardar a castidade, em espírito e verdade, também seguiu os apelos de sua consciência: casou-se.

Como não lhe era facultada a bênção nupcial em ambiente católico, recebeu-a na casa do vizinho, seu amigo Moon!

Portanto, demonstrou-se confiável e de caráter. Homem de coragem para superar-se, vencer preconceitos e continuar vivendo em busca da felicidade! Inseriu em sua história eventos semelhantes aos de milhares de outros sacerdotes casados, que testemunham a força de um amor maior do que o ritualismo e o tradicional, que a sociedade religiosa valoriza, sem pensar em todas as conseqüências!

 

15- Romances fugazes e autenticidade

Milhares de sacerdotes que apreciam a transparência vital e a coerência evangélica casaram-se, casam-se e se casarão, sem minimizar sua fé, nem esconder mulheres e filhos que participam de seus sofrimentos e de suas alegrias.

Desagrada e é pecaminosa a vida de bispos e presbíteros envolvidos em romances fugazes, egoístas e lascivos. Deus os perdoa. O mesmo, no entanto não fazem suas comunidades.

Emociona a recordação de pessoas como Marcos Noronha, Jerônimo Podestá e Antônio Lima, bispos que, como Milingo, por suas vidas corajosas, atestaram e atestam sua fidelidade ao Amor e  sua coerência no Ministério.

Segundo dom Milingo, a legislação eclesiástica, proibitiva do matrimônio aos presbíteros e bispos, quer continue em vigor, quer seja modificada, jamais afastará da honestidade os homens de caráter, que não sabem nem querem fingir. É construtiva e segura a vivência da castidade que se desenvolve na vida diária dos casais, pela vivência do amor movido pela fé e fortalecido pela esperança.

 

16- A Igreja precisa de nosso testemunho

Como padres casados, continuamos todos no quadro do pastoreio para atendimento da grande família de Deus, estejamos ou não integrando a “oficialidade” do ministério ordenado.

Os curiais vaticanos ou diocesanos não nos querem em serviço, porque nossa presença, acompanhados de nossas mulheres e nossos filhos e amparados pelo carinho deles os constrange, por motivos óbvios.

Deus não nos exclui nem do ministério nem da presença entre os irmãos sacerdotes. Estes e todo o Povo Santo precisam do testemunho da lealdade de nosso amor e da eficiência de nossa dedicação, dois dos produtos em maior falta entre os bispos e os presbíteros viventes no estado “de celibato oficial”.

 

 

São Paulo,  8 de dezembro de 2007

Prof. Dr.José Vicente de Andrade

jva2237@gmail.com