O aniquilamento
Domingos Zamagna (*)
A "passio" que atinge o Pe. Júlio Lancelotti e toda a nossa Igreja nestas últimas semanas me traz à memória uma famosa e misteriosa frase do sofrido Léon Bloy (1846-1917): "Tudo o que acontece é adorável". Só os santos podem dizer uma coisa dessas. E eles existem. Eu a ouvi, por exemplo, de um grande católico, o jornalista, jurista e ex-senador por Minas Gerais, Edgard de Godoy da Mata Machado, após o assassinato de seu filho pela ditadura militar. Até nos mais profundos abismos da existência, pelo mistério da fé, podemos encontrar a manifestação da Trindade Santíssima. De Deus nada pode vir senão o bem, a unidade, a verdade, a beleza, o amor. Nenhuma maldade oriunda do coração humano pode ofuscar a luminosidade do Criador e Redentor.
É impressionante, por isso, que o Pe. Júlio tenha forças para dizer: "Que ninguém se perturbe na sua fé. Nós, seres humanos, e os padres também, somos frágeis. Que a Igreja não seja atingida nem desrespeitada." É um testemunho de ordem superior, porque ele próprio se diminui para que cresça a Igreja (cf. Jo 3,30), pois ela é o sacramento do Reino de Deus, que não passa. Até a Igreja é provisória. Os teólogos falam da natureza "quenótica" da Igreja (a kénosis, isto é, o esvaziamento, o aniqüilamento de quem tinha a condição divina, como se lê em Fil 2,5-11).
Infelizmente há quem se alegre com a desventura de pessoas e instituições, até mesmo de quem vem se dedicando diuturnamente a amparar crianças enfermas, jovens infratores, o povo que vive nas ruas e todos os que buscam o benefício espiritual de seu ministério.
É nestes difíceis momentos que descobrimos o caráter das pessoas e dos grupos. Haverá sempre, na Igreja, o convite para adorar o Cristo glorioso, revestido da beleza, particular e única, da Transfiguração e da Ressurreição. Talvez seja mais difícil, porém - mas não menos necessário -, adorar o "Homem das Dores", pendente da cruz, despojado de toda beleza exterior. Na história do cristianismo, não faltaram inúmeros exemplos de quem, configurando-se com a deformidade do Servo Sofredor, viesse a manifestar o amor infinito de Deus, que chega a se revestir da feiúra do pecado para elevar-nos, além dos sentidos, à incorruptível beleza da santidade.
São Paulo não poderia ser mais claro: "Somos entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal" (2Cor 4,11).
(*) Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo.